A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

O melhor de mim eras tu

         Encontro-me até agora atordoada por tuas palavras duras. Tu te despistes da mínima compaixão para comigo e com o verbo mais afiado me aniquilaste sem misericórdia.

É que tu te perdestes na zona escura dos sentimentos amargos e te afastaste fatalmente da cristalina verdade. Num ímpeto perigoso e inesperado, mergulhaste num mar de amargo furor que te corroeste a razão.

Seu telefonema golpeou-me pra dentro de um bueiro de mágoas, que sufoca e me preenche toda com lama podre do teu desprezo e maldição. É que tu foste pego também de surpresa pelo curso natural da vida, que arruína teus meticulosos planos individuais. Tu, num estalo do destino, teve o rascunho rasurado e não soubeste corrigir. Escarraste a tua ira em minha face, pútrida maldita e máscara infame que te violara os íntimos desejos.

É que só presto no momento em que me amoldo à forma de teus ideais pré-determinados, deixando que tu me apares as arestas da individualidade indesejada. É que não gozo do direito de escolha e meu senso crítico é um pecado demoníaco que me borra a existência perante a tua, imensa e soberana. É que contrariar os teus desígnios sagrados, mesmo os aqueles que não me foram instruídos, é imprudência magna, devendo eu, em minha humilde e submissa existência, pensar os teus pensamentos, julgar com os teus valores, decidir com os seus argumentos, suspeitar os teus receios, respirar a tua plena existência. Plena, tão plena e vultuosa que transpõe o teu destino, invadindo o meu, preenchendo o meu, corroendo o meu, aniquilando o meu, sendo, finalmente, o meu.

E eu, em minha insolente e ignara desobediência, recebo de ti a punição devida, o insulto acre, injúrias ensurdecedoras, ameaças de vingança, a promessa da eterna repulsa. E tu, na busca de um golpe certeiro e fatal, destróis a prenda prometida, julgando destruíres com ela também o meu indigno coração. Tu, que não suspeitas de nada.

Tu não suspeitas de nada. Não fazes idéia que de ti somente a amizade queria. Que tuas prendas pouco valiam diante de teu sorriso, e que, de um desencontro simplório, eu te conseguiria uma feliz solução. Mas tu não tens ouvidos de ouvir ou olhos de ver, porque tu te cobres com o véu negro da animosidade e, protegido, tens a percepção transfigurada. E, isolado, acostumastes a ver o que não era, a sentir o que não havia. E, confuso, codificaste o mundo em teus padrões particulares.

Um dia, tu me atraíras para o teu véu. E dele comigo não quiseste sair. Eu, por devoção, ali contigo fiquei e, sem saber, traçava meu infortúnio. Eu que pensava contigo somar, para conquistar a vida, vi-me desta subtraída e por ti incorporada como um braço. E tu insistias em me fazer ver o mundo por tuas retinas, mantinha-me atada ao laço doentio do teu amor, tentando mostrar-me que o melhor de mim eras tu.

Só que eu, lagarta insolente, borboleta rebelada, por instinto de bicho indomável, pendi pra a vida que me atraía. Este braço queria ser corpo.

E, sem perceber, davas-me a liberdade com teu corretivo açoite. Cada golpe teu desfazia um nó. Afastaste-me quando julgavas prender-me. E, hoje, tenho pernas de andar e vou, olhando pra frente, com olhos renovados, e meus.

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  18/09/2007