A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Dos japoneses e da adolescência

Parte considerável do mundo nutre apreciação por desenhos animados. Nesse monte, um grande grupo aprecia os tradicionais animes: desenhos animados japoneses, inspirados naqueles clássicos desenhos de história em quadrinhos – os mangás.

Forças superiores ao meu desejo – meu esposo e meu irmão – forçam-me indiretamente a tomar contato com essa arte, uma vez que são apreciadores. Eu sempre tive certa implicância com animes como Pokemon, devido à banalização da violência, embora tenha assistido a um ou outro episódio de Cavaleiros do Zodíaco na minha adolescência. Como sempre associamos o desenho animado à infância, relutei em aceitar certas tendências que predominavam no gênero, encarando-o com desprestígio.

Contudo, a convivência com as duas criaturas supracitadas fez-me compreender certas nuances que envolvem esses desenhos. Em primeiro lugar, a violência que tanto me irrita tem profunda ligação com a cultura das artes marciais, tradicional em muitos países do oriente. Em paralelo, todo aquele aparato das vestimentas, cabelos, armas e poderes cria uma atmosfera espetacular extremamente atrativa. Por último, e mais importante, muitos desses animes e mangás, como o popular Naruto, não são direcionados às crianças, mas sim a um público menos inocente, como adolescentes e adultos.

Tais desenhos exploram não só a sensualidade e temáticas sexuais, como também desenvolvem dramas humanos – tragédias particulares que culminam num sentimento de catarse: o fracasso, a perda do ente querido, a solidão, a vingança. Nesse sentido, os desenhos e revistas japoneses tornam-se didáticos no que diz respeito à vida, tanto quanto as tragédias gregas ou os romances clássicos da literatura universal.

E a cultura japonesa alça terrenos cada vez mais longínquos, influenciando não só o comportamento, mas também a moda entre os adolescentes. Cada vez mais os jovens se permitem expressar de maneira menos convencional, demonstrando traços de sua personalidade e preferências em vestuários criativos – o que de certo modo causa estranhamento na sociedade. Não que estejamos atrelados a um tradicionalismo exacerbado, mas tudo o que é diferente desperta certa temerosidade que nos impele ao afastamento.

Foi o que, de certa forma, senti neste fim de semana, quando acompanhei meu irmão de 18 anos num evento que reúne fãs de animes e mangás. Nessas reuniões, jovens participam de campeonatos de videogame e RPG, de concursos de música (que em geral são as aberturas de desenhos) e de cosplays. Esse termo era até então inédito para mim, mas vem de costume players, ou seja, algo como jogadores de fantasias. Trata-se de fãs que se fantasiam de personagens e são avaliados pela semelhança com os mesmos e pela interpretação.

Imaginem a minha cara quando me deparei com adolescentes de cabelo  rosa, branco, com orelhas de porco, túnicas compridas, espadas de papel alumínio e toda sorte de esquisitices? Meu primeiro ímpeto foi rir, é óbvio! Mas depois, fui reparando em outras coisas e cheguei a algumas conclusões sobre adolescentes:

1º. Roupa preta e hormônios na puberdade, dentro de um salão lotado, não são uma combinação atraente, olfativamente falando;

2º. Fãs de animes e mangás são felizes.

Isso foi o que mais me chamou a atenção. Aqueles jovens estavam satisfeitos em se reunirem, tão animados em suas fantasias elaboradas, que nem se incomodavam com o calor embaixo das perucas. Era uma espécie de clima mágico, de extensão das fantasias da infância, que deixa a gente feliz só de olhar. Ali reuniam-se iguais, um grupinho de moleques com interesses afins, trocando idéias, experiências e macetes de jogo. E tudo sadio, sem drogas, sem álcool, com a mãe e o pai junto, arrumando o laço da túnica, pagando por seus dvds piratas, torcendo, programa de família mesmo. Até me arrependi de implicar com o meu irmão, e me lembrei de quando era metida a roqueira e usava calças rasgadas, que minha mãe jogou no lixo na primeira oportunidade. E percebi que cuidado é bom, mas também devemos ouvir o que tem a dizer a gurizada, deixá-los se expressar, que ninguém é feliz reprimido.

Ainda acho que os pais devam controlar certos desenhos na infância sim, saber filtrar. Mas também acompanhar, assistir junto, dar um voto de confiança, dialogar, afinal, um cabelo rosa e uma roupa de ninja não fazem mal ao filho de ninguém, não é mesmo?

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  17/03/2008