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O pão nosso de cada dia
Por Alessandra Leles Rocha
Apesar de redundante, já que não se tem falado de outro assunto
senão do Aquecimento Global e todas as mudanças climáticas
ocorridas ao redor do mundo, ele volta a nos preocupar e afetar
nosso bem-estar no que tange a produção de alimentos.
Sim, quando se fala em clima a
agricultura é quem sofre diretamente as mais despercebidas
alterações e responde sua repulsa ou aceitação na qualidade e
quantidade do que nos ofertará. Assim, temos vivido em
constantes altos e baixos das variações de oferta de produtos,
com conseqüentes fases de queda e elevação dos preços dos
mesmos. Mas, enquanto tais sobressaltos se davam de forma
harmônica e, até certo ponto, esperada não lamentávamos grandes
preocupações.
O fato é que desde o último século as
transformações se acirraram de tal maneira a haver falta,
desaparecimento em muitos casos, de diversos itens de nossa
dieta. A disponibilidade de áreas agricultáveis nunca se deu de
modo homogêneo sobre a superfície do planeta e sempre alguns
tiveram que produzir para si e para os desafortunados
ambientais. Agora, além da restrição geográfica, é o clima quem
dita os caminhos do que iremos ou não consumir. Tempos difíceis,
comparados aos martírios das guerras, quando nem sempre ter o
dinheiro para aplacar as necessidades significa êxito.
De frutas e verduras a leites, cereais
e ovos temos perdido o direito de escolha para satisfazer nossa
alimentação. Os exigentes e intransigentes consumidores têm sido
obrigados a aprender com severidade a lição da humildade.
Desperdícios, então, tornaram-se sacrilégios absolutos e fizeram
surgir à criatividade na cozinha. Cascas, talos, folhas que
antes iam parar no lixo, hoje dão origem a pratos ricamente
nutritivos e saborosos. Especialmente para as futuras gerações,
essas mudanças de paradigma vêm construindo uma sociedade mais
consciente, mais alerta quanto a eventual escassez de alimentos
tradicionalmente conhecidos.
Com tantas alterações, essa não poderia
ser diferente e acontecer na velocidade das necessidades; ela,
ainda, é lenta e gradual. Por isso, há quem feche os olhos, os
ouvidos e a boca e se dê ao direito de substituir tudo por
vitaminas, suplementos e outros produtos industrializados, uma
verdadeira enxurrada de conservantes, corantes, acidulantes e
afins, tal qual se nada fosse lhes perturbar a tranqüilidade.
Enquanto isso vai se formando legiões de pessoas com diversos
problemas de saúde – diabetes, hipertensão, colesterol elevado,
obesidade mórbida etc. - porque ao invés de lutarem a favor de
alimentos naturais e saudáveis, ou seja, de buscar novas
técnicas de produção agrícola capazes de contornar os impactos
sofridos pela Natureza, eles centraram foco nas farmácias, lojas
e supermercados.
Mesmo diante de tantos desafios na
agricultura é preciso unir forças, espaços, tecnologias para
continuar produzindo alimentos que são à base de nossa
sobrevivência real. Não importa se a diversidade distar das
expectativas ou se a quantidade per capita vier a ser reduzida,
o importante é que todos possam desfrutar dos benefícios que só
a Natureza pode oferecer. Não foi por acaso que em diferentes
alimentos podemos encontrar os mesmos nutrientes.
Enquanto uns e outros reclamam à
ausência de um determinado vegetal à mesa, lembremos que
independente das intempéries a assolar a produção, há ainda
seres humanos que não tem nada para comer por meras questões
políticas e sociais. Então, refletir e agradecer a cada refeição
dá a cada um de nós a devida dimensão do que envolve a expressão
“o pão nosso de cada dia”.
- Alessandra Leles Rocha
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