A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

A falência dos valores

Nossos pobres corações angustiados foram, mais uma vez, arrebatados por um ato de barbárie, denunciador da rarefação do sentimento de humanidade nas pessoas. Quando cinco universitários de classe alta espancaram uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e depois alegaram pensar que ela fosse uma prostituta,  eles evidenciaram a falência das principais instituições sociais em que se apóiam nossos valores e ideologias.

Em primeiro lugar, a desculpa que não cola: se é que estivessem dizendo a verdade, por que prostitutas podem apanhar? E se fossem os justiceiros que fingiram ser, aniquilando a promiscuidade das malhas urbanas, por que roubar-lhe 47 reais e um guarda-chuva? Parece que, a despeito da boa educação que receberam, não tiveram competência suficiente para articular uma desculpa que justificasse a bandalheira.

Em segundo lugar, a alegação do pai de um dos acusados: os cinco seriam apenas “crianças”(!), cujos pais não têm culpa de seus atos, e sua prisão não adiantaria de nada. Será mesmo? Se fosse o seu filho quem tivesse o rosto deformado pela violência gratuita, tenho certeza de que ele mudaria sua opinião acerca da prisão dos culpados.

Ao ler a notícia, ver os meliantes e saber-lhes a situação sócio-econômica, pensei ter sido transportada pra dentro do filme Laranja Mecânica. Mas não. Para minha aflição e desconcerto, tratava-se de um fato real, acontecido aqui, em minha cidade.

Diversos jornais e programas de tv, no afã de ajudar-nos a compreender a atitude desses jovens, entrevistaram psicólogos e pedagogos que apresentaram suas teorias. Houve quem citou a corrupção que rola solta em Brasília como “exemplo inspirador” de impunidade. Um pedagogo afirmou que, em parte, os pais não têm mesmo culpa. Que a sociedade pós-moderna em que vivemos incute a violência massificada e banalizada em nossos imaginários e, como essa mesma sociedade não permite que os pais passem mais tempo com os filhos, controlando-os, não há quem filtre esse tipo de informação. Deste modo, os jovens são programados a responder a uma situação problemática fazendo uso dessa violência internalizada. Mas, mesmo diante dessas explicações, uma coisa continua me intrigando: como uma moça trabalhadora, esperando o ônibus, pode ser interpretada  como situação problemática? É aí que a explicação do pai da pobre Sirlei, a vítima, salta gritante dentre um labirinto de confusão e dúvida.: esses meninos são mimados e não sabem o que é limite, pois ninguém nunca lhos impôs. Eu acrescentaria, ainda, à constatação desse sofrido pai que não só faltou imposição de valores, como também careceu ensinar o respeito ao próximo, independente de classe social, cor, credo etc. É inevitável que pensemos na diferença sócio-econômica, na probabilidade de Sirlei ter sido considerada inferior por ser pobre.

E a partir desta triste conclusão, percebemos evidente a falência da família na educação dos jovens. Esses pais não foram capazes de demonstrar aos filhos a necessidade do respeito à integridade física e moral do próximo, a cidadania, a coexistência pacífica, a resolução inteligente de problemas.  Soma-se a isso a total ineficácia das instituições de ensino, no tocante à construção do caráter, uma vez que os rapazes cursam o nível superior, um deles a faculdade de direito. Tantos estudos e discussões sociais atribuem à falta de educação a violência urbana patente em nosso tempo. O que aconteceu, então, nesse caso, se os jovens não eram carentes, desfavorecidos, famintos ou sem instrução?

Se a educação tem sido objeto constante de investigação e avaliação, está na hora de olharmos, também, para dentro de casa, de investigarmos a família, de estudarmos possibilidades e alternativas mais eficazes de atingir esses jovens. Se os pais, na intenção de darem uma vida digna aos filhos, proporcionando-lhes oportunidades, boa educação, passam a maior parte do dia fora, trabalhando, talvez não devamos, simplesmente, jogar-lhes a culpa sobre os ombros. É necessário buscar, ou criar, novas opções, cujos resultados podem demorar.

Mas algo pode, sim, ser feito agora. Os culpados devem ser presos, julgados, punidos, para que não se tornem novos exemplos de impunidade. Se a internalização da violência é inevitável, que também o seja a internalização da justiça .

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  27/06/2007