A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Hedonismo inaugural

Acho que sem perceber, meio sem querer, inventei uma filosofia de vida, que me apraz imensamente. Batizei-a Hedonismo inaugural e o leitor entenderá a eleição dessa expressão a seguir.

Sou daquelas pessoas que vêem a vivência ideal como a experimentação de toda fonte possível de prazer que o mundo oferece: sorver essências, vivessência! Sem alusões mundanas à promiscuidade, mas também sem preconceito, seria a perseguição daquilo que nos preenche as veias com energia e satisfação, de acordo com nossas preferências.

Eu, por exemplo, sou entusiasta da natureza. Portanto, estou sempre explorando localidades diversas, onde eu desfrute de gozo evasivo. Sendo assim, recorro por vezes às praias, outras vezes, às montanhas, depois às cachoeiras, e assim sigo. Como também sou apaixonada por cultura, uma semana vou ao cinema, outra ao teatro, depois a um concerto, e por aí vou.

Como, além de helenista descontextualizada, sou extremamente curiosa, dei-me conta de uma terrível e assustadora realidade: a infinitude. Não a minha, é claro. Mas das minhas pretensas fontes de prazer. Tanta coisa há ainda para ser apreciada, em tão pouco tempo, que não é raro que me surpreenda destrambelhada pela ansiedade. E é aí que entra a tal filosofia do Hedonismo inaugural, que consiste, nada mais nada menos, que no deleite único de cada coisa, melhor dizendo, cada fonte de prazer e/ou novidade é explorada uma única vez, sem repetições, para que a prática da experimentação seja vasta.

Devo confessar que não sigo à risca a tal filosofia, por impedimentos que vão além do meu arbítrio (como o financeiro, por exemplo). Também não sou ingênua de achar que descobri a fórmula do ouro com tal filosofia, que não tem nada de exclusiva ou original. Deve haver – com certeza há – um sem número de pessoas que busca, mesmo que maneira inconsciente, viver dessa maneira.

E é uma atitude tão natural, tão espontaneamente adotada, indício talvez do aprisionamento uma alma pela rotina cronometrada, alma sedenta de desenvolvimento pleno, que acaba gerando, nos outros, interpretações equivocadas. Sim, pois coerente seria que, ao apreciarmos algo, agarrássemo-nos a ele em fidelidade, tornando-o hábito ou tradição. Mas a minha postura com certas coisas é exatamente a contrária. Experimento uma só vez e dou-me por satisfeita. Até porque nossa irritante mania de automatizar e rotinizar as coisas tira delas o brilho inaugural, o sabor de novidade, de coisa incrivelmente fascinante, removendo-a para o espaço da opacidade desgastada.

Portanto, por mais que o gostinho de saudade teime em ressoar, prefiro guardar aquela sensação mágica na memória. Já diz a bela palavra recordar, do latim recordare, ou seja passar novamente pelo coração. Quero, assim, que tudo de lindo e deslumbrante e extraordinário que eu tenha visto, vivido e imaginado passe sempre com a mesma grandeza pelo meu coração. A não ser a história de amor que estou vivendo, que essa quero pra vida toda. Mas esse já é assunto pra outra crônica...

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  18/12/2007