Marcas
Por Alessandra Leles Rocha
Se fosse fácil todos tirariam de letra
a arte da convivência. Por mais que se tente não transpor
limites ou invadir espaços, sempre deixamos rastros pelo
caminho.
Especialmente no convívio entre pais e
filhos, essa relação tão singular e complexa, nem sempre os
ventos são de calmaria. Parece existir uma queda de braços
virtual entre todos os sentimentos humanos e a necessidade de
acertar, ou pelo menos errar o mínimo possível. Todos clamam
vitória às suas razões, mas nessas disputas o que não existe é
vencedor ou perdedor, porque muito pouco se agrega e grandes
muralhas e abismos são edificados. Trata-se da tênue linha
entre amor e ódio, dois sentimentos que disputam espaço e
comprimem nossas emoções.
À medida que somos seres humanos toda a
nossa existência é grande demais, nossos erros, nossos
acertos, nossos sonhos, nossos desencantos, enfim... e se
carregar individualmente esse peso sobre os ombros já é
extenuante, quiçá quando temos que auxiliar nossa prole.
Inevitavelmente misturamos tudo em um grande caldeirão, como
se o fato de sermos uma extensão física do outro nos tornasse
iguais. Então, a confusão fica formada! O tempo, as
experiências, o próprio pensamento nos constituem indivíduos
únicos e incapazes de sentir, perceber, assimilar e analisar a
vida com a mesma propriedade; mas, no afã de poupar tristezas
e dissabores ao outro, ou tornar nosso caminho mais fácil,
assim procedemos e erramos.
Por isso, às vezes causamos impactos
positivos, outros negativos, mas não vivemos os dias sem
deixar nossas marcas especialmente na vida dos que estão mais
próximos de nós. Talvez, por uma questão hierárquica, os pais
na maioria das vezes cobram-nos esses tropeços de modo mais
veemente e se esquecem dos seus próprios, e a via de mão dupla
torna-se de mão única. Dialogar é sempre uma excelente
proposta, pena que tantos pais não admitam descer de seu
pedestal e assumir que sejam tão humanos quanto seus filhos.
Deveríamos sim viver dias mais leves,
mais conscientes, mais responsáveis; entretanto, precisaríamos
antes de tudo aprender a sublimar todas as cicatrizes que o
tempo cruelmente nos ofertou e tirar de nosso fardo diário
todas as pedras que os sentimentos produziram. Reeditemos uma
nova história para pais e filhos onde aceitemos que todos têm
consigo tristezas, angústias, maus momentos, sem rotulá-los e
culpá-los quando se encontrem nessa condição.
Alessandra
Leles Rocha