Saudades de Elsie Lessa
Carecem os jornais de hoje de
textos que nos queiram tocar a alma, reacender-nos a
sensibilidade, proporcionar-nos reflexões sobre as coisas
simples da vida. O veículo jornal nada mais é que uma fonte
crua e opaca de realidade, que mais nos seda os sentidos que
instiga nosso impulso vivificador.
Pensar as singelezas da vida tornou-se atividade sem lugar na
esteira incessante dos compromissos que nos aguardam e a
reflexão sobre o cotidiano restringiu-se à abordagem de temas
tais como violência, corrupção e miséria.
Cada dia mais robotizado na
rotina casa-trabalho-casa, ao indivíduo resta “entreter-se” no
entorpecimento dos copos de cerveja ou na alienação
proporcionada pela caixa mágica que cotidianamente veneramos
no calor do lar. Em outras palavras, estamos atrofiando os
nossos sentidos. Somos, gradativamente, mais e mais incapazes
de nos ater às singularidades, aos detalhes, às sutilezas do
mundo que nos cerca. O prazer, cada vez mas indissociável do
consumismo e refém das táticas de propaganda e do conceito de
propriedade capitalista, torna-nos constantemente
insatisfeitos.
Há 7 anos, perdemos uma das nossas mais sensíveis cronistas,
Elsie Lessa, cujo lirismo do olhar nos revelava belezas
insuspeitadas numa vida predominantemente caótica. Amiga do
velho Rubem Braga, com que compartilhava semelhanças e
anseios, essa cidadã do mundo (pois residiu em diversas
cidades, brasileira e européias) voltava sua curiosidade para
tudo aquilo que valesse a pena ser lembrado, contemplado: um
sorriso de criança a brincar, um entardecer cor de rosa que
nos transforma os sentimentos, a expressão inesperadamente
curiosa de um companheiro anônimo de viagem, uma conversa com
amigos à beira da praia, um passeio de bicicleta...
Elsie nos convidava a desviar os olhos da rotina célere e
voltá-los para elementos mais simples, resistentes, mas não
menos belos, coisas corriqueiras que passam despercebidas por
nossa sensibilidade fragilizada, numa tentativa de resgatar um
prazer e uma felicidade primordiais. Faz parte dessa
iniciativa o apego que a cronista tem por suas memórias. Elsie
lança mão das próprias lembranças para, associando-as à
memória da cidade (ou das cidades por onde passou), resgatar a
sua própria história do esquecimento gradativo, causado pelo
excesso de atribuições e informações do presente. Degustar
novamente pela via da memória um doce que se comia na
infância, comprado numa barraquinha que não mais existe;
relembrar os livros que se lia na juventude, debaixo de uma
árvore, comendo pão com manteiga; reconhecer-se emocionada e
surpreendida diante da casa onde residiu na infância, tão
igual a antes, mas tão oprimida pelas grandes construções
modernas... Eis alguns exemplos hábitos e sensações que se
quer proteger do fenecimento. Essa atitude revela a
necessidade da escritora em colecionar experiências
significativas e contáveis para dividi-las com o público
leitor. Este, impulsionado didaticamente pela proposta da
autora, vê-se incitado a fazer o mesmo e a reencontrar um
prazer adormecido. E ao se permitir enxergar o mundo com olhos
lúdicos, reata laços afetivos com a cidade - agora não somente
agente de violência, mas também fonte de deleite – recobrando
a capacidade de encontrar satisfação em coisas simples. Não se
trata de fechar os olhos para os dilemas e dificuldades da
vida, mas sim de impedir que eles amortizem a nossa
sensibilidade, desumanizando-nos.
Para aqueles que desejem “experimentar” as crônicas lessianas,
há as coletâneas A Dama da Noite, Ponte Rio-Londres e
Canta que a vida é um dia. Permita-se reencontrar sua alma
infantil e faça as pazes com o mundo e com a vida.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira