A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

Sobre cigarras e formigas

 Por Alessandra Leles Rocha

 Desde a pré-história que grupos de indivíduos oportunistas, aficionados pela chamada “lei do menor esforço”, marcaram presença na sociedade. Máculas nocivas, incapazes de perceber o grau de sua insignificância preferem passar os dias vivendo dos restos, das migalhas, de eventuais trapaças ou trabalhos que não venham a roubar-lhes o precioso tempo do ócio.

Apesar do esforço histórico de uns e outros no fomento dessa triste desfaçatez, em razão das inúmeras oportunidades de manobra social que tais atitudes proporcionam, para a grande e expressiva legião de cidadãos dignos os caminhos a serem percorridos nesta vida são outros. Certos da insustentabilidade dos atalhos, eles procuram manter firmes e focados os olhos no alicerce de sua cidadania.

Auxílio. Quem nessa vida nunca precisou de uma mão estendida, um bom conselho, um ombro amigo, uma ajuda financeira nos momentos de maior dificuldade econômica? O fato é que, especialmente no tanger financeiro, no imediatismo da necessidade, o auxílio recai como alento, milagre e esperança dentro de um grande túnel de tribulações. Mas, à medida que o tempo passa e os problemas se cronificam e se amplificam, os paliativos perdem a validade e o vigor. Chamados de volta a realidade por uma tal “dignidade humana”, homens e mulheres deparam-se com a procura do único remédio para sua cura: o trabalho.

Trabalhar, dar vazão a sua força física e mental, arregaçar as mangas na labuta diária, verter suor e cansaço, e receber ao final do período a paga de seu sacrifício seja ela justa ou, tantas vezes, ultrajante; mas, a prova material de sua existência, de seu empenho. É na prática desse ato de fé e coragem que o ser humano se completa, se entende e se enxerga humano. Está nas suas fibras o seu instinto laborioso, contemplador da própria obra.

E o que tem feito a esses nobres homens a sua própria sociedade? Na fragmentação socioeconômica cruel e descabida para alcançar patamares mais elevados de poder, a sociedade tem trilhado caminhos cada vez mais opressores, nos quais a oferta de oportunidades e trabalhos não consegue satisfazer a demanda de necessitados. É a “Lei da Oferta e da Procura” a proliferar uma classe de desempregados, muitos deles com baixa escolaridade e sem qualificação capazes de acompanhar as tendências atuais de mercado. Sem perspectivas reais, a ciranda do desemprego abre seus leques de re-enquadramento aos recém-chegados: informalidade, tentativas de ingresso no serviço público por meio de concursos, cadastramento nos programas sociais do governo, inserção na criminalidade e/ou nos vícios, mendicância, enfim... Dessa forma, centenas de milhares de pessoas vão perdendo o viço de seu valor, a fé no amanhã, a certeza de resgatar o pedaço extirpado de sua alma.

Enquanto isso há quem veja tudo acontecer e sorri com escárnio e indiferença, em uma torpe convicção da distância que os separa dessa realidade. É! Mas essa realidade é que faz o mundo girar, correr depressa demais e atropelar os transeuntes mais desavisados. A situação geral do planeta não parece querer eximir ninguém de tais dissabores! Haverá tempo em que até as esmolas faltarão e auxílio será artigo de luxo.

Por isso, como na fábula da Formiga e da Cigarra, só o trabalho poderá nos garantir invernos menos rigorosos. O trabalho de sol a sol, ininterrupto e coletivo cuidará de prover o sustento e a manutenção de cada nação que deseje vencer novos milênios. A Natureza nos ensina humildemente o que fazer, pena fecharmos os olhos na própria arrogância e acreditar na superioridade de nossos “achismos” e atitudes de meia pataca. O inverno não tardará a chegar; assim, abramos as frentes de trabalho a todas as formigas e, também, às cigarras que queiram se converter ao verdadeiro sentido da vida.

Alessandra Leles Rocha
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  03/12/2007