Uma véspera
Quatro da tarde. Fazia meia
hora que Eduardo saíra para trabalhar. Despedira-se,
beijando-me na testa e, ao chegar à porta, acenou-me com um
olhar meio penoso, meio vazio.
Havia um clima esquisito
entre nós, após uma conversa no banco. Faltavam dois dias para
o ano novo, e ele comentara que desejava comprar uma roupa
preta para a virada.
- Preta? - Espantei-me. - E o
clima de paz, confraternização? Não significa nada para você?
Ele chamou-me boba,
argumentando que paz somos nós que fazemos. Por que, então,
nunca estávamos em paz? Ele não se esforçava muito para
agradar-me, ou, ao menos, poupar-me de comentários cortantes.
Ultimamente, tudo vinha sendo razão de críticas: as minhas
roupas roxas e laranjas, as músicas da Marisa, meus brincos
indianos, as minhas unhas quadradas, que ele preferia
redondas, as colegas lésbicas do trabalho...
Eu vivia me perguntando por
que ele permanecia comigo, já que tantas coisas o irritavam, e
por que tanta insatisfação junta, após quatro anos de
relacionamento. Ademais, já que não tínhamos filhos e não
éramos casados, bastava-lhe fazer as malas e partir. Era bem
simples, não? Mas e eu? Por que permanecia com ele, após tanto
questionamento e insatisfação?
Como eu estava mudada!
Aquele homem conseguira dominar-me por completo. Atendia a
todos os seus pedidos, vestia-me "melhor", mantinha a cor
natural dos cabelos, só ouvia Marisa quando ele estava fora,
trabalhando ou pescando, aturava a mãe dele com educação e
paciência, apesar das constantes indiretas. Onde eu havia me
perdido, que agora só enxergava humilhação em redor? Eu havia
chegado num ponto em que, se ele dissesse que a salvação para
nós era a "abertura" do relacionamento, eu estaria aceitando
de bom grado.
Por que eu, uma mulher bem
sucedida, inteligente, bonita, sentia-me tão dependente
daquele homem? Eu sabia que precisava fazer algo aquele dia.
Tomei um longo banho, programando o dia seguinte, a minha
vida...
Peguei uma mala e comecei a
separar as roupas, romances, perfumes, calmamente, pensando na
história deles, das ocasiões em que os comprei ou ganhei. Pus
uma música da Simone, "Começar de novo", e cantava, fechando
os olhos vez ou outra. "Começar de novo e contar comigo/ vai
valer a pena já ter te esquecido ..."
Uma lagrimazinha caíra
furtivamente... Eu me habituara a somente me libertar na
intimidade do meu quarto vazio, dos meus livros, das minhas
músicas, sonhando ao som daquelas vozes doces. Ali eu podia
ser quem quisesse: atriz, cantora, política, filósofa,
desinibida... Ali é que eu fazia o meu mundo, a minha
realização. Por que neguei a mim mesma o direito de viver? De
ser livre? Não consigo entender.
Pus uma música mais animada,
para embalar a arrumação da mala. Às sete, ela estava pronta.
Decidir sonhar um pouco mais, assistindo àquele filme tão
querido, a que o Eduardo jamais conseguira assistir inteiro,
porque sempre dormia.
Começo a ficar sonolenta.
Eduardo chegaria à uma hora. Era melhor guardar a mala no
armário e dormir na cama. Precisava estar descansada para o
dia seguinte. Além disso, não queria que o Edu me encontrasse
dormindo no sofá.
Aquela havia sido uma noite
mágica, cheia de sonhos lindos, de aventuras, eu, livre e
independente, mundo a fora.
- Dorminhoca! - Era Eduardo,
chamando-me às oito.
- Já arrumou a mala?
- Já - respondi.
Era dia 31, e o Ano Novo
seria comemorado na casa da mãe dele.
Aline Aimée Carneiro de Oliveira