A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Alienação coletiva

      Ontem, por um infortúnio do destino, tive de assistir a O Domingão do Faustão, programa que veementemente abomino. O convidado da vez era o tal do Caubói do BBB7 e a platéia e o público em entrevista deviam oferecer-lhe perguntas que o dito cujo responderia.

      Eu, que não assisti a um episódio sequer do BBB7, até que simpatizei com a criatura, que tinha um jeito manso e caipiresco de falar. Contudo, qual não foi a minha surpresa ao perceber o ódio que as pessoas lhe guardavam.

     Dentre entrevistados, platéia, dançarinas e até a diretora do programa, Lucimara, todos caíam de pau no pobre do homem. A questão não era apenas a antipatia que ele pudesse ter despertado nas pessoas, mas o furor com que todos o atacavam, como se ele fosse um criminoso internacional.

      Parei para prestar atenção e o que percebi é que o moço havia combinado votos contra um trio amizade-colorida e chamado uma namoradinha de gorda. Por esse último motivo eu também teria ficado estressada, mas não ao ponto em que chegaram as pessoas do programa.

      Nunca vi tanta mobilização coletiva em pleno final de domingo, tantos debates, teorias, filosofias comportamentais, uma verdadeira comoção nacional! E por quê? Por causa de um mané que entrou num programa altamente apelativo e manipulado, a fim de faturar um milhão de reais .

       Violência, juiz lalau, prostituição infantil, corrupção? Não. Isso não vale a comoção nacional. Não são assuntos dignos do incômodo do cidadão brasileiro. Pra que esquentar a cabeça com isso? Melhor é saber se o loirão vai papar alguma loira quando sair da casa milionário.

       Não condeno programas de entretenimento. Pelo contrário, acho que devem fazer parte do cotidiano de todo cidadão, pois relaxa a cabeça depois de um dia de trabalho, rende conversa com os amigos etc. Mas o excesso de energia e massa encefálica empregados para discutir os rumos de um reality show, que nem deu tanto assim o que falar, me fez parar para pensar. 

       Na Inglaterra, uma espécie de Casa dos Artistas suscitou verdadeiras discussões nacionais. Mas lá, uma atriz indiana estava sendo vítima de preconceito explícito, o que levou o Primeiro Ministro a se desculpar publicamente com a atriz e com a Índia. Ali se viu um caso que atingiu a ética e os rumos do homem pós-moderno. Mas, e aqui?

         Será que não está na hora de tirarmos a peneira da frente do Sol e discutirmos assuntos de real relevância? Se estamos tão dispostos a pensar e discutir o Big Brother, por que também não o fazemos em relação a outros assuntos mais graves? É preciso tomar cuidado com a tv, pois ela distrai, entretém, mas também aliena, entorpece, seda o nosso juízo, o nosso senso crítico. Ela nos desacostuma a pensar e, qualquer debate de real importância torna-se difícil, desagradável. 

           Para finalizar, cito versos dos Titans: "A televisão me deixou burro, muito burro demais!"      

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  14/04/2007