Abobrinhas do Fantástico
Foi, no mínimo, patética a reportagem
exibida ontem pelo Fantástico, a qual “denunciava” o
despreparo dos alunos que cursam Ensino Médio nas escolas
públicas. O programa pecou feio, pois, além da total
parcialidade da matéria, agiu com uma irresponsabilidade sem
par ao exibir os fatos totalmente fora de contexto e sem uma
investigação criteriosa.
Os alunos
estão sim despreparados, mas as causas apontadas para
justificar tal panorama se não revelam uma ingenuidade
inaceitável, descortinam uma má fé descarada em alienar o
público telespectador.
Para embasar
sua tese, o Fantástico entrevistou alguns alunos e os
professores da Universidade Federal Fluminense que organizaram
o Provão do Fantástico, meio através do qual o programa
definiu a tal tese. Os alunos revelavam suas dificuldades, os
professores constatavam a deficiência dos candidatos, os
precários resultados das disciplinas, até então nada de
errado. Ao invés do programa dar início a uma investigação
séria e profunda, começa a lançar hipóteses simplistas,
baseadas nos velhos clichês de que professor é uma raça
preguiçosa e incompetente. E, então, desce por água abaixo a
chance de produzir uma matéria consistente e de grande
utilidade pública.
Em primeiro
lugar, os repórteres do Fantástico deviam fazer uma rápida
pesquisa sobre políticas públicas educacionais, pois assim
descobririam que, no Ensino Público, verba para investimento
está diretamente condicionada a resultados, isto é: índice de
aprovação. Em vez de a administração governamental prover a
escola com condições de bem formar o alunado, para depois
aferir os resultados, o movimento é inverso. A escola que dê
seu jeito, ou neca de investimento. Além disso, desconsidera a
complexidade em melhorar esse panorama, ao considerá-lo tarefa
realizável em um único ano letivo. Sonho! Veja a nossa
situação: recebemos alunos com grave deficiência em ensino de
base, muitos semi-analfabetos, mas devemos promover um
verdadeiro milagre pedagógico para que eles saiam com o
currículo cumprido, caso contrário, o governo vira as costas
para a escola. É uma saia justíssima não só para nós,
professores, mas para os dirigentes escolares também. Vale
ressaltar que não estou jogando a culpa no Ensino Fundamental,
pois eles compartilham dos mesmos dilemas nossos.
Em seguida,
há a questão da realidade do profissional docente. Uma
entrevistada revelou que os alunos ficam prejudicados com as
licenças médicas dos professores, como se fôssemos um bando de
preguiçosos, inventando artimanhas para não trabalhar. Parece
que o jornal esqueceu de comentar que, com salários
miseráveis, os professores se vêem obrigados a acumular
matrículas e jornadas, o que reduz não só a qualidade de seu
trabalho, mas a da própria saúde. Causa espanto que, com o
recente bafafá da falta de profissionais no mercado - dadas as
péssimas condições de trabalho, os docentes estão trocando de
profissão e os estudantes estão fugindo dos cursos de
licenciatura - o Fantástico tenha decidido omitir esse
relevante dado de sua alarmante matéria.
Como se essa gafe fosse pouca, um
professor da UFF ainda abriu a infeliz boca para dizer que os
professores têm de revisar a sua prática, como se a falta da
mesma fosse a terrível causadora do fracasso escolar
denunciado. Concordo com ele quanto à constante revisão, pois
ela deve mesmo fazer parte do cotidiano do educador, para que
este consiga viabilizar da melhor forma possível o
desenvolvimento do aprendizado nos alunos. Agora, meu caro
colega, devo dizer-lhe algo, despida da máscara da hipocrisia.
Se eu recebo alunos portadores de dificuldades gritantes, não
adianta reprová-los em massa, já que de alguma forma eles já
chegaram até o Ensino Médio. Como educadora, considero mais
válido fazer com que aprendam algo de fato, ainda que não seja
o conteúdo curricular, mas aquilo que ficou faltando, talvez.
Se o Fantástico perguntasse a qualquer pedagogo sobre a
viabilidade em se saltar conteúdos, ou seja, em tentar dar
conta do currículo sem sanar as dificuldades elementares,
obteria resposta desfavorável. Antes de produzir conhecimento,
conseguir-se-ia, sim, o acúmulo de dificuldades.
Sendo assim,
resta ao professor, neste cenário nebuloso, optar entre
cumprir o currículo ou promover algum conhecimento,
respeitando as dificuldades dos alunos e a variedade de
público, pois numa turma com média de 50 alunos, é possível
deparar-se com diferentes níveis de dificuldade. Diante de tal
panorama, de nada adiantará aferi-los com um simuladão a la
vestibular.
No dia em que
os ministérios e secretarias competentes tratarem a relação
investimento/resultado com seriedade, os professores poderão
ter sua prática verificada mais objetivamente. Até lá, não
adianta alarmar o cidadão brasileiro com informações
mentirosas e nojentas, fingindo que a questão não é política,
almejando audiência e falso mérito, e, o mais grave, iludindo
com a deformação da realidade.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira