Boneca de plástico
Fernanda é uma moça de 20 anos
que tem tudo o que pode querer na vida. Ela não trabalha, não
estuda, não faz estágio. Passa seus longos dias entediantes
procurando o que fazer. No bairro suburbano em que reside, não
há muitas opções, e ela transfere a causa por seu isolamento
do mundo da sua antipatia e falta de assunto para um tédio
existencial e inerente à vida.
Fernanda não é de família rica,
mas os amigos da internet não têm como saber isso, então ela
regurgita o que tem e o que não tem. A mãe, professora de
Geografia, trabalhadora honesta que acorda diariamente às
quatro da manhã, endivida-se toda para atender às necessidades
da filha:
-
Coitada, ela é tão sozinha! – lamenta dedicada.
Os longos dias de Fernanda têm
início quando ela acorda às sete para o desjejum. Come o pão
com manteiga e café, e volta para cama, de onde só sai ao
meio-dia para almoçar. Sedentária, Fernanda tem medo de
engordar, então, alimenta-se parcamente e vomita tudo em
seguida, para não ficar barriguda. Ela não pode ficar gorda,
como a vizinha:
-
Que ridícula! Não se enxerga com esse shortinho!
Nem embarangada, como a prima:
- A Daniele tá precisando de uma
recauchutagem! Olha aquele cabelo! E a bunda, cheia de
celulite!
Aos olhos da família, Fernanda é uma menina recatadíssima,
namora sério o Gustavo, em casa, valoriza-se. Mas na NET,
estampa fotologs seminua, com lingeries sexys, a bunda
apontando pra cima. Nas salas de bate-papo, faz o sexo virtual
mais pervertido de que se tem notícia. Seu nickname,
Fogosa.
Fernanda, pinta o cabelo semanalmente – loiro, ruivo, pink,
negro. Ela não liga para o estrago, pois tem dinheiro para
tratar. Passa tudo no cartão de crédito que a bondosa mãe
paga, malabarísticamente:
- Filha! Exagerou um pouco esse mês, né? Queria comprar aquele
vestido pro casamento da comadre. Não vai dar... Vê se vai com
calma, tá, querida?
- Ah, mãe! Se toca! Não quer me dar nada! Só sabe reclamar!
- Não, só estou falando!
O pobre do namorado, Gustavo, é auxiliar de mecânico e
trabalha de domingo a domingo pra sustentar a namorada.
Cinemas, roupas, jantares.
- A Fernandinha gosta, coitada.
Se eu não der, ela arruma outro que faça, e menina assim,
direitinha, é difícil de achar.
É claro que Gustavo não tem
conhecimento das conversas picantes e fotos insinuantes de sua
boa menina.
O ex-namorado, ela largou porque
fumava maconha. Isso ela confidenciou muito secretamente a
umas duas dezenas de pessoas, a despeito do fato de ter sido
ela abandonada pelo rapaz, que ia comprar coca pra ela na
favela.
Fernandinha também gosta de
dividir tudo o que tem: cds, livros, câmeras digitais,
secadores de cabelo. Ela oferece tudo, assim, espontaneamente,
quando menos se espera, com uma vozinha infantil, e te
conquista, com tamanha generosidade:
- Puxa, que menina prestativa!
Tão desprendida!
É então que o verdadeiro ofício
de Fernandinha se revela. Tão inesperadamente quanto na
ocasião da oferta, ela cobra o que é seu com um ar de ofensa
afetadíssimo, muito chateada, como se você estivesse tentando
roubá-la.
- Olha, estou precisando, e você
já está usando há duas semanas. Traz aqui hoje à tarde –
despeja ríspida.
Na solidão cotidiana, em casa, é
a empregada doméstica sua única companhia, a quem só se dirige
para humilhar e dar ordens:
- Maria, não lavou essa blusa
direito, olha. Tá imunda! Lava de novo. Esse arroz tá
horrível! Você vive no mundo da lua é, mulher? Você mexeu na
minha gaveta? Tá maluca? Que ir pra rua?
A pobre Maria, mãe de três
filhas, muito educadinhas - 8, 10 e 13 anos - que cuidam da
casa sozinhas, abaixa a cabeça e se desculpa. Precisa do
emprego para sustentar suas meninas, e não adianta reclamar
com a patroa – ela não acreditaria.
Sozinha, em seu quarto, cercada
de toda a parafernália tecnológica e doméstica existente,
Fernanda vive a insatisfação de uma vida povoada de inúteis,
pobres e ignorantes. Gente que não pode lhe proporcionar a
emoção e conforto de que necessita.
- Não nasci pra ser pobre!
Mas isso ela está resolvendo,
buscando pretendentes abastados em sites de namoro.
No final da tarde, ela toma
banho, se arruma, se maquia toda. O horário da Maria acaba e a
mãe ainda está trabalhando. Ela ficará sozinha, assistindo às
novelas globais e aos programas de fofocas, que intercala com
revistas femininas e páginas virtuais, de onde colhe as
tendências da moda. Toda uma gramática da postura, do chique e
do moderno, que segue à risca... para si mesma. Não sobraram
amigos lá fora. Todos humilhados, difamados, achincalhados,
olham-na de rabo-de-olho, evitam-na, mudam de calçada,
enquanto ela exibe, solitária, sua plasticidade artificial.
Sem vida social, teve de restringir a pose às paredes de seu
quarto. Suas festas são ficcionais, narrativa barata, babados
de folhetim.
E ela, montada, de salto, fuma
seu cigarro, bebe seu uísque - que esconde na gaveta de
toalhas - na cama, sozinha.
Fernanda, boneca de plástico,
reina sozinha em sua casa de bonecas.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira