Paraíso da desigualdade
No último dia 21, comemoramos o dia de Tiradentes, mártir
brasileiro que lutava pela independência de nosso país.
Imbuídos dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade,
que nortearam a Revolução Francesa, diversos intelectuais se
mobilizavam na busca pela independência em relação a Portugal,
até que a mesma se instaurasse em 7 de Setembro de 1822.
Contudo, o que vemos ao longo da história do Brasil, é um
distanciamento considerável de tais ideais. A despeito de
nossas conquistas políticas: voto livre, direitos
trabalhistas, liberdade de expressão etc., a desigualdade
social tem se mantido como a nossa maior constante.
Para completar o cenário decadente de nossa estrutura social,
explodiu, nos últimos dias, graças à operação Furacão, o
escândalo do envolvimento de delegados, desembargadores,
magistrados, com a máfia dos bingos e dos caça-níqueis.
Milhões e milhões de reais de propina, rolando em nome da
impunidade.
O que mais me espanta é que senhores bem sucedidos, empossados
em cargos públicos, estáveis, com salários privilegiados
diante da maioria de seus concidadãos, entreguem-se sem pudor
a esse mar de sujeira, joguem na latrina anos de estudo, de
preparo, toda uma carreira construída, desperdiçada em nome da
ganância. Porque não se pode dizer que os homens mais bem
preparados, inteligentes e devidamente empregados, estivessem
sem perspectiva de vida, desesperados para sobreviver.
Num país em que 50 milhões de pessoas vivem em estado de
miséria, com menos de 80 reais mensais,
aqueles que deveriam assegurar nossos direitos, os homens da
lei, estão insatisfeitos com seus “módicos” salários e sua
“entediante” estabilidade.
Honoráveis senhores, sua ambição desmedida é um acinte, um
ultraje à fome, à miséria, à falta de saneamento básico, ao
desemprego de milhões de pessoas que (essas sim) sobrevivem,
diariamente. Com sua falta de caráter, ocupam posições
concorridas e privilegiadas, e, mesmo com sua subsistência e
conforto assegurados, utilizam-se de tais cargos para
enriquecimento próprio e ilícito.
Pode-se dizer que os ideais lançados pela Revolução Francesa –
liberdade, igualdade e fraternidade, mencionados anteriormente
– foram, descaradamente, substituídos por “impunidade,
desigualdade e improbidade”. Se em 1789, nossos inconfidentes
lutavam contra os abusos da Coroa, no século 21 são nossos
indigentes que lutam pela resistência diária.
Meu desejo mais profundo é que tais escândalos possam suscitar
na consciência dos que se corrompem o último lampejo de
sensatez, possibilitando-os o olhar para os desfavorecidos e o
auto-exame. Que nós, cidadãos comuns, possamos abrir os olhos
e perceber o quão insanamente ambiciosos estamos nos tornando.
E que a esperança, ainda que enfraquecida, não tenha fenecido
com o nosso mártir.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira