A persistência da
memória
Sempre fui meio obcecada pelo quadro “A persistência da
memória”, de Salvador Dalí, ainda que não o compreendesse
direito. Aqueles relógios derretidos me deixavam intrigada.
Quando descobri que se tratava de uma metáfora para o desejo
do homem de flexibilizar o tempo, pensei: brilhante!
Há muito que me minha relação com o tempo é meio
delicada. Eu que sempre amei o devaneio lento, a abstração, a
apreciação contemplativa, fui arrastada pelo tufão da vida
moderna.
A modernidade nos aprisiona num labirinto de
obrigações, tarefas, prazos, fazendo-nos reféns dos relógios.
É uma rotina automatizada - acordar cedo, trabalhar, estudar,
cuidar da casa, ir ao médico, a reuniões, pagar aquilo no dia
tal.... Agendamos, inclusive, o divertimento.
O tempo foi otimizado, principalmente, na mídia, com
informações bombardeadas em ritmo alucinante, fragmentando
cada vez mais a nossa percepção. Nesse panorama, pouco espaço
resta para a memória, que diante de uma grande variedade
informativa, tem de ceder lugar. E aí se perdem experiências
repletas de significado e sentimento, coisas gostosas da
infância, causos engraçados, perfumes, cores,
lugares, músicas que, outrora, cantávamos sem parar e agora
cortamos um dobrado pra lembrar um único versinho.
Sou uma saudosista perdida na pós-modernidade.
Vivo agarrada às minhas lembranças e experiências, através de
agendas, álbuns, cartas, blogs. Queria poder sentir a
vida ao sabor das sensações, dos desejos, das necessidades.
Odeio o esquema burocrático da vida.
Pelo menos, ainda posso degustar minhas
lembranças, sentir-lhes o doce sabor de coisa boa que, a
despeito do tempo, ainda não me abandonou.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira