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Bafo
(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza
Como é que se diz a alguém ou para alguém,
que ela tem bafo? Existe uma fórmula mágica da qual possamos fazer uso sem
que a pessoa se ofenda, fique magoada ou se afaste do nosso convívio? É
possível dizer para um tio, para um primo, para um irmão, “nossa, esse seu
bafo está uma droga”. No geral, para qualquer um, seja nosso chegado ou
não, devemos comunicar ou tocar no bafo alertando que ele está com o
hálito fedendo? E para o melhor amigo? De que maneira ele encararia essa
observação? Levaria numa boa? Viraria a cara ou acolheria o conselho e
trataria de dar uma solução para o problema?
Vamos supor que fosse a namorada. Puts
grilo, a mulher que escolhemos para viver ao nosso bafo, digo, lado. Seria
admissível levar um papo aberto, tipo “meu amor, não me leve a mal, mas
tenho que lhe dizer uma coisa. Não é de hoje venho sentindo um bafo
estranho quando você me beija. A impressão que me vem a cabeça é que você
tropeçou e caiu de boca numa privada repleta de merda” Surgiria aqui uma
indagação: depois dessa observação pouco agradável, o relacionamento
seguiria em frente, numa boa, sem sofrer rupturas ou abafos, perdão,
abalos, por menor que fossem, em sua estrutura?
Diante desse quadro desolador - a questão é
exatamente essa, por acaso - haveria uma maneira de dar um simples toque
com pitadinhas de astúcia, usando um pequeno amaneiramento à sombra de
atenuação, ou de reserva dissimulada? De se chegar ao assunto sem criar
qualquer nesga de constrangimento para ambas as partes e, sobretudo, para
o que cutucou a onça com vara curta não se transformar, de um minuto para
outro, num tremendo sem elegância de galochas? Resumindo, como abordar o
bafo em seu habitat, sem afetar os brios ou melindrar? Existe um caminho
seguro, um atalho, uma brecha?
Se pararmos para analisar, chegaremos a
triste conclusão de que não existe nenhuma formula politicamente correta,
ou conhecida para se dar a conhecer, ao outro, do seu malfadado incômodo.
Por mais educado que tentarmos parecer, com certeza o dono do bafo ficará
pê da vida e obviamente poderá nos mandar para os quintos do inferno, com
bafo e tudo, ou para a puta que pariu. Menos mal, se o ofendido não
resolver, de roldão, meter a nossa querida mãezinha no meio sugerindo que
o desgranhento do bafo que sentimos surgiu oriundo das partes que ela não
fez a devida assepsia como deveria.
Na prática do dia-a-dia, tocar ou mencionar
no bafo de alguém é antes de qualquer coisa uma porrada nos colhões de
qualquer etiqueta conhecida. No entender de quem vive vigiando as maneiras
e os modos de conduta de comportamento dos seres humanos, o descuidado que
cair na besteira de praticar o deslize e apontar o bafo, passará a ser
visto como um elemento pedante, um ser nojento, e asqueroso. Em outras
palavras, detonar um infeliz em decorrência de um simples bafo, seja ele
produzido por hálito não compatível, cebola, bebidas alcoólicas, dentes
podres, língua suja, não importa, o delator, incontinente será visto e
rotulado como um monstro desalmado, ainda que o bafo ultrapasse os limites
do ponderável.
É bom lembrar que há bafos e bafos, ou
seja, existem pessoas que não bebem, e carregam o bafo. Há pessoas que
comem bifes acebolados e não detém o bafo. Há, ainda, pessoas que não
cuidam dos dentes, não lavam a boca, não escovam a língua, possuem os
dentes estragados e o bafo sequer ousa aflorar. Em paralelo, há os que se
cuidam com acuidade e esmero e o bafo não dá um minuto de trégua. Muito
comum, entre casais, logo ao levantar, na troca de um beijo romântico, o
bafo se fazer presente. Nada pior para tirar a tesão, mandar a pica dura
para o completo estado letárgico de repousar em cima do saco, que um bafo
de bombordo. De estibordo, nem é bom mencionar. De través... Esse é como
uma agulhada de jeito, no coração, dada por uma enfermeira possessa e sem
bafo.
O bafo é como o cecê. Cola na boca como o
suor no sovaco. Agarra na pele, como a pulga no cachorro, como a inhaca
nas axilas, como a linha nos fundilhos da agulha. O bafo é uma espécie de
dor de cabeça às avessas, ataca a boca da criatura geralmente, fazendo
doer o nariz e os ouvidos dos que estão próximos. O bafo é ainda uma
catinga aditivada pela falta de cuidados com a higiene bucal. Mormente vem
a tona de modo inesperado, deixando o indivíduo que recebe os odores na
fuça, com a idéia de que o cu daquele que o expeliu subiu rasgando pela
garganta, e, sem saída, achou de explodir no primeiro focinho que
encontrou pela frente. O bafo é como se fosse uma forma de vingança da
pressão sofrida pelo estômago, em decorrência da centrifugação contínua de
todas as coisas ingeridas. É, em linhas gerais, um peido desgarrado que se
desvinculou das entranhas mais profundas pegando um caminho errado.
Segundo especialistas, vários são os tipos
de bafos. Eis alguns: a) o popular, aquele bafo propriamente falando, que
se faz sentir logo que a pessoa abre a boca; b) ar exalado dos pulmões; c)
o bafo de boca popularmente alcunhado de bafo de onça, causado por
ingerência de bebidas ou outros licores com alto teor alcoólico; d)
halitose, ou bafo despistado, produzido por cigarros, chicletes, balas de
hortelã e outros artifícios; e) bafo do Zé pretinho, oriundo do café; f)
bafo de burro fujão, o que a amante deixa na saliva do marido da outra
quando vai com ele para o motel; g) bafo fantasma, a gente sabe que
existe, está lá, mas não se consegue sentir; h) bafo com cheiro restrito.
Nesse, o elemento “bebe todas” e, depois, usa uma série de procedimentos
rudimentares com a finalidade de despistar a mulher antes de chegar em
casa; i) arroto, considerado o pior deles. É como se a bunda do sujeito
estivesse com o orifício agarrado aos lábios.
De qualquer forma, o bafo, em todos seus
estágios e conseqüências, aqui incluindo a bafagem que sai dos pulmões,
não importa. Seja qual for, incomoda, constrange, consterna, abate,
desalenta, violenta, coage, viola, desabona, comprime, imprime, reprime. O
melhor que se pode fazer nesses casos é fugir de quem os tem para dar e
vender. Na hora agá, seja para encontros ou não, a melhor saída é dar uma
desculpa estratégica ou inventar na hora uma esfarrapada. Antes ficar fora
dos olhos da criatura, que se tornar, para ela, numa inconveniência
descomedida. Mencionar, pois, a fetidez, jamais.
SOBRE O TEXTO: BAFO - Publicado na
ANTOLOGIA “NOVOS CRONISTAS 2008” ORGANIZADA PELA EDITORA – TABA
CULTURAL - RIO DE JANEIRO. O Texto acima está inserido nas páginas
11/15.
SOBRE O AUTOR: Aparecido Raimundo de Souza
é escritor e jornalista.
Publicação:
www.paralerepensar.com.br -
17/07/08
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