Ensinando a pensar
Semana
passada, fui assistir à mostra sobre o cineasta chileno
Alejandro Jodorowsky e fui convidada a uma verdadeira jornada
reflexiva. Diferente da maioria das coisas que já assisti na
vida, os filmes de Jodorowsky expressam muito pela metáfora e
pelo choque causados pelas imagens. É um estilo em nada óbvio,
que desconcertaria muito espectador desavisado, dado o esforço
de reflexão que nos exige. Mas essa crônica não nasce para
avaliarmos o cineasta em questão. Ela vem para fazer pensar
sobre esse exercício mesmo: o de pensar.
Eu, em meus
iniciais quatro anos de magistério, vejo-me impelida a
analisar diariamente meus métodos pedagógicos. E o que isso
tem a ver com o exercício de pensar? Ora, tudo! Ensinar
indivíduos é, antes de passar-lhes a tocha do saber ou
caligrafar belamente em seus juízos vazios – as famigeradas
tabulas rasas – ensiná-los a pensar. Não que já não pensem,
mas o pensamento é uma atividade que se aprimora continuamente
pelo exercício constante. É como se houvesse níveis de
pensamento e o meu maior objetivo é fazê-los pensar além.
Esse “pensar
além”, não estimulado por aqueles que detém as rédeas da
sociedade, tornara-se uma verdadeira pedra filosofal na
história da humanidade: quem a alcança é capaz de operar
verdadeiros milagres!, e foi cristalizado na prática
pedagógica como um “pensar igual”. Estimula-se o estudante a
decorar ou internalizar conhecimentos, repetindo-os, sem
estimulá-lo também a transformar o meio com tais
conhecimentos. É claro que já há um sem número de estudiosos
da pedagogia combatendo essa pratica há muitos anos. O desafio
é manter-se fiel a essa postura diante do difícil cotidiano
escolar. Já falei aqui, algumas vezes, sobre os dilemas dos
docentes, como jornadas múltiplas, baixos salário, condições
precárias etc. Acontece que não é tão difícil estimular o
aluno a botar as caraminholas para funcionar. E, então, cito
apenas a justificativa mais simples de todas: o aluno é o
primeiro a reclamar da mesmice das aulas. E não são
necessárias estratégias mirabolantes para fazer da aula um
desafio ao pensamento. Basta pensar.
Não pensem
vocês que o professor não é vítima fácil de suas próprias
armas. Um professor que não estimula a reflexão elaborada de
seus alunos provavelmente tampouco a cultiva. Porque a
criatividade é fundamental na elaboração das idéias e
exercícios e na adaptação dos mesmos à realidade de suas
turmas. Não é uma prática que demanda mais trabalho braçal do
professor, mas intelectual sim. Não adianta apresentar uma
expressão de conhecimento elaboradíssima e esperar que o aluno
a desvenda magicamente. A preguiça em (re)pensar as
estratégias pedagógicas é o pior dos pecados do docente. O
profissional deve ter consciência de que o raciocínio se
desenvolve mais efetivamente de forma associativa, partindo
daquilo que o indivíduo pensante já conhece bem. Deste modo, o
desafio do professor é propor a resolução de
situações-problema contextualizadas (e não hipóteses absurdas
desvinculadas da realidade), que partam sempre do conhecimento
de mundo que o aluno já tem, sem desprezar-lhe a cultura que
já traz de casa. E expô-lo a situações diversas, que demandem
esforço de pensamento variado e gradativo.
Educar é
remover o aluno do lugar cativo, fazê-lo conhecer o novo,
incitá-lo à descoberta, torná-lo apto a aprender por si,
movido pelo autodesafio. Desta forma, estaremos formando
indivíduos críticos e independentes, aptos à complexidade da
vida e à aprendizagem contínua, em vez de seres abreviados por
uma educação curupaca, que só lhes faz repetir o que lhes fora
dito previamente). Assim, eles poderão assistir a um filme de
Jodorowsky, por exemplo, sem que se sintam perdidos.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira