A casa dos grandes pensadores
 
 

ALINE AIMÉE C. DE OLIVEIRA

Urbana às avessas
 
Aqueles que me conhecem razoavelmente, jurariam que sou uma mulher urbana pós-moderna de carteirinha: tenho dois empregos, trabalho no centro da cidade, chego tarde em casa em vários dias da semana, visto-me na moda, sou independente, malho (quando sobra tempo). Coitados! Mal imaginam que sou a mais provinciana dos seres!
Esta semana, estava voltando pra casa com minha bolsa enorme e super na moda e meus inseparáveis livros, quando algo, singelamente inusitado me ocorreu. Uma menininha de mais ou menos 9 anos pediu-me que a atravessasse numa rua um pouco mais movimentada. Como ainda estávamos numa transversal, mais tranqüila, pude aproveitar de sua agradável e doce companhia. A pequenina, cujo nome esqueci de perguntar (!), estava vindo da escola e me contava sobre suas disciplinas favoritas, o que ela havia aprendido no dia etc. Eu aproveitei para dizer-lhe que era professora, trocamos uma idéia, enfim.
O caso é que aqueles cinco minutos de prosa me deixaram no mais radiante bom humor e com uma vontade de repartir com alguém aquela experiência nova. Confusa entre a bobagem e a excitação, fiquei no dilema: ligo pra alguém? Será que vão entender o quão especial foi esse encontro?
Não, a menina não era doente, excepcional, caolha, super-dotada, extraterrestre, nada disso. Apenas uma menininha inocente, precisando que alguém responsável a atravessasse.
Mas isso pra mim foi o ápice da semana! Fora algumas conquistas no plano profissional pelas quais venho trabalhando bastante, essa chegou-me gratuitamente, escolheu-me, assim, entre os passantes, como quem nada quer.
Ora, o leitor, a essa altura, pergunta-se impaciente qual é o meu problema, não?
Respondo.
É que faz tempo que não jogo conversa fora. Saio de casa de madrugada e volto às altas da noite. Tirando meu marido, colegas de trabalho, e minha mãe e irmão, com quem encolho a distância através do celular, converso com pouca gente. Nesse dia, percebi a quanto tempo não conheço gente nova e notei (na verdade, lembrei) que não conheço meus vizinhos.
Como amo crianças, o que justifica o deleite da pequena companhia, sempre penso em como será quando tiver meus pecurruchos. Sempre idealizo levá-los às praças para brincar, correr, andar de bicicleta, o que até é possível no meu bairro, que tem muitas áreas residenciais e tranqüilas. Então, notei que faz anos que não ando de bicicleta e senti uma saudade! Eu e meu marido, antes de casar, costumávamos caminhar até uma praça perto de minha antiga casa pra sentar e... conversar, apenas isso. Há lá árvores enormes e sombrinhas gostosas. As crianças brincam, jogam bola, é bem bucólico... Também costumávamos caminhar à noite até umas barraquinhas pra tomar sorvete ou comer milho. Era bom...
Agora estamos tão cansados, que o ápice da noite é ver um filme comendo pizza. Quando estamos com espírito mais aventureiro, assistimos ao filme no cinema. Nada de errado com nenhum desses hábitos. Só que a conclusão a que cheguei é que tenho de ser tão metódica e responsável com meu trabalho quanto sou com o meu lazer. Afinal, eu mereço e preciso. O problema é que sempre associei o lazer a um relaxamento do espírito, estar despreocupado... e não alerta com o horário do passeio ou do sorvetinho. Isso não faz sentido algum! Marcar o momento de lazer na agenda pra não esquecer ou negligenciar, a que ponto cheguei!!!
E o pior é que pra mim relaxar é bem fácil! Não bebo, nem gosto de boate, então é barato. Minha casa é bem centralizada, então, é só ligar que o povo vem . A praça está logo ali, a dez minutos de caminhada. O maior empecilho sou eu mesma, que viciei no sofá da sala, do qual só saio em direção à cama. Essa letargia ainda me quebra, por que dormir não é relaxar!
Está aí uma meta para 2008: viver mais momentos de qualidade. Andar (de mãos dadas ou sozinha), convidar os amigos pra almoçar, lanchar na casa deles, conversar ao telefone (odeio atendê-lo, a propósito; precisamos de reconciliação), cantar mais vezes no videokê em frente à minha casa... Sim, há um videokê em frente à minha casa, onde pessoas relaxam diariamente com seus semitons empolgados, logo ali do outro lado da rua, onde só cantei uma única vez, a convite da minha sogra. Nem foi tão ruim, sabem? Na verdade, foi ótimo!
Sei que sou jovem, estou no início da carreira e que esse excesso de trabalho faz parte. Mas preciso urgentemente resgatar o deleite pra minha vida, nem que seja uma vez por semana. Afinal, um leve passeio e uma boa conversa fazem mais milagres na alma que esses diazepans e lexotans da vida!
Tomara que encontre a menininha hoje...

Aline Aimée Carneiro de Oliveira
 

Publicação: www.paralerepensar.com.br  20/02/2008