A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Tropa de elite: Estado de exclusão?

Eu, assim como milhares de brasileiros, tive acesso a uma cópia pirata do filme Tropa de Elite, recente alvo dos debates culturais. O filme sobressai por ser bem feito, realista, desprovido de maniqueísmos e está virando febre entre os jovens, que reproduzem seus bordões (“Desiste zeroum!”) e que já estão à procura do uniforme típico do Bope, pra ficar tirando onda por aí.

O filme, cujo protagonista afirma que o Bope é essencial para que o Rio sobreviva com um mínimo de segurança, caso contrário já teria sucumbido à guerra urbana, mostra repetidas cenas de tortura praticada naqueles pertencentes ou associados ao tráfico. Isso me afligiu um pouco, dada a repercussão do filme, cujos debates sequer tocaram no assunto com um mínimo de ressalva. As pessoas estão cansadas de violência? Sim. Não agüentam mais o estado constante de acuamento e vulnerabilidade? Também. Mas será que isso justifica a tortura?

Não estou aqui pra defender os direitos humanos de bandidos, mas me parece que já é consenso silencioso que tal tratamento possa ser empregado em nome do combate ao tráfico. Queremos evitar a nossa violência praticando a violência neles. Sim, porque o grande dilema do carioca ou fluminense, e de qualquer povo refém do tráfico é a violência que sofremos através de assaltos e balas perdidas.

Esta semana, li uma opinião num blog que dizia que esse filme era extremamente fascista, já que pregava a tortura como procedimento necessário à restauração da ordem. Eu, sinceramente, acho que o objetivo do filme era mais o realismo (sabemos que a tortura rola solta na polícia) do que a proclamação de alguma causa. O que me chamou mesmo a atenção é que, com a realidade esfregada assim na nossa cara, ninguém tenha tido ânimo ou coragem de comentar o fato.

No início dessa semana, o apresentador Luciano Hulk, após ter sido vítima de um assalto a mão armada, clamou ao Bope que vá dar um jeito em São Paulo. Olha aí a condescendência começando a se proclamar. O milagroso Bope, com seus milagrosos procedimentos, sendo requisitado como salvação nacional.

Vamos supor que algum deputado aí crie uma lei autorizando, mesmo que para situações de extrema periculosidade, o uso de tais métodos. E a galera “que manda” acabe aprovando. Assim, devagar, a brecha começa a se abrir. Em nome da verdade, vão-se primeiro os bandidos; depois, os associados; em seguida, diante da carência de provas, a família, os vizinhos, os ligados: os suspeitos. Até que essa ciranda chegue até nós, cidadãos de bem.

Tudo bem. Eu posso até estar exagerando. Mas se lembrarmos que a mera discordância ideológica e partidária, que não só maculou e feriu, mas também matou milhares de pessoas no período ditatorial, era para no mínimo nos sacudirmos, meio desconfortáveis, em nossos confortáveis assentos. Porque naquele momento, as políticas totalitárias eram implementadas devido a problemas decorrentes de questões econômicas. Hoje, que, sem medo de ser taxada de hiperbólica, vivemos uma situação de calamidade pública, em que o Poder paralelo cria e pratica a ferro e fogo suas próprias leis, a repressão violenta ao crime encontra uma adesão maciça e desesperada, desatrelada de pólos partidários. Tá todo mundo com medo e querendo resultados.

Sinceramente, acho que esse assunto devia ser pensado com um pouco mais de atenção e cuidado, para não nos tornarmos vítimas do nosso próprio desespero. 

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  04/10/2007