- Alienação coletiva
Ontem, por um infortúnio do destino, tive de assistir a
O Domingão do Faustão, programa que veementemente abomino. O
convidado da vez era o tal do Caubói do BBB7 e a platéia e o
público em entrevista deviam oferecer-lhe perguntas que o dito
cujo responderia.
Eu, que não assisti a um episódio sequer do BBB7, até
que simpatizei com a criatura, que tinha um jeito manso e
caipiresco de falar. Contudo, qual não foi a minha surpresa ao
perceber o ódio que as pessoas lhe guardavam.
Dentre entrevistados, platéia, dançarinas e até a
diretora do programa, Lucimara, todos caíam de pau no pobre do
homem. A questão não era apenas a antipatia que ele pudesse
ter despertado nas pessoas, mas o furor com que todos o
atacavam, como se ele fosse um criminoso internacional.
Parei para prestar atenção e o que percebi é que o moço
havia combinado votos contra um trio amizade-colorida e
chamado uma namoradinha de gorda. Por esse último motivo eu
também teria ficado estressada, mas não ao ponto em que
chegaram as pessoas do programa.
Nunca vi tanta mobilização coletiva em pleno final de
domingo, tantos debates, teorias, filosofias comportamentais,
uma verdadeira comoção nacional! E por quê? Por causa de um
mané que entrou num programa altamente apelativo e manipulado,
a fim de faturar um milhão de reais .
Violência, juiz lalau, prostituição infantil,
corrupção? Não. Isso não vale a comoção nacional. Não são
assuntos dignos do incômodo do cidadão brasileiro. Pra que
esquentar a cabeça com isso? Melhor é saber se o loirão vai
papar alguma loira quando sair da casa milionário.
Não condeno programas de entretenimento. Pelo
contrário, acho que devem fazer parte do cotidiano de todo
cidadão, pois relaxa a cabeça depois de um dia de trabalho,
rende conversa com os amigos etc. Mas o excesso de energia e
massa encefálica empregados para discutir os rumos de um
reality show, que nem deu tanto assim o que falar, me fez
parar para pensar.
Na Inglaterra, uma espécie de Casa dos Artistas
suscitou verdadeiras discussões nacionais. Mas lá, uma atriz
indiana estava sendo vítima de preconceito explícito, o que
levou o Primeiro Ministro a se desculpar publicamente com a
atriz e com a Índia. Ali se viu um caso que atingiu a ética e
os rumos do homem pós-moderno. Mas, e aqui?
Será que não está na hora de tirarmos a peneira da
frente do Sol e discutirmos assuntos de real relevância? Se
estamos tão dispostos a pensar e discutir o Big Brother, por
que também não o fazemos em relação a outros assuntos mais
graves? É preciso tomar cuidado com a tv, pois ela distrai,
entretém, mas também aliena, entorpece, seda o nosso juízo, o
nosso senso crítico. Ela nos desacostuma a pensar e, qualquer
debate de real importância torna-se difícil, desagradável.
Para finalizar, cito versos dos Titans: "A
televisão me deixou burro, muito burro demais!"
Aline Aimée Carneiro de Oliveira

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