O ninho de Pequim
Por Alessandra Leles Rocha
Como acontece com todos os ninhos, o de
Pequim cumpriu sua missão e agora está vazio. Depois de
abrigar tantos diferentes ovos, a ninhada de raro esplendor
voa alto no curso natural de sua migração temporal para se
aninhar de novo daqui quatro anos.
Nesse ninho tão heterogêneo cumpriu-se
a sina da Natureza. Alguns ovos não chegaram a eclodir,
resultado normal do ciclo de concepção desestruturado, sem
grandes recursos. Outros se quebraram frágeis pela força de
todo o processo e foram massacrados pelo caminho. Houve quem
rompesse a casca e tentasse permanecer de pé e avante; mas,
diante do mais alto fitness dos concorrentes ficaram para
trás. Mas, bonito mesmo, foi ver as aves, ou melhor, as Fênix
dos tempos modernos ressurgirem de dentro das cascas feitas de
cinzas e lágrimas para ostentar o peso de suas envergaduras.
Desacreditadas ou superestimadas, essas
aves fizeram os admiradores do ninho render-se de joelhos.
Nutriram-se de tudo e nada, preencheram a alma com o barro
sagrado da superação interior, fizeram da pena e do desdém
alheio a couraça que lhes blindaria contra a ausência de foco
nos momentos cruciais da jornada. E na terra, no ar e na água
as Fênix de Pequim escreveram sua história nas páginas da
história do homem sobre a Terra: mitos de carne, osso e alma
grandiosos; seres humanos ornados de encantamento e
mitificação.
Talvez quiséssemos que desse estranho
ninho de diferenças ao final tivéssemos nos deparado com uma
grande revoada de Fênix; que todos os ovos fossem dessa
enigmática espécie capaz de encher-nos os olhos e preencher as
lacunas de nossa própria existência. Por isso, sentimentos tão
confusos e antagônicos passam por nós todas as vezes que nos
deparamos diante de um ninho. O que esperar desse berço de
surpresas? Que espelho de vida e de sabedoria se revelará
diante de nós? Antes de se pensar em fazer essas delicadas
camas, frutos da criatividade arquitetônica, é preciso pensar
nos ovos, em como estarão sendo desenvolvidos, se sua formação
está condizente aos desafios da vida, se hão de sobreviver às
intempéries do mundo. Afinal, o ninho será sempre um ninho;
mas, o que ele abrigará dependerá em muito dos ovos ali
depositados. Porque uma galinha jamais será uma águia, mesmo
que seu ninho esteja no alto de uma montanha.
Alessandra
Leles Rocha