Compromisso de alma, eterno e inalienável
Por Alessandra Leles Rocha
Falar sobre as mães é sempre uma
alegria, sobretudo porque o que seria da humanidade se não
fossem esses abnegados anjos de luz para dar vida à própria
vida. Mas, dessa vez, não poderia deixar de mencionar uma mãe
que se tornou mais que um exemplo, ela é um símbolo de que “só
as mães são felizes”1,
Lucinha Araújo2
mãe de Cazuza3.
Se estivesse vivo Cazuza completaria
esse ano cinqüenta anos de vida e por isso falar sobre Lucinha
é tão importante. Feita na medida certa entre a delicadeza e a
fortaleza, essa mulher nunca teve grandes pretensões além de
ser mãe. E foi! A vida deu-lhe um filho único, lindo,
irreverente, ousado e desesperado por viver todos os segundos
da vida de uma única vez. Se a maternidade é uma escola
natural para a existência feminina, ser mãe de Cazuza era
chegar aos mais altos degraus dessa experiência. Lucinha
mergulhou de cabeça na meteórica trajetória, de apenas trinta
e dois anos, de Cazuza e “padeceu no paraíso”. Amou-o
incondicionalmente, mesmo quando todas as atitudes dele iam ao
mais profundo desencontro de suas expectativas. Vivenciou sua
boemia, seu envolvimento com as drogas, sua bissexualidade,
seu sucesso e sua grave doença, a AIDS.
Quem viu e vê Lucinha tem a dimensão
exata do que é a maternidade, jardins imensos de flores
regadas por suor e lágrimas, aquecidos ao calor dos beijos,
abraços e olhares. Tem que ser predestinada ou se dispor muito
preparada para viver o carrossel de surpresas que se
apresentam pelo caminho. É um compromisso de alma, eterno e
inalienável, que implica em transformações profundas e perenes
no próprio ser. Não dá para ser mãe com a simples convicção
concebida nos tempos das brincadeiras de boneca! É uma relação
de gente com gente, por isso repleta de diferenças, de
neuroses, de incompatibilidades e de decepções que se
organizam e se reformulam ao sopro dos ventos.
Quando ele se foi, aos que pensaram ter
terminado a tarefa de mãe para Lucinha, ela surpreendeu o país
abraçando de corpo e alma o projeto da Sociedade Viva Cazuza4.
As dificuldades e quem sabe eventuais dissabores da
experiência maternal só serviram para confirmar que Lucinha
era mãe por natureza e só se sentiria “completa” e “feliz” se
estendesse e propagasse a outros “filhos(a)” o seu amor. Fica
assim esse legado a todas as mães e futuras mamães sobre a
maternidade: não há manual ou regra pré-estabelecida, o que
importa é deixar fluir do coração as atitudes sem a
preocupação de acertar ou errar, simplesmente agir pensando no
melhor.
1
Cazuza, só as mães são
felizes, de
Lucinha Araújo e Regina Echeverria, Editora Globo, 1997.
3
Agenor de Miranda Araújo
Neto (4/04/1958 – 7/07/1990). Ficou conhecido como o
“Poeta do Rock”. Era cantor, compositor e ganhou fama como
vocalista e principal letrista da banda Barão Vermelho.
4 Tem como intenção
proporcionar uma vida melhor à crianças soropositivas
através da assistência à saúde, educação e lazer.
Alessandra
Leles Rocha