A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

 

O rugido do leão

Por Alessandra Leles Rocha 

Embora vivamos em pleno Brasil, país até certo ponto distante da África e suas savanas, esconde-se em nosso solo, em meio ao nosso Cerrado talvez, uma espécie de leão bem imponente, o Felis fiscus.

De hábito peculiar, o tal bichinho nunca foi visto ou fotografado, mas suas vítimas, boa parte da população brasileira, já sentiram a dor de sua mordida e a estranheza pela predileção ao órgão mais sensível da sociedade: o bolso.

Mas, por que tocar nesse assunto tão folclórico logo agora? É que logo no início do novo ano, o leão decidiu fazer um lanchinho e deu duas mordidas consideráveis. Faminto e furioso com a perda da CPMF1 no fim de dois mil e sete, ele ficou descontrolado. Rugiu, rosnou, andou de um lado para outro, eriçou a juba, afiou as garras e partiu para o ataque. Onde já se viu perder quarenta milhões de reais assim! Leão que é leão perde a lebre, mas não perde o bisão. Repleto de insatisfação e orgulho ferido, o rei da selva decidiu mostrar que sua fome poderia ser ainda maior.

Golpe certeiro com a IOF2 e outro mais periférico, e não menos certeiro, no bolso dos banqueiros. Vai dar para fazer banquete e sobrar para uma quentinha! Pena que o leão foi imediatista, satisfez a fome a curto prazo e não se ateve aos detalhes. Quem mais poderia fazer o bolso da IOF se abarrotar vai ser cauteloso. Sem previsão de aumento salarial ao funcionalismo público e indicações contrárias ao endividamento a longo prazo, indústria e comércio também irão ressentir sua desaceleração gradual e partirão para a redução de funcionários e despesas. Aos desempregados péssimas notícias: o paternalismo dos concursos públicos está por hora suspenso, por motivo de contenção de gastos. Os grandes banqueiros curarão os ferimentos da mordida do leão repassando em cascata o ônus dos serviços por eles prestados, ou seja, devolverão a mordida em pequenas dentadas ao restante da população; até que, muitos desistam de utilizar tais serviços e retomem a prática obsoleta de guardar dinheiro no colchão.

É fiscus, “barriga não dói só uma vez”! Satisfeito de imediato, os dias passarão e a fome surgirá novamente; mas, talvez, com bem menos bolsos a morder. Economia minguada, bolsos raquíticos, sinais de muita sonegação para garantir ao menos o pão de cada dia. Isso é que dá “ter o olho maior do que a barriga”! Da próxima vez, alimente-se com parcimônia e garanta o equilíbrio da cadeia alimentar.


1 CPMF – Contribuição Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira (CPMF). Extinta em 31/12/07.

2 IOF – Imposto sobre operações financeiras (IOF, que incide sobre operações de crédito, de câmbio e seguro e operações relativas a títulos e valores mobiliários).


Alessandra Leles Rocha
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  28/01/2008