Curativos para a alma
Por Alessandra Leles Rocha
Nem só de corpo é feito o ser humano e,
por isso, vez por outra é a alma quem carece de cuidados
especiais. Escondidinha bem lá no fundo do nosso ser, essa
parte tão linda e enigmática da existência humana revela-se
frágil. A couraça grossa e rígida que serve de arcabouço para
guardá-la sofre horrores com as pancadas cotidianas, mas nem
de longe algo equivalente aos ferimentos da alma.
Semelhante às flores ou aos cristais,
ao menor sinal de indelicadeza sua estrutura ressente;
arranhões ou golpes desferidos brutalmente vão deixando suas
marcas, cicatrizes perenes que o tempo descreve com precisão.
Algumas dores, talvez as mais simples, sem importância, frutos
de leves e inadvertidos esbarrões do destino acabam por
perder-se na poeira do esquecimento. Outras, no entanto,
perpetuam-se e cristalizam a rudeza das emoções, das razões
que as culminaram, transformando-as em legítimas chagas a
retratar e testemunhar as cenas difíceis de uma vida.
Para cada entorse, queda, tropeços ao
longo de nossa vida conhecemos bem o remédio certo para
aplacar-lhes a dor ou o incômodo. Ah! Mas quando o assunto é a
alma, quanto sofrimento! Que curativo aplicar? E, onde havemos
de encontrá-lo?
Por isso, o tratamento da alma não
segue regras ou princípios pré-estabelecidos, cada caso é um
caso. Mas, lavar, limpar os ferimentos é sempre necessário;
assim, são as lágrimas vertidas de nossos olhos as incumbidas
de purificar cada “encontrão” da vida. É preciso chorar,
chorar muito, até sentir o coração leve e o corpo rendido ao
abraço suave do sono. Falar, desabafar, também faz parte dessa
terapêutica. Somente indo ao fundo da dor, exaurindo em
palavras ou lamúrias o que tanto nos sufoca e oprime é que
será possível ressurgir, encontrar as respostas e a luz.
Buscar abrigo e consolo nos braços de alguém que nos queira
muito bem, também é outra valiosa indicação.
Mas lembre-se que o prazo de duração,
quantas vezes deve-se valer dos curativos da alma e quando
aplicá-los são respostas impossíveis de serem dadas, em
virtude de nossa própria particularidade existencial.
Restrições ou contra-indicações; bem como, prazos de validade,
tudo isso não existe! O importante é compreender que o corpo e
a alma padecem, amam, odeiam, enlouquecem, mas nos oferecem
periodicamente a bênção de assimilar em pequenas gotas o
mistério da vida. Ninguém passa por esse mundo envolto por uma
redoma, protegido e poupado de viver a evolução humana em
plenitude. Desse modo, se cair levante, se chorar agradeça, se
machucar cuide das feridas, só não se esqueça de render-se de
joelhos a essa oportunidade única que está em suas mãos!
Alessandra Leles Rocha