Fogo e cinzas para um barro santo
Por Alessandra Leles Rocha
Tantas turbulências e desajustes
espelhados por todo o planeta Terra e a fogueira das vaidades
arde em fogo alto. Que pena! A beleza da singularidade humana,
que oferece a cada indivíduo a oportunidade de colaborar na
grande teia da vida, ainda se faz motivo para acender os
piores sentimentos e valores da sociedade.
Elevar os olhos além do próprio umbigo
e contemplar a dinâmica social de outras espécies, talvez
pudesse devolver-nos a luz de nossa própria razão. Nossa
pequenez, ou melhor, mesquinhez mergulhou-nos num lodo escuro
e viscoso cujo odor entorpeceu-nos os sentidos por completo.
Deixamos de compreender nosso espaço, nosso valor, nossa
importância dentro de cada momento e lugar, absortos num medo
ensandecido que superestima nossos pares e os coloca em
posição de eclipse à nossa existência.
Ora, ora, quanta bobagem! Como se diz
na gíria do futebol “ninguém joga nas onze”! Estamos aqui para
unir e somar esforços. Aptidões e talentos apenas nos
facilitam encontrar a posição mais adequada no tabuleiro da
vida. Não há mais ou menos; todos sem distinção têm um ou
vários papéis a cumprir. E cada dia mais, o cotidiano nos
impinge a obrigação de sermos polivalentes, versáteis ao
extremo e assim darmos as mãos aos companheiros de jornada
para que a grande engrenagem não pare de funcionar.
O importante na vida é ser útil, é
vivê-la com intensidade, é edificar com o próprio suor, é não
abster-se do presente da comunhão. Sim! Comungar o pão, os
sonhos, as aventuras, os ideais, as ressonâncias, a igualdade,
a liberdade e, sobretudo, a fraternidade. Temos que ser
fraternos, aprender a defender a nossa própria espécie, evitar
o revanchismo e a rivalidade, impregnar em nossa essência a
consciência do todo.
Quando nos deparamos com um
quebra-cabeça, se não existirem todas as peças ou se essas
forem mal posicionadas o resultado final jamais acontecerá; e
o mesmo se aplica na vida dos seres humanos. Somos únicos,
indubitavelmente insubstituíveis, mas nossa força, nosso
brilho, só desponta quando nos organizamos em um todo. Corpos,
almas e corações pulsando no mesmo ritmo, por um mesmo fim, ao
som de um mesmo cântico. Vertamos gotas de água e mel sobre
essa tal fogueira das vaidades e façamos de suas cinzas barro
santo para ungir as frontes de uma nova era, de um tempo
profícuo de sucessos e vitórias, de brisa suave repleta de paz
e amor.
Alessandra
Leles Rocha