A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

Uma vez “cucarachas”, sempre “cucarachas”!

Por Alessandra Leles Rocha

Voltas e mais voltas e a Terra não consegue se desvencilhar de tantas amarras invisíveis. A força dos pensamentos e das ideologias de caráter preconceituoso e segregador têm impedido o fluxo natural da liberdade, da igualdade e da fraternidade dentro e fora dos limites geográficos.

Problemas, desafios gigantescos oriundos do movimento permanente do progresso e do desenvolvimento de cada nação, assombram tanto do ponto de vista individual quanto coletivo. Trabalho, alimentação, habitação, saúde, transporte, lazer almejados por milhares de vidas, reflexos de sonhos e projetos de uma eterna luta pela sobrevivência, por eventuais novos amanhãs. Entretanto, o imediatismo na elaboração das diretrizes e planos estratégicos parece ter sucumbido a mais plena falta de tato e de sensibilidade com relação ao elemento central de toda essa questão: o ser humano. O contra-senso repleto de equívocos a ditar a máxima em que uns são melhores que outros, vai acirrando as disparidades e os embates mais primitivos; e a desunião passa a fragmentar os elos de força e energia ao redor do planeta.

A responsabilidade em cuidar e manter sobre os trilhos a soberania, a dignidade, o bem-estar de um povo não pode se pautar na execração pública de outros. Critérios, normas, princípios sempre são bem vindos no sentido de orientar nossos passos e dar aos que nos circundam a orientação a respeito da dimensão aonde podem chegar. Ao contrário da exposição clara dos fatos, do diálogo franco e objetivo, atitudes arbitrárias e deselegantes põem em dúvida o grau de civilidade, de ética e de um suposto status sobre os demais.

Episódios de deportação, constrangimento e agressão contra estrangeiros mundo afora, ressalvo casos declarados extremos de crimes, não são privilégio único de brasileiros. Há sim, e há tempos, uma prevenção generalizada contra cidadãos oriundos de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento; como se todos estivessem apenas em busca de melhores condições de vida em países desenvolvidos. Focados nessa opção migratória, eles se abstêm de uma análise isenta nos Serviços de Imigração Aeroportuários e simplesmente recusam qualquer indivíduo em razão da nacionalidade de origem. Contudo, porque será que com relação a mulheres e travestis levados ao estrangeiro para trabalhar na prostituição ou como transportadores de drogas, eles continuam a chegar nesses países sem nenhuma restrição? Parece que seremos sempre “cucarachas” 1 e a eles só servimos como mão-de-obra escrava, sem valor, e nada mais.


1 CUCARACHA – barata, em espanhol. Expressão usada especialmente pelos norte-americanos para referir-se de forma pejorativa aos imigrantes latinos.

 
 
Alessandra Leles Rocha
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 11/03/2008