A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

A persistência da memória

       Sempre fui meio obcecada pelo quadro “A persistência da memória”, de Salvador Dalí, ainda que não o compreendesse direito. Aqueles relógios derretidos  me deixavam intrigada. Quando descobri que se tratava de uma metáfora para o desejo do homem de flexibilizar o tempo, pensei: brilhante!

        Há muito que me minha relação com o tempo é meio delicada. Eu que sempre amei o devaneio lento, a abstração, a apreciação contemplativa, fui arrastada pelo tufão da vida moderna.

        A modernidade nos aprisiona num labirinto de obrigações, tarefas, prazos, fazendo-nos reféns dos relógios. É uma rotina automatizada - acordar cedo, trabalhar, estudar, cuidar da casa, ir ao médico, a reuniões, pagar aquilo no dia tal.... Agendamos,  inclusive, o divertimento.

         O tempo foi otimizado, principalmente, na mídia, com informações bombardeadas em ritmo alucinante, fragmentando cada vez mais a nossa percepção. Nesse panorama, pouco espaço resta para a memória, que diante de uma grande variedade informativa, tem de ceder lugar. E aí se perdem experiências repletas de significado e sentimento, coisas gostosas da infância, causos engraçados, perfumes, cores, lugares, músicas que, outrora, cantávamos sem parar e agora cortamos um dobrado pra lembrar um único versinho.

            Sou uma saudosista perdida na pós-modernidade. Vivo agarrada às minhas lembranças e experiências, através de agendas, álbuns, cartas, blogs. Queria poder sentir a vida ao sabor das sensações, dos desejos, das necessidades. Odeio o esquema burocrático da vida.

             Pelo menos, ainda posso degustar minhas lembranças, sentir-lhes o doce sabor de coisa boa que, a despeito do tempo, ainda não me abandonou.

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  17/04/2007