Profissão ou sacerdócio?
Nas últimas semanas, os
professores têm sido assunto de diversos debates e notícias na
imprensa. Em primeiro lugar, a pendenga que se estende no Rio
de Janeiro por conta do aumento dos professores estaduais que
teima em não sair. Em seguida, os jornais aproveitaram o clima
de descontentamento da categoria para comentar a enorme falta
de profissionais na área. Por último, na semana passada, num
jornal local, uma coordenadora de educação comentava a
inclusão de alunos com necessidades especiais nas salas de
aula regulares.
No primeiro caso, uma quantidade enorme de pessoas desaprova o
aumento justo da categoria porque este causaria um rombo
orçamentário na folha estadual. O governador Sérgio Cabral
propôs um aumento de 25%, dividido em 24 meses, o que
resultaria num aumento mensal de 2 reais. A categoria, que se
arrasta há 11 anos sem aumento, é claro, protestou com
paralisações. O salário de um professor estadual no Rio, com
apenas uma matrícula de 16 horas semanais, em início de
carreira, é de 540 reais. Considerando a situação econômica do
país, não seria um mau salário para trabalhar apenas 16 horas.
Ocorre que o professor estadual de Ensino Médio, leciona, em
geral, para uma média de 50 alunos por turma. Alunos estes que
chegam com uma defasagem formativa gritante. No ensino
noturno, então, é comum encontrarmos alunos semi-analfabetos,
que trabalham e precisam do diploma. O fato de trabalharem
acaba sendo um agravante, porque a maioria já é adulta, tem
família e casa para administrar e, por isso, não costuma
estudar em casa. O professor, diante de tal situação, se vê
obrigado a praticar malabarismo didático para dar conta das
dificuldades (quase sempre básicas) destes alunos e ainda
cumprir o programa, que é verificado pelo sistema de avaliação
Nova Escola, que avalia alunos por amostragem. O desempenho
obtido pela escola nessa avaliação define um benefício
recebido pelos profissionais da mesma (professores, diretores,
apoio), variável de 100 a 500 reais.
Como profissional da educação, o professor deve estar sempre
se reciclando, especializando, para que seu conhecimento não
se torne obsoleto e também para atender às necessidades
sociopolíticas, que ao longo do tempo, vão exigindo revisões e
adaptações do currículo. Mas, com um salário de 540 reais,
como o profissional pode, além de se sustentar, fazer uma
pós-graduação, comprar livros, participar de congressos e
seminários? Lembremos que o professor já tira do próprio bolso
uma quantidade considerável de material de trabalho, quando
confecciona apostilas, provas, exercícios, já que nem todas as
escolas (especialmente as estaduais) lhes provêm tais
serviços. O professor, então, se vê obrigado a acumular
matrículas com vistas a aumentar a sua renda, o que significa
mais turmas lotadas, menos tempo para planejamento, mais
avaliações para corrigir e menos tempo ainda para reciclagem e
especialização.
O trabalho acaba se tornando exaustivo, na correria entre
escolas, planejamento de aulas, correção de trabalhos,
reduzindo o tempo livre do profissional que mal consegue repor
as energias, ou ter um momento de descontração no fim de
semana tomado. É aí que começamos a entender a falta de
profissionais na área. Com essa rotina enlouquecedora e um
salário que não compensa, os estudantes universitários fogem
dessa carreira, enquanto os profissionais atuantes acumulam
licenças médicas por falta de voz, tendinites e bursites,
estafa, estresse e depressão. Se as agruras descritas cima
parecem coisa pouca, some a elas o desrespeito freqüente com
que os professores são tratados. Pais relegam a educação moral
de seus filhos à escola e, muitas vezes, recebemos alunos
completamente indisciplinados, grosseiros, desbocados, quase
selvagens. E, como se fosse pouco fazê-los aprender as
disciplinas do currículo, no contexto supracitado, ainda temos
de domá-los, em meio a xingamentos e respostas desaforadas,
assumindo para nós a responsabilidade dos pais. Os
professores são as grandes vítimas da Síndrome de Burnout,
doença em que as pessoas consomem-se física e emocionalmente,
passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço.
Segundo a psicóloga Adelaide Degane de Cantone, a Síndrome de
Burnout é caracterizada pela ausência de motivação ou
desinteresse; mal estar interno ou insatisfação ocupacional
que parece prejudicar, em maior ou menor grau, a atuação
profissional de alguma categoria ou grupo profissional.
É apresentada como formas de condutas negativas, como por
exemplo, a deterioração do rendimento, a perda de
responsabilidade, atitudes passivo-agressivas com os outros e
perda da motivação (...)
Diante de tal instabilidade nas condições de trabalho, muitos
partem da licença médica para a exoneração, desistindo de vez
da carreira. Há ainda aqueles que acumulam ocupações diversas,
alheias ao magistério, como alternativa para não acumular
turmas. É o meu caso.
A última coisa que faltava para agravar tal quadro é incluir
os alunos com necessidades especiais em tais turmas. Não que
eles devam ser excluídos do meio social, não é isso. Mas a
atual formação de professores não inclui este tipo de
competência. Sou professora de Português, formada numa
renomada universidade estadual do Rio, e afirmo que não há
disciplina, treinamento, ou curso que nos habilite a lecionar
para alunos surdos, por exemplo. A linguagem de sinais não
está incluída em nossa formação e, a menos que o aluno faça
leitura labial, ficará um tanto quanto desorientado. Também
não falta boa vontade de muitos profissionais de fazer com que
o conhecimento se produza. Mas, numa turma lotada, com
currículo a ser cumprido, uma ou outra coisa acaba sendo
negligenciada.
Para dizer a verdade, boa vontade é o que mantém muitos
desses profissionais ainda na ativa. São pessoas que gostam do
que fazem, que entendem a importância da educação na vida do
cidadão e acabam se doando, literalmente. Então, retomamos a
pergunta do título: magistério é profissão ou sacerdócio?
Estamos fadados a somente receber salário moral? Ouço pessoas
mais velhas dizendo que, há décadas atrás, o professor era o
profissional renomado, digno de respeito, o total oposto do
que se vê hoje. Para que obtenhamos algum respeito e
admiração, é necessário que cursemos o Mestrado, o Doutorado e
o Pós-Doutorado. O Ensino Superior sim valoriza o
profissional, com um salário de início de carreira atraente e
um número de turmas trabalhável. O profissional ainda é
estimulado a desenvolver pesquisas na área, o que o mantém
sempre atualizado.
Detectamos, então, uma total desvalorização do Ensino Básico,
tendo o professor como grande símbolo da precariedade. Não
adianta jogar nas nossas costas a culpa do mau desempenho
estudantil, enquanto nos forem oferecidos salários
incompatíveis com as nossas responsabilidades, turmas
super-lotadas e falta de recursos. O governador do Rio alegou
não ser milagreiro, na ocasião das paralisações. Caro
governador, também não os somos nós! E esse recado não é só
para as autoridades. É também para a sociedade, de modo geral.
Valorizem os professores de seus filhos, cobrem das
autoridades melhores condições para que possamos educá-los.
Vocês querem um Brasil melhor, uma sociedade mais digna?
Então, ajudem-nos a exercer o nosso papel, ao invés de nos
achincalhar! Porque nós também queremos mudar a cara do nosso
país e temos competência para isso. Só que não dá pra
florescer o deserto com as mãos vazias.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira