Sgt. Peppers: há 40 anos reinando absoluto
Ontem eu estava lendo a revista
Piauí,
não sei se conhecem, mas tem textos ótimos e é a patrocinadora
oficial do campeonato de ioiô (?!), e fiquei maravilhada com
uma matéria sobre o LP "Sargent Peppers Lonely Heart Club Band",
dos Beatles, escrita por André Singer para celebrar os 40 anos
do disco, completos em 1° de Junho passado.
Eu, que sou eterna beatlemaníaca, desde os tenros 14
aninhos, fiquei estarrecida com tamanha perspicácia e
competência na análise e interpretação das músicas, tecidas
pelo jornalista. Eu não tinha dúvidas acerca da genialidade
musical da banda, especialmente da dupla Lennon/McCartney, mas
ontem uma outra face do disco me foi apresentada.
Adolescente, no afã de entender o que os meus lindinhos
diziam, lancei mão do dicionário e encarei a missão apaixonada
de traduzir-lhes todas as músicas que me chegassem aos
ouvidos. Com minha imaturidade lingüística para o inglês - que
melhorou após a tarefa, é verdade - não saquei a profundidade
daquelas letras maravilhosas, cuja poesia já me deixava
fascinada.
Mas, nessa reportagem, Singer descortinou para mim como
os Beatles, ao fingirem ser outra banda, permitiram-se a
autocrítica e auto-ironia bem construída (“With a little help
from my friends”), bem como a crônica afiada sobre seu tempo:
a alienação e o tédio do homem (“Good Morning Good Morning”),
a guerra e a rotina capitalista (“A day in the life”), as
drogas (“Fixing a hole”).
Paul, com um olhar mais voltado para os sentimentos e
dilemas individuais, escreveu “She´s living home” e “When I’m
sixty four”; John, imerso num quase-surto psicótico,
questionando a realidade e migrando para o sonho, muitas vezes
auxiliado pela viagem lisérgica, criou “Lucy in the sky with
diamonds”. Eu acrescentaria, ainda, que, na medida em que
amadureciam artisticamente, sentiam-se incomodados com a
simplicidade de certas músicas que tinham certo apelo
comercial, e ao se reinventarem como outra banda, dão asas à
criatividade, ousando como nunca, associando o rock à ópera,
desgarrando-se de estereótipos, justapondo músicas
completamente diferentes num mesmo álbum, superlativando o
lirismo sonoro. Sim, sonoro, porque "A day in the life" é um
monumento, uma obra de arte musical em que o som diz tanto ou
mais que a própria letra.
Toda essa revolução na história do rock, proporcionada
por caras com 24-26 anos de idade! Esses jovens que emergiram
da modesta Liverpool, faziam música para o povo e foram
acolhidos pelos maiores intelectuais do mundo da arte. Os
Beatles, como maior referência do mundo pop, lançaram um disco
de rock, conceitual e primoroso, iniciaram uma nova era
musical, conduziram o público por revelações profundas,
escaparam do simplismo comercial, e venderam muito!
Depois da reportagem tão instigante, não tive alternativa
a não ser ouvir o disco com "novos ouvidos". E admitir: nada
lançado depois de Sgt. Peppers foi capaz de superá-lo. Ele
continua reinando invicto no podium da arte musical.
Vocês têm de ouvir pra confirmar - e se render.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira