Tropa de elite: Estado de exclusão?
Eu, assim como milhares de brasileiros, tive acesso a uma
cópia pirata do filme Tropa de Elite, recente alvo dos
debates culturais. O filme sobressai por ser bem feito,
realista, desprovido de maniqueísmos e está virando febre
entre os jovens, que reproduzem seus bordões (“Desiste zeroum!”)
e que já estão à procura do uniforme típico do Bope, pra ficar
tirando onda por aí.
O filme, cujo protagonista afirma que o Bope é essencial para
que o Rio sobreviva com um mínimo de segurança, caso contrário
já teria sucumbido à guerra urbana, mostra repetidas cenas de
tortura praticada naqueles pertencentes ou associados ao
tráfico. Isso me afligiu um pouco, dada a repercussão do
filme, cujos debates sequer tocaram no assunto com um mínimo
de ressalva. As pessoas estão cansadas de violência? Sim. Não
agüentam mais o estado constante de acuamento e
vulnerabilidade? Também. Mas será que isso justifica a
tortura?
Não estou aqui pra defender os direitos humanos de bandidos,
mas me parece que já é consenso silencioso que tal tratamento
possa ser empregado em nome do combate ao tráfico. Queremos
evitar a nossa violência praticando a violência neles. Sim,
porque o grande dilema do carioca ou fluminense, e de qualquer
povo refém do tráfico é a violência que sofremos através de
assaltos e balas perdidas.
Esta semana, li uma opinião num blog que dizia que esse filme
era extremamente fascista, já que pregava a tortura como
procedimento necessário à restauração da ordem. Eu,
sinceramente, acho que o objetivo do filme era mais o realismo
(sabemos que a tortura rola solta na polícia) do que a
proclamação de alguma causa. O que me chamou mesmo a atenção é
que, com a realidade esfregada assim na nossa cara, ninguém
tenha tido ânimo ou coragem de comentar o fato.
No início dessa semana, o apresentador Luciano Hulk, após ter
sido vítima de um assalto a mão armada, clamou ao Bope que vá
dar um jeito em São Paulo. Olha aí a condescendência começando
a se proclamar. O milagroso Bope, com seus milagrosos
procedimentos, sendo requisitado como salvação nacional.
Vamos supor que algum deputado aí crie uma lei autorizando,
mesmo que para situações de extrema periculosidade, o uso de
tais métodos. E a galera “que manda” acabe aprovando. Assim,
devagar, a brecha começa a se abrir. Em nome da verdade,
vão-se primeiro os bandidos; depois, os associados; em
seguida, diante da carência de provas, a família, os vizinhos,
os ligados: os suspeitos. Até que essa ciranda chegue até nós,
cidadãos de bem.
Tudo bem. Eu posso até estar exagerando. Mas se lembrarmos que
a mera discordância ideológica e partidária, que não só
maculou e feriu, mas também matou milhares de pessoas no
período ditatorial, era para no mínimo nos sacudirmos, meio
desconfortáveis, em nossos confortáveis assentos. Porque
naquele momento, as políticas totalitárias eram implementadas
devido a problemas decorrentes de questões econômicas. Hoje,
que, sem medo de ser taxada de hiperbólica, vivemos uma
situação de calamidade pública, em que o Poder paralelo cria e
pratica a ferro e fogo suas próprias leis, a repressão
violenta ao crime encontra uma adesão maciça e desesperada,
desatrelada de pólos partidários. Tá todo mundo com medo e
querendo resultados.
Sinceramente, acho que esse assunto devia ser pensado com um
pouco mais de atenção e cuidado, para não nos tornarmos
vítimas do nosso próprio desespero.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira