Degustando o sal
Por Alessandra Leles Rocha
Como dizia minha bisavó Julieta1,
“só se conhece uma pessoa, de verdade, depois de comer um saco
de sal na companhia dela”. Sábias palavras! A trama cotidiana,
as obrigações e imposições sociais, nos moldam para satisfazer
os caprichos e as necessidades da vida; então, só buscando na
convivência estreita e contínua o caminho para conhecermos a
nós e aos outros.
É! Comer um saco de sal não é tarefa
fácil! Trabalho lento, experimentação penosa, jornada de
comunhão para poucos. O doce, suave, agradável, todos se
aproximam para compartilhar; mas, o sal... esse afugenta sem
grandes pretextos! Portanto, quando alguém ousa nos acompanhar
é sinal de termos recebido da vida o presente do conhecimento
e da revelação.
Viver é descobrir o novo todos os dias,
revelar para si e para o mundo as imagens de seu caleidoscópio
pessoal, a alma. O infinito é o limite dessa viagem! Para toda
ação realizada um efeito proporcional; nosso conhecimento
sendo descortinado sem fórmulas ou receitas mágicas capazes de
dimensionar nossos pensamentos, idéias, emoções e reações. Por
isso, tantas vezes parecemos ambíguos, paradoxais em nosso
ser.
É certo que as relações mais íntimas e
profundas, desenroladas naturalmente pela vida, estabelecem o
rompimento de barreiras e etiquetas impostas pela sociedade e
nos libertam para nossa verdade existencial. Quantas de nossas
atitudes no seio familiar e entre amigos de longa data distam
do nosso comportamento pré-moldado, hein? Com freqüência somos
cobrados, por quem está mais próximo de nós, em nossas
atitudes sob a alegação de sermos pessoas melhores, mais
sensíveis e indulgentes, no ambiente externo do que interno.
Quem nos cobra apenas se esquece de que no ambiente interno
damos a oportunidade de sermos vistos com verdade, em nossa
alma, sem ritos e convenções, com nossos prós e contras, e
esta é a grande oportunidade para determinarem se vale ou não
à pena continuarem ao nosso lado degustando o sal. Já bastam
todas as condições de convívio pré-estabelecidas a nos
massacrar interiormente ano após ano, para termos que dispor
de nossa liberdade comportamental entre os companheiros da
ceia do sal.
Estaremos sempre em busca daquele ser
escondido do outro lado do espelho, alguém sempre a postos a
nos acrescentar, surpreender e deixar seus rastros. Há quem
dissimule, goste de viver em tempo integral representando
papéis, temeroso ao extremo em baixar guarda aos elementos
básicos de sua essência, que se esconda de si mesmo e rejeite
o sal em sua auto-reflexão. Mas todos, até o fim de nossos
dias, seremos figuras em construção repletas de amor e ódio,
sanidade e loucura, alegria e tristeza, sucesso e fracasso,
trabalho e ócio; desse modo, mesmo degustando juntos os sacos
de sal ainda surpreenderemos e seremos surpreendidos.
1
Julieta Alves Diniz
(08/06/1898 – 27/11/1987).
Alessandra
Leles Rocha