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O ABRAÇO DA MORTA
(Micro conto).
Numa região montanhosa e erma, exatamente onde eu nasci, é uma
região nordestina, mas fica no inicio do nordeste há pouco mais
de 600 km. De vitória do Espírito Santo via BR. 101, portanto
inicio do Estado da Bahia, mais precisamente no extremo sul do
Estado, bem próximo a Porto Seguro.
Existe uma região onde de um lado da BR há uma montanha que se
divide em duas descendo um córrego no meio, do outro lado da BR
a mesma coisa, uma montanha dividida em duas com um córrego no
meio; esse lugar é nomeado como. Córrego dos dois irmãos.
Na margem direita da BR sentido ao Rio de Janeiro, ali morava
uma velhinha, cujo nome era Antonio, era uma senhorinha de muita
idade, e todos os moradores da região a conheciam, a respeitavam
muito; ela era descendente de escravos, a maioria das pessoas
ali havia nascidas pelas mãos dela, ela era uma parteira e era
chamada sempre que uma gestante estava entrando em trabalho de
parto, daí o respeito e consideração por essa anciã.
Quase todas as pessoas que ali habitavam, tomavam-lhe a benção;
exceto aquele que tinha quase a sua idade, que,
"Diga-se de passagem", eram poucos.
Ela morava numa casinha modesta coberta de palhas de coco de
catolé, ela tinha três filhas e quatro filhos, uma das suas
filhas morava em um "bordel", de uma vila perto dali, um dos
seus filhos, o mais velho era deficiente de uma perna, esse
andava com duas muletas, e detestava ser tratado como um
deficiente, até por que ele trabalhava duro para ganhar o seu
sustento; é incrível, mas é verdade, ele trabalhava como
serrador de tábuas dentro daqueles matagais, e gostava de tomar
umas "manguaças", quando "embriagado", gostava de arranjar
confusões.
Eu por minha vez ainda garoto, passava sempre pra lá e pra cá,
na frente da casa dessa senhora, e como todos ali, eu também
tomava a sua benção.
DONA Antonio tinha dez netos, quantia considerada pouca, para a
idade que ela tinha, esses netos vieram de duas filhas, eram
cinco netas e cinco netos; entre as mulheres havia duas lindas
moças, que eram os meus xodós; elas brincavam comigo e mostravam
muita amizade pela minha pessoa, porém um dia ainda garoto eu
tive que partir, as duas demonstraram muita tristeza com a minha
partida; eu também estava muito triste com aquela partida, até
por que, era a primeira vez que eu viajava para longe, e não
sabia se voltava a vê-las novamente, eu estava seguindo com
destino ao Rio de Janeiro para morar com a minha irmã mais
velha, e foi triste aquela despedida, até parece que eu estava
indo para a forca.
Embora mantivesse contato com elas por cartas, os anos se
passaram, eu nunca mais voltei ali.
Muitos anos depois, eu já adulto, fiquei sabendo que as minhas
duas amigas quase irmãs, haviam morrido; foi difícil assimilar,
só de pensar que eu não as veria jamais... A dona Antonia também
já não existia mais... Resolvi então fazer uma visita aquele
lugar, lugar que eu brinquei que eu aprendi a amar; lugar que eu
nasci.
Ao regressar a primeira coisa que fiz foi visitar a velha
casinha da anciã; lá estava a velha casinha... Com as portas e
janelas abertas, como se a convidar os amigos para uma visita, a
casinha estava sem cobertura, só as paredes estavam em pé; ao
visitar aquela casinha me veio um nó na garganta, e eu não
consegui conter o choro.
Fui me aproximando devagar, porém eu sentia que elas estavam
ali, para receber-me, mas eu sentia a presença física das três;
eu rodeei a casa, eu olhei canto por canto como a procura de
alguma coisa... Sem a resposta encontrar.
Mas eu ainda sentia a presença das três; sai da casinha e subi
numa rampa que ficava na frente da casa, olho para trás, e eis
que as vejo acenando para mim; estavam vestidas com as roupas
que eu conhecia, estavam muito alegres... Pois estiravam os
braços na minha direção, como se quisessem me abraçar.
Uma delas a mais nova seguiu na minha direção, eu não senti nem
uma espécie de medo... Era como se eu as visse com vida.
Por um momento pensei beliscar o meu corpo, para certificar que
não estava sonhando, pisquei varias vezes acreditando ser
miragem gerada pela saudade; mas era real... Elas estavam ali,
na minha frente.
A moça continuava seguindo na minha direção, caminhando com os
braços estendidos para me abraçar; eu ali parado sem esboçar
nenhuma reação; o seu rosto, os seus olhos, os seus cabelos...
Estavam tudo perfeito, e o seu sorriso era de alegria, era um
sorriso de saudade.
Ela chegou junto de mim... Enquanto a anciã e a outra ficavam a
olhar-me junto da casa; quando ela chegou junto a mim eu fiquei
sem saber o que fazer; eu não sabia se a abraçava... Eu temia
abraçar um corpo gelado, mas ao olhar naquele rosto tão terno,
eu me enchi de coragem e a abracei.
Aquele corpo não estava frio... Foi um abraço forte, quente e
gostoso... Foi um abraço cheio de saudade!
Antonio Hugo.
Publicação:
www.paralerepensar.com.br
- 12/06/2007


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