A perfeição e o vazio
É de conhecimento geral que o
homem é o único ser racional, dotado de inteligência. Contudo,
a história da humanidade revela que, muitas vezes, o homem
abdica da inteligência para suprir uma carência.
Explico.
Costumamos gerir a existência em função de grandes objetivos:
arrumar um emprego, conquistar uma profissão, encontrar o
grande amor, realizar um sonho, ou tão somente garantir a
subsistência.
Não sossegamos
até alcançarmos tais metas. Mas, e quando as alcançamos? O que
resta quando nada mais há para perseguir? Muitos de nós traçam
novos objetivos, especialmente aqueles que foram bem sucedidos
em suas conquistas. Outros, diante da estagnação instaurada,
passam a procurar problemas, isso quando não os inventam.
A falta de
obstáculos na vida significa, para muita gente, falta de
sentido. Como viver sem um alvo, sem uma motivação para seguir
em frente? Que caminho eu escolho, se não tenho destino?
No afã de
preencher tal marasmo, o indivíduo cria, inconscientemente,
situações-problema que exijam dele uma atitude. Daí surgem
vícios, infrações, ganância, desequilíbrios psicológicos,
depressões, neuroses sem fundamento, que farão dele uma
vítima, uma pessoa que precisa achar uma saída. Alguns têm a
sorte de encontrar tal remédio em religiões, grupos de apoio,
terapias, passando a encará-los como novos instrumentos de
busca de sentido.
Outros, menos
aventurados, tornam-se presas das próprias armadilhas,
enveredando por caminhos sem volta e emperrando cada vez mais
as portas da motivação.
O que podemos
fazer para escapar dessa carência? Com suprir tal falta sem
sucumbir ao vazio desesperador?
Penso que
prevenir esse mal nas crianças seja mais simples, através do
estímulo de atividades desportivas e artísticas, que lhes
proporcionarão não só saúde, mas também disciplina e
organização para o alcance de metas.
Mas, e nós,
adultos? Como fugir do vício por obstáculos? Como sobreviver
ao marasmo, sem que nos entreguemos às “ocupações” vis de
ocasião? Serão o auto-conhecimento e a reflexão as únicas
armas de que dispomos? Permitirá o mundo pós-moderno que
resistamos à depressão em massa? Será o indivíduo um ser
cambiante – joguete na partida entre a miséria desafiadora e a
riqueza estacionária?