A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Boneca de plástico

Fernanda é uma moça de 20 anos que tem tudo o que pode querer na vida. Ela não trabalha, não estuda, não faz estágio. Passa seus longos dias entediantes procurando o que fazer. No bairro suburbano em que reside, não há muitas opções, e ela transfere a causa por seu isolamento do mundo da sua antipatia e falta de assunto para um tédio existencial e inerente à vida.

Fernanda não é de família rica, mas os amigos da internet não têm como saber isso, então ela regurgita o que tem e o que não tem. A mãe, professora de Geografia, trabalhadora honesta que acorda diariamente às quatro da manhã, endivida-se toda para atender às necessidades da filha:

-         Coitada, ela é tão sozinha! – lamenta dedicada.

Os longos dias de Fernanda têm início quando ela acorda às sete para o desjejum. Come o pão com manteiga e café, e volta para cama, de onde só sai ao meio-dia para almoçar.  Sedentária, Fernanda tem medo de engordar, então, alimenta-se parcamente e vomita tudo em seguida, para não ficar barriguda. Ela não pode ficar gorda, como a vizinha:

-         Que ridícula! Não se enxerga com esse shortinho!

Nem embarangada, como a prima:

- A Daniele tá precisando de uma recauchutagem! Olha aquele cabelo! E a bunda, cheia de celulite!

Aos olhos da família, Fernanda é uma menina recatadíssima, namora sério o Gustavo, em casa, valoriza-se. Mas na NET, estampa fotologs seminua, com lingeries sexys, a bunda apontando pra cima. Nas salas de bate-papo, faz o sexo virtual mais pervertido de que se tem notícia. Seu nickname, Fogosa.

Fernanda, pinta o cabelo semanalmente – loiro, ruivo, pink, negro. Ela não liga para o estrago, pois tem dinheiro para tratar. Passa tudo no cartão de crédito que a bondosa mãe paga, malabarísticamente:

- Filha! Exagerou um pouco esse mês, né? Queria comprar aquele vestido pro casamento da comadre. Não vai dar... Vê se vai com calma, tá, querida?

- Ah, mãe! Se toca! Não quer me dar nada! Só sabe reclamar!

- Não, só estou falando!

O pobre do namorado, Gustavo, é auxiliar de mecânico e trabalha de domingo a domingo pra sustentar a namorada. Cinemas, roupas, jantares.

- A Fernandinha gosta, coitada. Se eu não der, ela arruma outro que faça, e menina assim, direitinha, é difícil de achar.

É claro que Gustavo não tem conhecimento das conversas picantes e fotos insinuantes de sua boa menina.

O ex-namorado, ela largou porque fumava maconha. Isso ela confidenciou muito secretamente a umas duas dezenas de pessoas, a despeito do fato de ter sido ela abandonada pelo rapaz, que ia comprar coca pra ela na favela.

Fernandinha também gosta de dividir tudo o que tem: cds, livros, câmeras digitais, secadores de cabelo. Ela oferece tudo, assim, espontaneamente, quando menos se espera, com uma vozinha infantil, e te conquista, com tamanha generosidade:

- Puxa, que menina prestativa! Tão desprendida!

É então que o verdadeiro ofício de  Fernandinha se revela. Tão inesperadamente quanto na ocasião da oferta, ela cobra o que é seu com um ar de ofensa afetadíssimo, muito chateada, como se você estivesse tentando roubá-la.

- Olha, estou precisando, e você já está usando há duas semanas. Traz aqui hoje à tarde – despeja ríspida.

Na solidão cotidiana, em casa, é a empregada doméstica sua única companhia, a quem só se dirige para humilhar e dar ordens:

- Maria, não lavou essa blusa direito, olha. Tá imunda! Lava de novo. Esse arroz tá horrível! Você vive no mundo da lua é, mulher? Você mexeu na minha gaveta? Tá maluca? Que ir pra rua?

A pobre Maria, mãe de três filhas, muito educadinhas - 8, 10 e 13 anos -  que cuidam da casa sozinhas, abaixa a cabeça e se desculpa. Precisa do emprego para sustentar suas meninas, e não adianta reclamar com a patroa – ela não acreditaria.

Sozinha, em seu quarto, cercada de toda a parafernália tecnológica e doméstica existente, Fernanda vive a insatisfação de uma vida povoada de inúteis, pobres e ignorantes. Gente que não pode lhe proporcionar a emoção e conforto de que necessita.

- Não nasci pra ser pobre!

Mas isso ela está resolvendo, buscando pretendentes abastados em sites de namoro.

No final da tarde, ela toma banho, se arruma, se maquia toda. O horário da Maria acaba e a mãe ainda está trabalhando. Ela ficará sozinha, assistindo às novelas globais e aos programas de fofocas, que intercala com revistas femininas e páginas virtuais, de onde colhe as tendências da moda. Toda uma gramática da postura, do chique e do moderno, que segue à risca... para si mesma. Não sobraram amigos lá fora. Todos humilhados, difamados, achincalhados, olham-na de rabo-de-olho, evitam-na, mudam de calçada, enquanto ela exibe, solitária, sua plasticidade artificial. Sem vida social, teve de restringir a pose às paredes de seu quarto. Suas festas são ficcionais, narrativa barata, babados de folhetim.

E ela, montada, de salto, fuma seu cigarro, bebe seu uísque - que esconde na gaveta de toalhas - na cama, sozinha.

Fernanda, boneca de plástico, reina sozinha em sua casa de bonecas.

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  02/05/2007