A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

Para a vergonha de Deodoro1

 Por Alessandra Leles Rocha

Cento e dezoito anos se passaram desde sua proclamação e a República Federativa do Brasil ainda prova o fel amargo de seu próprio princípio, governar o país por meio de indivíduos eleitos pelo povo.

Sob a premissa do poder advindo do sufrágio, nossos representantes não têm se furtado a quebrar o decoro e a desgastar os caminhos da nação. Trabalhar para e pelo povo transformou-se em reles discurso de campanha, ultraje roto e sem credibilidade. O pleito eleitoral tem sido visto como trampolim da garantia social, do bom salário, da aposentadoria segura e de todas as benesses que possam vir a merecer.

Os eleitores, pobres diabos da indigência, crédulos em fiapos de desesperança, acabam então como bons pagadores da boa vida, enquanto seu futuro é jogado à sorte, ou melhor, a falta dela entre uma e outra negociata. Pagamos caro nossa aviltante miséria!

Embora, perdidos no tempo e no espaço, os anseios de abandonar o escravismo, em todas as suas formas, que fundamentaram o pensamento republicano precisam novamente ecoar. Sob chibatas e troncos virtuais continuamos a ser escalpelados em nossa dignidade, sem voz e vez, sem clemência e misericórdia, sem bravos defensores de nossa existência. Movemos o país, a roda da fortuna, o descalabro da ganância, mas não fomos ainda capazes de pulsar nosso valor de nação. Por isso, não bradamos nossa vergonha; simplesmente, silenciamos no ato do voto nossa insignificância dentro da grande senzala.

Então, onde está a República? Por onde andam nossos republicanos abolicionistas? O povo conclama seus dignos representantes a não só tomar assento na tribuna, mas a exercer em nome dele a luta pela justiça de seus direitos humanos, pela liberdade, pela democracia. Evoluir, acompanhar a dinâmica da vida, aparar as arestas do tempo é o que se espera dos grandes líderes; contudo, sem jamais perder de vista os princípios, a ética e a moral. Que neste quinze de novembro, a Proclamação da República deixe de soar apenas como feriado nacional e passe a ser um estímulo de transformação contra o que se pode chamar de Rés Pública.


1 Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, responsável pela Proclamação da República no Brasil, em 1889.

 
Alessandra Leles Rocha
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  12/11/2007