Coisas de poeta?
Por Alessandra Leles Rocha
Drummond1,
Cecília2,
Quintana3,
Bandeira4,...
por onde andam seus feixes de luz poética? Talvez escondidos
nas prateleiras, submersos nas letras impressas nas páginas
dos livros, ofuscados pela poeira tristonha do tempo, apagados
pelas urgências da memória.
É, mas como vocês fazem falta! De letra
em letra, palavra a palavra e a angelical destreza de suas
rimas consegue descortinar os véus da alma humana. Coisas de
poeta? Sim! Quem mais, nesse mundo de meu Deus, tem habilidade
o bastante para esses feitos? Poesia não é arte desse tempo;
ela é atemporal, é simplesmente um jogo de espelhos capaz de
refletir muitos rostos, cenários, lugares e épocas sem nunca
perder sua própria essência.
Com tanta correria, desatino
interminável do cotidiano não se tem tempo para prosa, quiçá
para poesia! O coração não consegue ditar o próprio ritmo da
vida e bate descompassado, ofegante, saltando palavras, idéias
e emoções, até chegar ao fim do dia herói de causas perdidas.
Mas se fosse só o coração, que maravilha haveria de ser! Cada
pedacinho do corpo, do consciente e do inconsciente, tudo está
distante do aconchego e da plenitude lírica, nos distanciando
da beleza e da emoção. Tornamo-nos tão sintéticos e econômicos
com as palavras que nos faltam elos para versar.
Então, precisamos acordar a poesia de
seu estado de repouso e dormência, para que ela possa nos
salvar de nossa cegueira indiferente. Somente instigando nossa
alma através do lirismo seremos libertos de inúmeros
calabouços imaginários e conseguiremos nos perceber em
profundidade e exatidão.
A vida é rima,
é trova,
é rica,
é pobre,
é poema de toda sorte
e não há como ser
diferente:
é a odisséia de cada
vivente.
Por isso é tão necessário remover das
estantes as teias de aranhas, os cupins, o mofo e dar a luz à
própria luz poética, ouvir com os ouvidos da alma o que tem a
dizer aquelas palavrinhas tão tímidas, render graças àqueles
fantásticos mestres da arte e da vida por sua infinita
disponibilidade em nos retirar do lodo da ignorância e da
alienação, e humildemente ousar escrever no papel ou nas
páginas da existência diária nossa própria manifestação
poética, como quem admite indubitavelmente sua essência
dualista entre razão e sensibilidade. De posse de tamanha
leveza, vez por outra, alçaremos vôos ao lado de milhões de
outros poetas, sejam eles consagrados ou meramente humanos
como nós, e viveremos como “passarinhos”
5 em meio “às
pedras do caminho”
6.
1
Carlos Drummond de Andrade.
Nascido
em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, a 31 de outubro
de 1902. Em
17 de agosto de 1987, Drummond morre numa clínica em
Botafogo, no Rio de Janeiro.
2
Cecília Meireles.
Nasceu em 7 de novembro de 1901, na Tijuca, Rio de
Janeiro. Falece no Rio de Janeiro a 9 de novembro de
1964, sendo-lhe prestadas grandes homenagens
públicas. Seu corpo é velado no Ministério da Educação e
Cultura. Recebe, ainda em 1964, o Prêmio Jabuti de
Poesia, pelo livro "Solombra", concedido pela Câmara
Brasileira do Livro. Ainda em 1964, é inaugurada a
Biblioteca Cecília Meireles em Valparaiso, Chile. Em
1965, é agraciada com o Prêmio Machado de Assis, pelo
conjunto de sua obra, concedido pela Academia Brasileira
de Letras.
3
Mario de Miranda Quintana nasceu na cidade
de Alegrete (RS), no dia 30 de julho de 1906. Falece, em
Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, próximo de seus
87 anos. O autor recebeu o título de Doutor Honoris
Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, no dia 29 de outubro de 1982.
4
Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho
nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886. No dia 13
de outubro de 1968, às 12 horas e 50 minutos, morre o
poeta Manuel Bandeira, no Hospital Samaritano, em
Botafogo, sendo sepultado no Mausoléu da Academia
Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.
5
Poeminho do Contra
– Mário Quintana
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
(Prosa e Verso, 1978)
6 No Meio do Caminho - Carlos Drummond
de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
- Alessandra
Leles Rocha
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