Limpando a ferida
Por Alessandra Leles Rocha
Colonizar, escravizar, oprimir, verbos
comuns à tirania do ego. Ao mesmo passo que ganhou o ser
humano a virtude da razão perdeu-a para a ignorância de seus
instintos mais primitivos.
Está claro que a humanidade não sabe
coexistir, conviver, estabelecer uma relação harmônica e
pacífica com seus semelhantes e com o restante do meio
ambiente. A loucura compulsiva de seu próprio ego enxerga
torto e desfocada a própria existência. Sim! Destruo, mato,
roubo, dilapido, invado porque quero, porque sou poderoso,
imbatível e nada, nem ninguém, pode me deter. Todos os meios
em prol de um único fim: ganância, a chaga aberta e fétida da
eterna insatisfação.
Talvez, por detrás desse espelho de
cristal reflete-se a caricata imagem da amedrontada
inferioridade humana. Pensou, com a capacidade plena de que
foi dotado, ser capaz de ousar, surpreender, desafiar tudo,
até a si próprio; e perdeu-se no labirinto das idéias, das
emoções, dos sentimentos. Apagou, como se fora um rastro de
giz, os princípios, as leis da Natureza, a ética de ser humano
e ficou a mercê das reações de suas ações inconseqüentes.
O que era para ser lindo, resgate da
fraternidade humana entre os povos, esconde na opulência da
festa a degradação das intenções. Poderosos, sempre poderosos;
dominados, sempre dominados. A geopolítica mundial pede
licença de quatro em quatro anos para transferir sua dinâmica
para o cenário esportivo e suavizar a rudeza de seu jogo
cruel. Apenas um desvio momentâneo de olhares, já que o mundo
e o tempo não param jamais. Entre medalhas, vitórias e
derrotas, as tramas da ganância continuam a fiar as becas do
poder e a ascender à rivalidade e a desigualdade entre
milhares de seres humanos.
Há sessenta anos a ONU – Organização
das Nações Unidas – estabeleceu a Declaração Universal dos
Direitos Humanos baseada na Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão aprovada em 1789, mas o que fazer se o papel aceita
tudo? Sim, o papel aceitou a igualdade, a fraternidade, a
liberdade, só não conseguiu fazer os homens aceitarem isso de
fato. Temos papéis, leis, dogmas, mas não consciência de nossa
própria existência e dignidade. Somos gulosos, irados,
cobiçadores do alheio e ausentes plenos do instinto de
preservação de nossa própria espécie. É por isso que a
declaração é universal, mas os direitos variam segundo
diferentes pesos e medidas.
Alessandra
Leles Rocha