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ARNALDO JABOR

Uma CPI moralista seria a vitória dos imorais

  Será que ninguém vai levantar a voz para defender o bom funcionamento do país, diante desse ridículo episódio do "pecado" de Waldomiro? Julguem o "pecador", já que o caso está com ares de inquisição religiosa. Prendam-no, se for o caso, mas preservem o bem da República. Este meu artigo é obvio, mas diante de tanta hipocrisia, só obvio pode ajudar. Esse episódio não tem a menor importância; o fato de terem descoberto um assessor com a mão na cumbuca não beneficia nem a moralidade nem a verdade. Ao contrário, esse ardor udenista anacrônico, com a súbita "pureza" dos velhos políticos fisiológicos, eriçados como as "cerdas bravas do javali", só prejudica a todos nós. Não há desejo de "moralidade". O desejo real é de abalar o PT no poder. Mais nada. Os que me lêem, na minha pobre vida de jornalista, sabem que passei oito anos esculhambando o PT e, especialmente, o Zé Dirceu porque, em nome de interesses partidários prejudicaram um momento em que tivemos um presidente decente, seriamente preocupado com a modernização do país. Atazanaram o homem como se ele fosse mais um picareta que tivesse chegado ao poder. Não era. FHC foi uma exceção na história da república; foi um acaso político que um homem de sua estatura chegasse ao poder. O Lula também é um caso excepcional. Ambos são filhos do mesmo momento histórico, de 20 anos atrás, quando a redemocratização propiciou o surgimento de um partido de origem trabalhista como o PT e um partido ético, liderado por homens sérios e patriotas como Montoro, Serra, Covas e FHC, entre outros. Duas visões irmãs da social-democracia. Uma das grandes decepções de minha vida foi ver o PT atacando o velho companheiro FHC que distribuía panfletos com Lula em São Bernardo; foi ver a estúpida academia atacar seu colega FHC por rancor e inveja, foi ver que os intelectuais não percebiam que esse acaso histórico tinha de ser preservado contra os falsos cânones tradicionais, contra categorias formais de analise política.

O Brasil não é um país normal. Não pode ser analisado por critérios idealizados, como se fôssemos Suíça ou Bélgica. O Brasil é a história da depredação de donatários sobre colonos, o Brasil é a história de uma endemia corrupta de 400 anos, de um grande discurso oligárquico, para manter os cidadãos iludidos e inermes. Se olharmos para trás, só veremos horrores no poder, chanchadas, caricaturas, presidentes depostos, militares boçais, bêbedos renunciando, megalomaníacos fazendo cidades, camarilhas de Ali-Babas falando em "honra". Que papo é esse de "restauração de moralidade" dentro do vergonhoso ambiente político que nos assola? O Brasil é um grande bingo. Que "moralidade" é essa que a mídia defende, obedecendo cegamente à versão oficial de políticos que querem desestruturar um governo que é originariamente (e até ingenuamente) comprometido com a tentativa de mudança do país? Não votei em Lula. O PT no poder tem cometido bobagens, sem dúvida. Mas, não é esse o problema principal. Estão tentando pegar no PT uma doença que não é dele. O PT, Lula, Dirceu sofrem de outras "doenças infantis", mas não sofrem da doença desse estamento fisiológico que comanda a zorra total há séculos. Alguém chamou de "síndrome da farinha do mesmo saco". "Está provado. Viva! Somos todos iguais!", berram os corruptos. Essa gente odeia não o PT ou o FHC; eles têm horror de qualquer governo com algum projeto ideológico para o país. A maior novidade dos governos de FHC e de Lula foi justamente que, em vez de chafurdarem gostosamente no lodo - como sempre fizeram outros governos - buscaram uma renovação ética. Os dois presidentes tratam a escrotidão fisiológica pragmaticamente, tentando governar com o país possível. Seu erro é que dois homens progressistas governaram, um com o apoio de ACM, outro com Sarney e nunca se uniram. Como explicar isso? Neste momento, o ato mais revolucionário e patriótico seria o PSDB atacar publicamente essa CPI absurda, tirando munição dos golpistas que defendem a "honestidade". Não se trata de defender as pessoas, Dirceu, quem seja, mas de defender a máquina republicana. Deixaram essa função para o PMDB. Quem está fazendo isso? Sarney - a quem Lula foi pedir ajuda. Por bons ou maus motivos, Sarney está fazendo o que o PSDB devia fazer. A oposição que o PT fez a FHC por oito anos foi um dos maiores erros históricos do Brasil, uma enorme oportunidade perdida. Será que o PSDB, que se arroga uma visão macro-histórica, "processual", vai repetir o erro? Quem ganha com uma CPI e com um governo entrando em "anomia" são justamente são justamente os parasitas que vivem entre o público e o privado, são os reacionários tradicionais, são os velhos udenistas disfarçados, são os oligarcas que querem o retorno do tempo torto, quando a metáfora "brasil" era apenas um pretexto para os negócios espúrios.

A mídia, em geral, cai na rede do moralismo e de uma "objetividade" não-opinativa e não questiona os motivos sujos atrás da busca de "pureza". Ficam rodando na aparência dos fatos e não desvendam os motivos ocultos. Eu digo claramente o que penso: Zé Dirceu é um defensor da causa brasileira, com todas as babaquices que possa ter cometido. Esse governo padece de outras doenças, mas é basicamente "limpo" e uma CPI hoje não seria uma vitória da "moralidade", mas, ao contrário, seria um triunfo dos imorais. O país do atraso quer roer os petistas no poder. Os grandes ladrões públicos se regozijam com esse escândalo que irrompeu com o Waldomiro. Políticos que sempre pensaram em vantagens, resolvem bancar prostitutas escandalizadas e pedem a cabeça dos social-democratas. Foi assim com FHC e agora será com o Lula. Um udenismo malsão e hipócrita quer escangalhar a máquina do poder. Este é o paradoxo: uma CPI agora só beneficia os que odeiam a moralidade política.

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