Por que os jovens devem
ler Harry Potter
A corrida pelo último livro da
inglesa J.K.Rowling, Harry Potter e as relíquias da
morte está dando o que falar. Fãs do mundo todo saíram
numa corrida enlouquecida em busca de um exemplar, a fim de
descobrirem o desfecho da saga do bruxinho mais querido do
mundo. O que será que atrai tantas mentes juvenis a essas
famigeradas páginas?
Há um considerável número de pessoas que despreza ou
simplesmente não nutre interesse nenhum pela série. Os mais
intelectualizados não vêem muita novidade nos elementos
místicos do enredo, embasado no folclore anglo-saxão. Os mais
preguiçosos alegam que os livros são muito grandes. Contudo,
acredito que caiba uma análise mais aprofundada sobre o
fenômeno Harry Potter.
Em primeiro lugar, há que se
considerar que o público a que os livros se destinam é o
infanto-juvenil e Rowling buscar atender tal proposta criando
um mundo mágico que transborda criatividade, cor e detalhe.
Cada castelo, cada criatura mágica, cada bruxo especificamente
é descrito ricamente e criado de maneira bastante original. O
leitor é convidado a visualizar cada cena, a dar vazão à
imaginação, a embarcar numa verdadeira viagem fantástica
na medida em que percorre as páginas. A narrativa construída
pela autora avança além dos acontecimentos e adentra os
sentimentos, anseios, medos, alegrias, excitação de cada
personagem, dando uma concepção bem ampla da cena descrita.
Rowling, estrategicamente, encerra os capítulos no ápice das
cenas, para que o leitor tenha a curiosidade aguçada e, logo,
não tenha coragem de deixar a leitura para mais tarde, podendo
alcançar, enfim, o tão esperado desfecho.
As tramas giram em torno da velha luta entre o bem e o mal,
mas não é isso que dá graça aos livros. O universo adolescente
nos é apresentado através dos dilemas que todos nós vivemos: o
primeiro amor, a aparência esquisita da puberdade, o desajuste
social, a rebeldia, o cotidiano escolar com seus altos e
baixos, a perda da inocência, a busca pela própria identidade,
a amizade verdadeira, a esperança num mundo melhor. A
grande amizade entre Harry, o desajeitado Rony e a
brilhante Hermione é algo que todo jovem deseja e Rowling a
apresenta desprovida de interesses e máscaras sociais, isto é,
sincera, como deve ser. Deste modo, o leitor acaba se
identificando, inevitavelmente.
Os temas sombrios, muito
criticados pelos mais conservadores, são na verdade
educativos. O tirano e cruel Voldemort, que quer dizimar os,
como ele chama, “sangue-ruins” (bruxos mestiços ou filhos de
não-bruxos), nada mais é que a metáfora de algumas personagens
históricas, conhecidas muito bem por suas atrocidades e
intolerância. A crítica ao preconceito racial e social permeia
toda a obra.
O herói, Harry Potter, órfão desde a primeira infância vive o
desafio de, mesmo só, sem família que o ampare em sua
juventude, manter-se no caminho do bem, além de ter sua
coragem testada em diversos momentos. Harry é um herói
complexo, carente, inseguro, solitário, atormentado por
fantasmas da infância, mas que teima em perseguir seus ideais,
ser bom, combater as injustiças, ainda que isso custe a sua
vida.
Os religiosos não têm com que se
preocupar, pois os livros não fazem apologia à bruxaria. A
magia é descrita como algo novo, curioso e, por diversas
vezes, engraçado, mas sempre pelo viés da irrealidade:
varinhas mágicas, vassouras voadoras, pinturas interativas,
raízes selvagens, árvores lutadoras, um mundo fantástico que
em nada lembra rituais de vodu, feitiços malignos ou trabalhos
macabros regados a sacrifícios sangrentos.
A mensagem que a estória transmite é positiva, a da
amizade verdadeira, a do orgulho em ser como se é, a da
tolerância e respeito ao próximo, a das boas escolhas em
detrimento das ruins. E permite um enorme aprendizado no que
diz respeito ao folclore inglês, ao vocabulário e à ética.
Sim, à ética! Pois encorajar, nesses tempos caóticos em que
vivemos, jovens mentes a conviver em harmonia e com respeito,
em nome de um mundo justo, de forma divertida e empolgante, é
o melhor que um livro de ficção infanto-juvenil poderia fazer.
Então, que leiam o Harry Potter!
Aline Aimée Carneiro de Oliveira