Dos japoneses e da
adolescência
Parte considerável do mundo nutre
apreciação por desenhos animados. Nesse monte, um grande grupo
aprecia os tradicionais animes: desenhos animados japoneses,
inspirados naqueles clássicos desenhos de história em
quadrinhos – os mangás.
Forças
superiores ao meu desejo – meu esposo e meu irmão – forçam-me
indiretamente a tomar contato com essa arte, uma vez que são
apreciadores. Eu sempre tive certa implicância com animes como
Pokemon, devido à banalização da violência, embora
tenha assistido a um ou outro episódio de Cavaleiros do
Zodíaco na minha adolescência. Como sempre associamos o
desenho animado à infância, relutei em aceitar certas
tendências que predominavam no gênero, encarando-o com
desprestígio.
Contudo, a
convivência com as duas criaturas supracitadas fez-me
compreender certas nuances que envolvem esses desenhos. Em
primeiro lugar, a violência que tanto me irrita tem profunda
ligação com a cultura das artes marciais, tradicional em
muitos países do oriente. Em paralelo, todo aquele aparato das
vestimentas, cabelos, armas e poderes cria uma atmosfera
espetacular extremamente atrativa. Por último, e mais
importante, muitos desses animes e mangás, como o popular
Naruto, não são direcionados às crianças, mas sim a um
público menos inocente, como adolescentes e adultos.
Tais desenhos
exploram não só a sensualidade e temáticas sexuais, como
também desenvolvem dramas humanos – tragédias particulares que
culminam num sentimento de catarse: o fracasso, a perda
do ente querido, a solidão, a vingança. Nesse sentido, os
desenhos e revistas japoneses tornam-se didáticos no que diz
respeito à vida, tanto quanto as tragédias gregas ou os
romances clássicos da literatura universal.
E a cultura
japonesa alça terrenos cada vez mais longínquos, influenciando
não só o comportamento, mas também a moda entre os
adolescentes. Cada vez mais os jovens se permitem expressar de
maneira menos convencional, demonstrando traços de sua
personalidade e preferências em vestuários criativos – o que
de certo modo causa estranhamento na sociedade. Não que
estejamos atrelados a um tradicionalismo exacerbado, mas tudo
o que é diferente desperta certa temerosidade que nos impele
ao afastamento.
Foi o que, de
certa forma, senti neste fim de semana, quando acompanhei meu
irmão de 18 anos num evento que reúne fãs de animes e mangás.
Nessas reuniões, jovens participam de campeonatos de videogame
e RPG, de concursos de música (que em geral são as aberturas
de desenhos) e de cosplays. Esse termo era até então
inédito para mim, mas vem de costume players, ou seja,
algo como jogadores de fantasias. Trata-se de fãs que se
fantasiam de personagens e são avaliados pela semelhança com
os mesmos e pela interpretação.
Imaginem a
minha cara quando me deparei com adolescentes de cabelo rosa,
branco, com orelhas de porco, túnicas compridas, espadas de
papel alumínio e toda sorte de esquisitices? Meu primeiro
ímpeto foi rir, é óbvio! Mas depois, fui reparando em outras
coisas e cheguei a algumas conclusões sobre adolescentes:
1º. Roupa
preta e hormônios na puberdade, dentro de um salão lotado, não
são uma combinação atraente, olfativamente falando;
2º. Fãs de
animes e mangás são felizes.
Isso foi o
que mais me chamou a atenção. Aqueles jovens estavam
satisfeitos em se reunirem, tão animados em suas fantasias
elaboradas, que nem se incomodavam com o calor embaixo das
perucas. Era uma espécie de clima mágico, de extensão das
fantasias da infância, que deixa a gente feliz só de olhar.
Ali reuniam-se iguais, um grupinho de moleques com interesses
afins, trocando idéias, experiências e macetes de jogo. E tudo
sadio, sem drogas, sem álcool, com a mãe e o pai junto,
arrumando o laço da túnica, pagando por seus dvds piratas,
torcendo, programa de família mesmo. Até me arrependi de
implicar com o meu irmão, e me lembrei de quando era metida a
roqueira e usava calças rasgadas, que minha mãe jogou no lixo
na primeira oportunidade. E percebi que cuidado é bom, mas
também devemos ouvir o que tem a dizer a gurizada, deixá-los
se expressar, que ninguém é feliz reprimido.
Ainda acho
que os pais devam controlar certos desenhos na infância sim,
saber filtrar. Mas também acompanhar, assistir junto, dar um
voto de confiança, dialogar, afinal, um cabelo rosa e uma
roupa de ninja não fazem mal ao filho de ninguém, não é mesmo?
Aline Aimée Carneiro de Oliveira