O melhor de mim eras tu
Encontro-me até agora atordoada por tuas palavras duras. Tu te
despistes da mínima compaixão para comigo e com o verbo mais
afiado me aniquilaste sem misericórdia.
É que tu te perdestes na zona escura dos sentimentos amargos e
te afastaste fatalmente da cristalina verdade. Num ímpeto
perigoso e inesperado, mergulhaste num mar de amargo furor que
te corroeste a razão.
Seu telefonema golpeou-me pra dentro de um bueiro de mágoas,
que sufoca e me preenche toda com lama podre do teu desprezo e
maldição. É que tu foste pego também de surpresa pelo curso
natural da vida, que arruína teus meticulosos planos
individuais. Tu, num estalo do destino, teve o rascunho
rasurado e não soubeste corrigir. Escarraste a tua ira em
minha face, pútrida maldita e máscara infame que te violara os
íntimos desejos.
É que só presto no momento em que me amoldo à forma de teus
ideais pré-determinados, deixando que tu me apares as arestas
da individualidade indesejada. É que não gozo do direito de
escolha e meu senso crítico é um pecado demoníaco que me borra
a existência perante a tua, imensa e soberana. É que
contrariar os teus desígnios sagrados, mesmo os aqueles que
não me foram instruídos, é imprudência magna, devendo eu, em
minha humilde e submissa existência, pensar os teus
pensamentos, julgar com os teus valores, decidir com os seus
argumentos, suspeitar os teus receios, respirar a tua plena
existência. Plena, tão plena e vultuosa que transpõe o teu
destino, invadindo o meu, preenchendo o meu, corroendo o meu,
aniquilando o meu, sendo, finalmente, o meu.
E eu, em minha insolente e ignara desobediência, recebo de ti
a punição devida, o insulto acre, injúrias ensurdecedoras,
ameaças de vingança, a promessa da eterna repulsa. E tu, na
busca de um golpe certeiro e fatal, destróis a prenda
prometida, julgando destruíres com ela também o meu indigno
coração. Tu, que não suspeitas de nada.
Tu não suspeitas de nada. Não fazes idéia que de ti somente a
amizade queria. Que tuas prendas pouco valiam diante de teu
sorriso, e que, de um desencontro simplório, eu te conseguiria
uma feliz solução. Mas tu não tens ouvidos de ouvir ou olhos
de ver, porque tu te cobres com o véu negro da animosidade e,
protegido, tens a percepção transfigurada. E, isolado,
acostumastes a ver o que não era, a sentir o que não havia. E,
confuso, codificaste o mundo em teus padrões particulares.
Um dia, tu me atraíras para o teu véu. E dele comigo não
quiseste sair. Eu, por devoção, ali contigo fiquei e, sem
saber, traçava meu infortúnio. Eu que pensava contigo somar,
para conquistar a vida, vi-me desta subtraída e por ti
incorporada como um braço. E tu insistias em me fazer ver o
mundo por tuas retinas, mantinha-me atada ao laço doentio do
teu amor, tentando mostrar-me que o melhor de mim eras tu.
Só que eu, lagarta insolente, borboleta rebelada, por instinto
de bicho indomável, pendi pra a vida que me atraía. Este braço
queria ser corpo.
E, sem perceber, davas-me a liberdade com teu corretivo
açoite. Cada golpe teu desfazia um nó. Afastaste-me quando
julgavas prender-me. E, hoje, tenho pernas de andar e vou,
olhando pra frente, com olhos renovados, e meus.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira