A falência dos valores
Nossos pobres corações
angustiados foram, mais uma vez, arrebatados por um ato de
barbárie, denunciador da rarefação do sentimento de humanidade
nas pessoas. Quando cinco universitários de classe alta
espancaram uma empregada doméstica no Rio de Janeiro e depois
alegaram pensar que ela fosse uma prostituta, eles
evidenciaram a falência das principais instituições sociais em
que se apóiam nossos valores e ideologias.
Em primeiro lugar, a desculpa que não cola: se é que
estivessem dizendo a verdade, por que prostitutas podem
apanhar? E se fossem os justiceiros que fingiram ser,
aniquilando a promiscuidade das malhas urbanas, por que
roubar-lhe 47 reais e um guarda-chuva? Parece que, a despeito
da boa educação que receberam, não tiveram competência
suficiente para articular uma desculpa que justificasse a
bandalheira.
Em segundo lugar, a alegação do pai de um dos acusados: os
cinco seriam apenas “crianças”(!), cujos pais não têm culpa de
seus atos, e sua prisão não adiantaria de nada. Será mesmo? Se
fosse o seu filho quem tivesse o rosto deformado pela
violência gratuita, tenho certeza de que ele mudaria sua
opinião acerca da prisão dos culpados.
Ao ler a notícia, ver os meliantes e saber-lhes a situação
sócio-econômica, pensei ter sido transportada pra dentro do
filme Laranja Mecânica. Mas não. Para minha aflição e
desconcerto, tratava-se de um fato real, acontecido aqui, em
minha cidade.
Diversos jornais e programas de tv, no afã de ajudar-nos a
compreender a atitude desses jovens, entrevistaram psicólogos
e pedagogos que apresentaram suas teorias. Houve quem citou a
corrupção que rola solta em Brasília como “exemplo inspirador”
de impunidade. Um pedagogo afirmou que, em parte, os pais não
têm mesmo culpa. Que a sociedade pós-moderna em que vivemos
incute a violência massificada e banalizada em nossos
imaginários e, como essa mesma sociedade não permite que os
pais passem mais tempo com os filhos, controlando-os, não há
quem filtre esse tipo de informação. Deste modo, os jovens são
programados a responder a uma situação problemática fazendo
uso dessa violência internalizada. Mas, mesmo diante dessas
explicações, uma coisa continua me intrigando: como uma moça
trabalhadora, esperando o ônibus, pode ser interpretada como
situação problemática? É aí que a explicação do pai da pobre
Sirlei, a vítima, salta gritante dentre um labirinto de
confusão e dúvida.: esses meninos são mimados e não sabem o
que é limite, pois ninguém nunca lhos impôs. Eu acrescentaria,
ainda, à constatação desse sofrido pai que não só faltou
imposição de valores, como também careceu ensinar o respeito
ao próximo, independente de classe social, cor, credo etc. É
inevitável que pensemos na diferença sócio-econômica, na
probabilidade de Sirlei ter sido considerada inferior por ser
pobre.
E a partir desta triste conclusão, percebemos evidente a
falência da família na educação dos jovens. Esses pais não
foram capazes de demonstrar aos filhos a necessidade do
respeito à integridade física e moral do próximo, a cidadania,
a coexistência pacífica, a resolução inteligente de
problemas. Soma-se a isso a total ineficácia das instituições
de ensino, no tocante à construção do caráter, uma vez que os
rapazes cursam o nível superior, um deles a faculdade de
direito. Tantos estudos e discussões sociais atribuem à falta
de educação a violência urbana patente em nosso tempo. O que
aconteceu, então, nesse caso, se os jovens não eram carentes,
desfavorecidos, famintos ou sem instrução?
Se a educação tem sido objeto constante de investigação e
avaliação, está na hora de olharmos, também, para dentro de
casa, de investigarmos a família, de estudarmos possibilidades
e alternativas mais eficazes de atingir esses jovens. Se os
pais, na intenção de darem uma vida digna aos filhos,
proporcionando-lhes oportunidades, boa educação, passam a
maior parte do dia fora, trabalhando, talvez não devamos,
simplesmente, jogar-lhes a culpa sobre os ombros. É necessário
buscar, ou criar, novas opções, cujos resultados podem
demorar.
Mas algo pode, sim, ser feito agora. Os culpados devem ser
presos, julgados, punidos, para que não se tornem novos
exemplos de impunidade. Se a internalização da violência é
inevitável, que também o seja a internalização da justiça .
Aline Aimée Carneiro de Oliveira