A casa dos grandes pensadores
 
 

ANTONIO CARLOS FERNANDES

 

A mulher na ótica pedagógica e filosófica
 
Uma mulher foi a autora do primeiro romance literário de todos os tempos. Murasaki
Shibiku, uma japonesa da classe nobre, escreveu no ano 1007 um livro chamado “A história
de Genji”, contando a história de um príncipe em busca de amor e sabedoria.
 
Jan Amos Comenius (1592-1670). Professor, cientista e escritor checo.
René Descartes  (1596-1650). Filósofo, físico e matemático francês.
Voltaire - François-Marie Arouet (1694-1778). Poeta, ensaísta, dramaturgo, filósofo e historiador iluminista francês.
 
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Filósofo suíço, escritor, teórico político e um compositor musical autodidata.
Emanuel Kant (1724-1804). Filósofo alemão. Grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.
Arthur Schopenhauer (1788-1860). Foi um filósofo alemão do século XIX da corrente irracionalista.
 
Augusto Comte (1798-1857). Filósofo francês, pai da Sociologia e fundador do Positivismo.
 
O professor Comenius, o mais antigo dentre esses pensadores, diz que a instrução da mulher deve servir para ela “administrar bem a casa e para promover seu próprio bem, o do marido, dos filhos e de toda a família”.
Ele valoriza o trabalho das mães, sobre o qual escreve um tratado – o Guia da escola materna. Nele destaca o papel das mães, não só delas mas também das amas, no processo pedagógico.
 
Comenius defendeu a presença de toda a juventude, de ambos os sexos, na escola. Particularmente sobre o sexo feminino fez, na verdade, uma magistral defesa da mulher, num século onde isso seria praticamente impossível de se pensar, em face do machismo predominante na época:     “Ninguém deve ser excluído da instrução, a não ser aqueles a quem Deus negou sentidos ou inteligência. Tampouco se pode aduzir qualquer motivo válido para excluir o sexo frágil dos estudos da sabedoria. As mulheres, também são dotadas de inteligência aguçada e aptas ao saber; também para elas, como para os homens, estão abertas as portas de postos elevados, porque muitas vezes foram destinadas por Deus ao governo dos povos, a aconselhar sabiamente reis e príncipes, à ciência médica e às outras ciências úteis ao gênero humano, bem como ao dom da profecia e a censurar sacerdotes e bispos. Por que então permitimos que se alfabetizem e depois as afastamos dos livros? Temos medo da sua falta de reflexão? Mas quanto mais ocupada estiver a mente menor será o espaço destinado à imprudência, que nasce de mentes vazias”.
 
Descartes, filósofo, contemporâneo do professor Comenius, surge, na Modernidade, com o ideal de ciência  e uma expectativa de se dominar o mundo pela razão, pelo pensamento. Apesar de dizer que as mulheres eram mais aptas para a filosofia que os homens, a herança da filosofia de Descartes moldou a subordinação da natureza e da mulher à vontade do homem.
A primeira mulher a ter trabalhado e escrito algum texto em Matemática foi a grega Hipatia. Hipatia foi acusada de aconselhar Orestes a não se reconciliar com Cirilo e o seu fim foi trágico e triste. Após Hipatia existe um vazio de doze séculos onde o nome de nenhuma mulher matemática é registrado.
 
Voltaire, cem anos depois de Comenius, mesmo negando às mulheres as invenções e lhes reservando os trabalhos domésticos mais leves, devido a sua frágil compleição, afirma que este parece ser o único motivo que pode explicar a superioridade dos homens nos Estados. Diz que a condição inferior da mulher pode não ser resultado de uma condição inferior essencial, mas sim de um abuso de uma diferença natural.
Como, no entendimento “musculoso” do filósofo Voltaire, “o físico governa sempre o moral”, a constituição física dos homens garante a eles o poder da força estabelecedora das leis e governadora do mundo moral. A condição inferior da mulher se apresenta como resultado do poder físico masculino que acaba por governar todos os âmbitos da vida.
 
O filósofo Rousseau, mais de cem anos depois de  Comenius e Descartes, defende a legitimação da exclusão da instrução da mulher com base nas tradições cristãs e diz, ainda, que “a mulher de cultura é uma praga para o marido, para os filhos, para a família, para os criados, enfim, para todos”. Afirmou, também, que os homens necessitavam de uma mulher no lar para cuidar de tarefas que somente ela poderia assumir.
 
O pensamento misógino de Rousseau se expressa claramente quando justifica um modelo de educação diferenciada segundo o sexo, argumentando: “uma vez que se demonstrou que o homem e a mulher não são e nem devem ser constituídos da mesma maneira, nem quanto ao caráter, nem quanto ao temperamento, segue-se que não devem ter a mesma educação”.
 
É na exclusão das mulheres de uma educação baseada na razão que o filósofo Rousseau assenta as bases da soberania masculina, que se reflete em todas as esferas da sociedade. A fronteira da razão em Rousseau passou a ser determinante e determinada pela divisão sexual de papéis sociais. Para ele, lugar de mulher não é no mundo científico, e sim em casa, submissa ao marido enquanto que o homem deve ser o herdeiro legítimo dos legados científicos e, referindo-se à instrução das moças, afirma que pudor, recato e ignorância sexual por parte da mulher são essenciais para sustentar a virilidade do marido.
 
Por outro lado, o peso das mulheres na constituição da República das Letras é testificado pela freqüência com a que o próprio Rousseau faz referência à gravitação das mulheres no mundo intelectual de seu tempo. Pesa sobre ele e o seu radicalismo, a suspeita de que a mulher haja se refugiado na vida privada, sob a forma de argumentações biologicistas, devido a desigualdade e a expulsão do espaço público.
Segundo o filósofo Rousseau a mulher é feita especialmente para agradar ao homem, ser-lhe útil, fazer-se amada e estimada; educar o homem quando jovem, cuidá-lo quando adulto, consolá-lo, fazer-lhe a vida agradável e doce. Sua missão na vida é fazer grandes homens e que, ser mulher, para ele, é ter uma condição esquizofrenizante, pela dicotomia entre ser santa e tentadora. E, ainda mais, que os deveres femininos de todas as épocas deveriam ser ensinados às meninas desde a mais tenra idade.
Essa foi uma forma de educação da mulher que perdurou por muito tempo e em diferentes sociedades.
 
O pensamento pedagógico e filosófico de Rousseau prega a liberdade masculina e a sujeição feminina. Rousseau aconselha incentivar nos meninos a livre iniciativa e a espontaneidade e insiste na contínua repressão dos impulsos das meninas para acostumá-las à obediência e às tarefas do âmbito doméstico.
 
Na afirmação filosófica de Rousseau, a mulher mantém-se perpetuamente na infância; ela é incapaz de ver tudo o que lhe é exterior ao mundo fechado da domesticidade que a natureza lhe legou, e daí resulta que ela não pode praticar as ciências exatas.
 
Rousseau vê a mulher como destinada ao casamento e à maternidade mas, apesar de suas convicções misóginas, não conseguia desejar uma mulher
escravizada.
 
Acredita Rousseau que o homem depende da mulher através somente do desejo, enquanto que a mulher depende do homem tanto por seus desejos quanto por suas necessidades de forma geral e afirma: “subsistiríamos melhor sem elas do que elas sem nós”. O filósofo justifica com clareza uma educação feminina não só diferente, mas oposta à educação dos homens.
 
O filósofo Emmanuel Kant, na sua perspectiva, mesmo sendo da mesma época do filósofo Rousseau e, demonstrando ter aprendido algo com Comenius,  acredita que “a mulher compreende o que quer que seja por meio de sensações e que elas devem permanecer o mais próximo possível do comportamento do seu sexo”. Como é o conhecimento empírico que elege os belos pilares, então, o ensino frio e especulativo parece pouco contribuir para a instrução da mulher. Para Kant, a instrução mais apropriada para o gênero feminino depende de um instrutor talentoso, experiente e capaz de transmitir sentimentos. Na falta deste, a mulher não somente pode, mas deve educar-se por conta própria, já que desempenha tal função com admirável destreza.
 
Kant determina o conhecimento que a mulher deve ter ao afirmar: “a mulher não deve aprender nada de geometria; do princípio da razão suficiente ou das mônadas só saberá o indispensável para entender a graça das poesias humorísticas”. E especifica exatamente o campo restrito do aprendizado feminino: “O conteúdo da grande ciência da mulher é preferencialmente o humano, e no humano, o homem e sua filosofia não consiste em raciocinar, mas em sentir”. Do universo, igualmente, só precisam conhecer o necessário para tornar comovedor o espetáculo do céu numa noite bonita.
 
Kant diz que a natureza feminina é determinada através da categoria do belo. Para ele encontram-se no caráter espiritual os traços determinantes da mulher, visto que elas tendem a exprimir um forte sentimento inato por tudo que é portador de beleza.
 
O filósofo Kant pregava: “A uma mulher que tenha a cabeça entulhada de grego, ou que trave disputas profundas sobre mecânica, só pode mesmo faltar uma barba, pois com essa talvez consiga exprimir melhor o grau de profundidade a que aspira”.
 
O filósofo Schopenhauer diz que "O simples aspecto da mulher revela que não é destinada nem aos grandes trabalhos intelectuais nem aos grandes trabalhos materiais. Conservam-se a vida toda umas crianças grandes, uma espécie de intermediárias entre a criança e o homem. A natureza, recusando-lhes a força, deu-lhes a astúcia para lhes proteger a fraqueza: de onde resultam a instintiva velhacaria e a invencível tendência à simulação do sexo feminino" e mais, que "a mulher é um animal de cabelos longos e idéias curtas”. E continua o filósofo Schopenhauer: “A natureza deu à mulher para se defender apenas a dissimulação. Esta faculdade supre a força que o homem tira do vigor de seus músculos e de sua inteligência". E mais ainda, do filósofo:  “Mulher é raça de estatura meã, ombros estreitos, ancas largas e idéias curtas”.
 
Os Positivistas, assentados na teoria do filósofo  Comte, duzentos anos depois e seguindo restritivamente o pensamento de Comenius com relação a instrução da mulher, só admitiam a instrução feminina a fim de que a mulher pudesse bem desempenhar seu papel de mãe. A produção cultural objetiva das mulheres tinha por função atender aos interesses dos homens. Consideravam que a sociedade era formada apenas por homens, visto que a mulher em nada contribuía para a elevação da humanidade, já que estaria sempre “condenada à inferioridade pelas leis irrevogáveis da natureza”.
 
Em oposição aos seus contemporâneos socialistas utópicos que buscavam igualdade sexual, o filósofo Comte declarou que o único tipo de família que poderia servir como base para a sociedade se reduzia a “duas ordens de relação – isto é, a subordinação dos sexos que institui a família, e a ordem de relação das gerações que a mantém”. Reconheceu que as condições do casamento sempre permaneceriam hierárquicas já que o princípio fundamental da instituição casamento é a subordinação natural das mulheres. Ele enfatizou, ainda, que “a sociologia provará que a igualdade dos sexos é incompatível com toda existência social”, e mostrou que “cada sexo tem funções especiais e permanentes desempenhadas na economia natural da família humana”.
A diferença e a desigualdade sexual, na teoria do filósofo Comte sugere que ele se referia ao sexo masculino, mesmo quando parecia falar sobre “indivíduos” sem fazer referência ao gênero. Para ele “atividade especulativa espontânea” era a principal característica que separava “Homem” de “animais inferiores” e, por isso enfatizou a “inferioridade relativa da mulher”, como se a mulher fosse animal inferior, considerando isto como “trabalho mental”.
 
Johann Carl Friedrich Gauss (1777-1855) não foi filósofo nem pedagogo. Foi um famoso matemático, como Descartes, astrônomo e físico alemão. Era conhecido como o “príncipe dos matemáticos”. Muitos consideram Gauss o maior gênio da história da Matemática. Seu QI foi estimado em cerca de 240. Gauss nasceu num casebre em Braunschweig. Seu pai, severo e brutal, era jardineiro e pedreiro e tudo fez para impedir que seu filho desenvolvesse seu grande potencial. Não conseguiu. Gauss reconhece o valor das mulheres e lhes faz justiça quando, numa carta a Sophie Germain, referindo-se ao trabalho dela, escreveu: “Mas quando uma pessoa pertencente ao sexo do qual, de acordo com nossos costumes e preconceitos, é forçada a enfrentar infinitamente mais dificuldades do que os homens para familiarizar-se com essas pesquisas dificílimas, e consegue com êxito, penetrar nas partes mais obscuras delas, não obstante, se para isso tenha de superar todas as barreiras existentes, então essa pessoa tem necessariamente, a mais nobre coragem, os mais extraordinários talentos e uma genialidade superior.”
                    
Antonio Carlos Fernandes é advogado e pós-graduando em psicopedagogia social
 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  12/03/2008