A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Paraíso da desigualdade 

No último dia 21, comemoramos o dia de Tiradentes, mártir brasileiro que lutava pela independência de nosso país. Imbuídos dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, que nortearam a Revolução Francesa, diversos intelectuais se mobilizavam na busca pela independência em relação a Portugal, até que a mesma se instaurasse em 7 de Setembro de 1822.

Contudo, o que vemos ao longo da história do Brasil, é um distanciamento considerável de tais ideais. A despeito de nossas conquistas políticas: voto livre, direitos trabalhistas, liberdade de expressão etc., a desigualdade social tem se mantido como a nossa maior constante.

Para completar o cenário decadente de nossa estrutura social, explodiu, nos últimos dias, graças à operação Furacão, o escândalo do envolvimento de delegados, desembargadores, magistrados, com a máfia dos bingos e dos caça-níqueis. Milhões e milhões de reais de propina, rolando em nome da impunidade.

O que mais me espanta é que senhores bem sucedidos, empossados em cargos públicos, estáveis, com salários privilegiados diante da maioria de seus concidadãos, entreguem-se sem pudor a esse mar de sujeira, joguem na latrina anos de estudo, de preparo, toda uma carreira construída, desperdiçada em nome da ganância. Porque não se pode dizer que os homens mais bem preparados, inteligentes e devidamente empregados, estivessem sem perspectiva de vida, desesperados para sobreviver.

Num país em que 50 milhões de pessoas vivem em estado de miséria, com menos de 80 reais mensais[1], aqueles que deveriam assegurar nossos direitos, os homens da lei, estão insatisfeitos com seus “módicos” salários e sua “entediante” estabilidade.

Honoráveis senhores, sua ambição desmedida é um acinte, um ultraje à fome, à miséria, à falta de saneamento básico, ao desemprego de milhões de pessoas que (essas sim) sobrevivem, diariamente. Com sua falta de caráter, ocupam posições concorridas e privilegiadas, e, mesmo com sua subsistência e conforto assegurados, utilizam-se de tais cargos para enriquecimento próprio e ilícito.

Pode-se dizer que os ideais lançados pela Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade, mencionados anteriormente – foram, descaradamente, substituídos por “impunidade, desigualdade e improbidade”. Se em 1789, nossos inconfidentes lutavam contra os abusos da Coroa, no século 21 são nossos indigentes que lutam pela resistência diária.

Meu desejo mais profundo é que tais escândalos possam suscitar na consciência dos que se corrompem o último lampejo de sensatez, possibilitando-os o olhar para os desfavorecidos e o auto-exame. Que nós, cidadãos comuns, possamos abrir os olhos e perceber o quão insanamente ambiciosos estamos nos tornando.

E que a esperança, ainda que enfraquecida, não tenha fenecido com o nosso mártir.


[1] Pesquisa da FGV-SP


Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  23/04/2007