- Urbana às avessas
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- Aqueles que me conhecem razoavelmente, jurariam que sou
uma mulher urbana pós-moderna de carteirinha: tenho dois
empregos, trabalho no centro da cidade, chego tarde em casa
em vários dias da semana, visto-me na moda, sou
independente, malho (quando sobra tempo). Coitados! Mal
imaginam que sou a mais provinciana dos seres!
- Esta
semana, estava voltando pra casa com minha bolsa enorme e
super na moda e meus inseparáveis livros, quando algo,
singelamente inusitado me ocorreu. Uma menininha de mais ou
menos 9 anos pediu-me que a atravessasse numa rua um pouco
mais movimentada. Como ainda estávamos numa transversal,
mais tranqüila, pude aproveitar de sua agradável e doce
companhia. A pequenina, cujo nome esqueci de perguntar (!),
estava vindo da escola e me contava sobre suas disciplinas
favoritas, o que ela havia aprendido no dia etc. Eu
aproveitei para dizer-lhe que era professora, trocamos uma
idéia, enfim.
- O caso é
que aqueles cinco minutos de prosa me deixaram no mais
radiante bom humor e com uma vontade de repartir com alguém
aquela experiência nova. Confusa entre a bobagem e a
excitação, fiquei no dilema: ligo pra alguém? Será que vão
entender o quão especial foi esse encontro?
- Não, a
menina não era doente, excepcional, caolha, super-dotada,
extraterrestre, nada disso. Apenas uma menininha inocente,
precisando que alguém responsável a atravessasse.
- Mas isso
pra mim foi o ápice da semana! Fora algumas conquistas no
plano profissional pelas quais venho trabalhando bastante,
essa chegou-me gratuitamente, escolheu-me, assim, entre os
passantes, como quem nada quer.
- Ora, o
leitor, a essa altura, pergunta-se impaciente qual é o meu
problema, não?
-
Respondo.
- É que
faz tempo que não jogo conversa fora. Saio de casa de
madrugada e volto às altas da noite. Tirando meu marido,
colegas de trabalho, e minha mãe e irmão, com quem encolho a
distância através do celular, converso com pouca gente.
Nesse dia, percebi a quanto tempo não conheço gente nova e
notei (na verdade, lembrei) que não conheço meus vizinhos.
- Como amo
crianças, o que justifica o deleite da pequena companhia,
sempre penso em como será quando tiver meus pecurruchos.
Sempre idealizo levá-los às praças para brincar, correr,
andar de bicicleta, o que até é possível no meu bairro, que
tem muitas áreas residenciais e tranqüilas. Então, notei que
faz anos que não ando de bicicleta e senti uma saudade! Eu e
meu marido, antes de casar, costumávamos caminhar até uma
praça perto de minha antiga casa pra sentar e... conversar,
apenas isso. Há lá árvores enormes e sombrinhas gostosas. As
crianças brincam, jogam bola, é bem bucólico... Também
costumávamos caminhar à noite até umas barraquinhas pra
tomar sorvete ou comer milho. Era bom...
- Agora
estamos tão cansados, que o ápice da noite é ver um filme
comendo pizza. Quando estamos com espírito mais aventureiro,
assistimos ao filme no cinema. Nada de errado com nenhum
desses hábitos. Só que a conclusão a que cheguei é que tenho
de ser tão metódica e responsável com meu trabalho quanto
sou com o meu lazer. Afinal, eu mereço e preciso. O problema
é que sempre associei o lazer a um relaxamento do espírito,
estar despreocupado... e não alerta com o horário do passeio
ou do sorvetinho. Isso não faz sentido algum! Marcar o
momento de lazer na agenda pra não esquecer ou negligenciar,
a que ponto cheguei!!!
- E o pior
é que pra mim relaxar é bem fácil! Não bebo, nem gosto de
boate, então é barato. Minha casa é bem centralizada, então,
é só ligar que o povo vem . A praça está logo ali, a dez
minutos de caminhada. O maior empecilho sou eu mesma, que
viciei no sofá da sala, do qual só saio em direção à cama.
Essa letargia ainda me quebra, por que dormir não é relaxar!
- Está aí
uma meta para 2008: viver mais momentos de qualidade. Andar
(de mãos dadas ou sozinha), convidar os amigos pra almoçar,
lanchar na casa deles, conversar ao telefone (odeio
atendê-lo, a propósito; precisamos de reconciliação), cantar
mais vezes no videokê em frente à minha casa... Sim, há um
videokê em frente à minha casa, onde pessoas relaxam
diariamente com seus semitons empolgados, logo ali do outro
lado da rua, onde só cantei uma única vez, a convite da
minha sogra. Nem foi tão ruim, sabem? Na verdade, foi ótimo!
- Sei que
sou jovem, estou no início da carreira e que esse excesso de
trabalho faz parte. Mas preciso urgentemente resgatar o
deleite pra minha vida, nem que seja uma vez por semana.
Afinal, um leve passeio e uma boa conversa fazem mais
milagres na alma que esses diazepans e lexotans da vida!
- Tomara
que encontre a menininha hoje...
Aline Aimée Carneiro de Oliveira
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