A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

 

 

Pelo amor de Deus!

Por Alessandra Leles Rocha

Meio século se passou desde a primeira conquista brasileira nos gramados: a Copa do Mundo de Futebol na Suécia (1958).

 Saudosismos a parte, porque eu nem nascida era; mas, os registros jornalísticos históricos contam a saga atlética de heróis sem muito brilho ou esplendor. O esquadrão canarinho voava e encantava porque isso lhe dava sentido, fazia bem ao espírito e nada mais. Eram tempos em que chegar à seleção ocasionava visibilidade nacional e internacional. Sem os recursos tecnológicos, com os quais se dispõem atualmente, os jogos chegavam prejudicadamente aos torcedores pelas frágeis ondas do rádio e as reportagens de jornais e revistas. Poucas fotos, nenhuma publicidade e patrocínio zero, jogador de futebol nessa época ia para o gramado por puro idealismo e se chegava a vestir a amarelinha sentia por ela amor profundo e singular.

Está explicado o sucesso e a relação de paixão entre a seleção brasileira e os torcedores, não é? De ambos os lados havia respeito, cumplicidade e sentimento. Um casamento perfeito que a modernidade do tempo foi conseguindo esgarçar. Pena, ouvir de quem vestiu há bem pouco tempo a amarelinha que “amor à camisa é coisa do passado”! Hoje, em pleno século XXI, na era do laptop e tantas outras parafernálias, os aspirantes a craques da bola enriquecem e se popularizam sem muitas vezes tornarem-se conhecidos dentro do próprio país. A visibilidade e a respeitabilidade que o manto sagrado um dia proporcionou foram massacradas pelos lucrativos contratos com clubes estrangeiros e patrocinadores renomados.

Então, somos hoje obrigados a torcer por uma seleção exalando fastio e preguiça, despreocupada se vai vencer ou perder, enquanto desfruta do mais moderno aparato logístico em suas competições. Blindado na fama de outros tempos, aqueles gloriosos, ainda há quem veja o futebol brasileiro como ameaça e negocie absurdamente a liberação de jogadores para competições importantes da seleção.

É! A situação está dramática! Recordar o que passou aumenta em muito a nossa dor! Celeiro da mágica futebolística, do drible desconcertante e refém da mais plena perda de valores, motivo de indignação e revolta. Não bastasse toda a labuta do torcedor brasileiro, cidadão, pais e mães de família que vive os dissabores cotidianos, ainda ter que suportar tamanho escárnio é demais. Uma migalha pelo amor de Deus do que foi o futebol brasileiro, para fazer nossos olhos verterem lágrimas de emoção e alegria, e o coração desafogar a tristeza em batimentos espalmados de satisfação!

Alessandra Leles Rocha

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 11/08/2008