Hedonismo inaugural
Acho que sem
perceber, meio sem querer, inventei uma filosofia de vida, que
me apraz imensamente. Batizei-a Hedonismo inaugural e o
leitor entenderá a eleição dessa expressão a seguir.
Sou daquelas
pessoas que vêem a vivência ideal como a experimentação de
toda fonte possível de prazer que o mundo oferece: sorver
essências, vivessência! Sem alusões mundanas à promiscuidade,
mas também sem preconceito, seria a perseguição daquilo que
nos preenche as veias com energia e satisfação, de acordo com
nossas preferências.
Eu, por
exemplo, sou entusiasta da natureza. Portanto, estou sempre
explorando localidades diversas, onde eu desfrute de gozo
evasivo. Sendo assim, recorro por vezes às praias, outras
vezes, às montanhas, depois às cachoeiras, e assim sigo. Como
também sou apaixonada por cultura, uma semana vou ao cinema,
outra ao teatro, depois a um concerto, e por aí vou.
Como, além de
helenista descontextualizada, sou extremamente curiosa, dei-me
conta de uma terrível e assustadora realidade: a infinitude.
Não a minha, é claro. Mas das minhas pretensas fontes de
prazer. Tanta coisa há ainda para ser apreciada, em tão pouco
tempo, que não é raro que me surpreenda destrambelhada pela
ansiedade. E é aí que entra a tal filosofia do Hedonismo
inaugural, que consiste, nada mais nada menos, que no
deleite único de cada coisa, melhor dizendo, cada fonte de
prazer e/ou novidade é explorada uma única vez, sem
repetições, para que a prática da experimentação seja vasta.
Devo
confessar que não sigo à risca a tal filosofia, por
impedimentos que vão além do meu arbítrio (como o financeiro,
por exemplo). Também não sou ingênua de achar que descobri a
fórmula do ouro com tal filosofia, que não tem nada de
exclusiva ou original. Deve haver – com certeza há – um sem
número de pessoas que busca, mesmo que maneira inconsciente,
viver dessa maneira.
E é uma atitude tão natural, tão
espontaneamente adotada, indício talvez do aprisionamento uma
alma pela rotina cronometrada, alma sedenta de desenvolvimento
pleno, que acaba gerando, nos outros, interpretações
equivocadas. Sim, pois coerente seria que, ao apreciarmos
algo, agarrássemo-nos a ele em fidelidade, tornando-o hábito
ou tradição. Mas a minha postura com certas coisas é
exatamente a contrária. Experimento uma só vez e dou-me por
satisfeita. Até porque nossa irritante mania de automatizar e
rotinizar as coisas tira delas o brilho inaugural, o sabor de
novidade, de coisa incrivelmente fascinante, removendo-a para
o espaço da opacidade desgastada.
Portanto, por
mais que o gostinho de saudade teime em ressoar, prefiro
guardar aquela sensação mágica na memória. Já diz a bela
palavra recordar, do latim recordare, ou seja
passar novamente pelo coração. Quero, assim, que tudo de lindo
e deslumbrante e extraordinário que eu tenha visto, vivido e
imaginado passe sempre com a mesma grandeza pelo meu coração.
A não ser a história de amor que estou vivendo, que essa quero
pra vida toda. Mas esse já é assunto pra outra crônica...
Aline Aimée Carneiro de Oliveira