A vitória é nossa
Nossos atletas
têm conseguido deixar nossos corações apertadinhos nesse Pan
2007. À parte a sujeira por trás do espetáculo, como a
desalojamento indevido da população carente para a construção
da vila do Pan e o repentino combate efetivo ao tráfico na
favela que, curiosamente, só se deu na véspera do evento, foi
com muito entusiasmo e emoção que acompanhei a chegada sofrida
da nadadora Poliana, os saltos dolorosos de Daiane dos Santos,
a vitória apertada das meninas do vôlei, o talento e
desenvoltura do time feminino de handebol e da jovem ginasta
Jade, a premiação emocionada do lutador Diogo, nossa primeira
medalha de ouro.
O que devia
estar se passando por detrás daquelas lágrimas? A falta de
incentivo, de patrocínio, o treino intenso, as dores,
contusões, uma dedicação obstinada que finalmente encontra a
sua recompensa. A homenagem com o hino, a torcida que se
levanta e canta e vibra e saboreia junto a sua vitória suada e
merecida. Uma verdadeira batalha compartilhada por uma série
de atletas guerreiros que teimam em perseguir seus sonhos.
Uma seleção
feminina de futebol que dá um banho de talento a despeito da
total falta de amparo econômico, chama pra si as atenções de
cidadãos batalhadores como elas. E, diante de tal carência,
berra a preparação norte-americana, cuja soberania transborda
da firmeza, disciplina, segurança, por vezes prepotente e
soberba, de atletas estruturados desde a infância, amparados
por bolsas de estudo, incentivados por programas
governamentais. Para eles não falta comida, moradia, recurso,
transporte. Eles não são deixados "de molho", ganhando peso,
ou tampouco têm de mendigar patrocínio, podendo, assim
dedicar-se integralmente ao esporte.
A nossa
medalha de prata Ana Flávia Sgobin, vice-campeã no ciclismo
BMX, disse, em entrevista ao ESPN Brasil, que se sustenta
trabalhando num escritório de contabilidade e, apesar de já
ser bacharel em direito, está cursando outra faculdade. Seus
treinos eram realizados somente a partir das 22 horas, quando
chegava em casa, mas a desvalorização da modalidade, num país
que parece só ter pulmões para o futebol, não foi páreo para
nossa campeã.
Em meio à onda
de violência gratuita, à negligência sofrida e à corrupção
deslavada que vivemos, o Pan nos revela algo de bom e nosso,
algo que nos devolva a esperança numa juventude saudável,
disciplinada, bem encaminhada. A gente sofre e luta
diariamente para assegurar a subsistência e a sobrevivência, a
gente persiste em fila de hospital, protege os filhos do fogo
cruzado, sai às ruas exigindo aulas, faz dupla jornada para
jantar com a família e a gente vibra em cada jogo, em cada
ponto obtido, em cada vitória, sofre com a derrota de nossos
atletas, porque ela também é nossa, e cada medalha é nossa,
pois a gente sobrevive e vence a cada dia. E a gente canta o
hino e chora com você, Diogo, porque as suas lágrimas são
também as nossas.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira