Amarelo: a cor do verão?
Por Alessandra Leles Rocha
Quem diria hein! O Brasil está amarelo
outra vez!
Ah! Mas, por que o espanto? Afinal, se
este é um país tropical nada mais comum, vez por outra, ficar
amarelinho! Pena, é que dessa vez ele foi acometido por uma de
suas principais mazelas: a Febre Amarela1.
Sim, ela aqui reside muito antes da
chegada da primeira caravela portuguesa e enquanto lhe for
aprazível e acolhedor continuará a fixar residência. Apesar de
tantas investidas cruéis, reservatórios2
em quantidade e qualidade garantem sua preservação ao longo
dos séculos. Silencioso e perspicaz o vírus3
se esconde numa variedade considerável de vetores4,
capazes de se reproduzir em profusão; e não se acanha nem um
pouco se tiver que atuar no campo ou na cidade. Isso é que é
ser um nato estrategista!
E nós, pobres mortais cheios de
soberba, estudamos muito, lemos um bocado, mas na hora de
colocarmos em prática a lição erramos sem o menor pudor.
Diante de um inimigo tão antigo e também tão conhecido, como
fazer de conta que somente nossa “superioridade” é o bastante!
Isentos dos devidos cuidados e precauções nos lançamos de
corpo inteiro ao terreno inimigo, porque nossos desejos e
vontades assim determinam. Para alguns, o amarelo até começou
a brotar nesse instante, porque o medo de encarar a vacina
previamente os levou a sorrir amarelo, quando o primeiro
mosquito os picou. Em pleno século XXI e a sociedade batendo
cabeças com erros do passado! Oswaldo Cruz5
enlouqueceria se ainda estivesse vivo!
Não bastasse a invasão e destruição
antrópica aos espaços naturais, no afã de garantir o bem-estar
dos seres humanos, o homem ainda se vê no direito de utilizar
o que restou sem ser molestado por nenhuma outra espécie.
Fizemos uma miscelânea deturpada entre o urbano e o rural,
nossas matas e arranha-céus, deixamos desorientado o
equilíbrio natural das espécies e nos expusemos a toda sorte
de riscos e patologias desnecessárias; muito embora, tenhamos
descoberto a cura ou prevenção para muitas delas. O fato é que
se a Febre amarela está de volta é porque não ficamos, durante
tantos outros episódios da doença, amarelos de vergonha com
nossa própria estupidez. Tomamos vacinas como quem toma
sorvete; sem critério, sem responsabilidade, sem guardar
comprovante, sem saber ao menos quando foi, até que o tempo
passe, a validade se extinga e fiquemos a mercê da própria
sorte. Viajamos para qualquer lugar, de qualquer modo, sem
pensar em riscos ou na vida. Do rural para o urbano é um pulo;
mas, nos esquecemos dos pequenos detalhes, da picardia natural
da Natureza, e criamos displicentes milhares de mosquitos que
também armazenam esse vírus e outros tão perigosos como ele.
Enfim, nossa consciência parece pálida, amarelada, sem sinais
vitais de operação satisfatória.
Nem interessa saber se o caso é
epidêmico6
ou não, se devemos nos preocupar... Estamos diante de um
vírus, uma partícula ínfima, mas de potencial letal, rodeado
de agentes com capacidade transmissora e facilidade
reprodutiva, amparado por uma conjuntura sócio-ambiental
satisfatória ao mais terrível dos resultados – áreas urbanas
infestadas por Aedes aegypti próximas de áreas
endêmicas7
para a Febre Amarela Silvestre; bem como, intenso fluxo
migratório rural-urbano possibilitando a importação do vírus
dos ambientes silvestres para os urbanos. Hoje é a Febre
Amarela que nos ameaça, amanhã poderá ser a Malária, a
Leishmaniose, a Febre Maculosa ou quaisquer outras
enfermidades tropicais; por isso, é preciso agir sob os
verdadeiros pilares da sustentabilidade para que a vida exista
em todos os seus matizes e não continuemos a ser um país de
amarelos, seja pela desnutrição, pela miséria, pelas doenças,
pelas vergonhas, ou por esta ter sido simplesmente escolhida
como a cor do verão.
1
Doença infecciosa febril
aguda, transmitida por vetores, que possui dois ciclos
epidemiológicos distintos (silvestre e urbano). Possui
gravidade clínica e elevado potencial de disseminação em
áreas urbanas.
2
Na Febre Amarela Urbana, o
homem é o único reservatório com importância
epidemiológica. Já, na Febre Amarela Silvestre, os macacos
são os principais reservatórios do vírus, sendo o homem um
hospedeiro acidental.
3
Trata-se de um RNA Vírus,
arbovírus pertencente ao gênero Flavivirus, família
Flaviviridae.
4
Na Febre Amarela Urbana, o
principal vetor é o mosquito Aedes aegypti (o mesmo
que aparece na transmissão da Dengue). Já, na Febre
Amarela Silvestre, os transmissores são mosquitos com
hábitos estritamente silvestres e no contexto da América
Latina os gêneros mais importantes são o Haemagogus
e Sabethes; sendo que, no Brasil, a espécie
Haemagogus janthinomys é a que mais se destaca na
transmissão do vírus.
5
Oswaldo Cruz (1872 –
1917), médico, sanitarista. Um de seus trabalhos mais
importantes foi a criação de um método para fazer o
diagnóstico da Doença de Chagas, cuja eficiência chega a
100% segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). Foi
também o responsável pela campanha de saneamento e
vacinação na cidade do Rio de Janeiro (1904), que culminou
em violentos conflitos de rua (Revolta da Vacina), mas a
Febre Amarela foi controlada.
6
As epidemias ou doenças
epidêmicas se caracterizam pelo aparecimento súbito, com
uma grande incidência, em determinada área, assumindo
caráter alarmante dentro da população.
7
As endemias representam
moléstias cuja ocorrência, numa determinada região, afeta
grande número de pessoas rotineiramente.