A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

CADERNO DE SEGREDOS

 

(Para Fifi, com carinho especial)

Saudade: dor muito grande que alimenta sempre as raias da insensatez.

Lembrança: coisa complicada que deixa no coração um vazio imensurável.

Angústia: saber  que a garota que ainda a pouco estava ao nosso lado não mais retornará ao convívio do dia-a-dia.

Preocupação: pensarmos nos filhos que estão lá fora e ainda não chegaram para dar-nos um beijo de boa noite antes de irem  deitar.

Indecisão: não discernirmos o momento exato de entregar o coração à alguém com medo de sofrermos um bocadinho, depois.

Certeza: que a morte é traiçoeira e um dia baterá a nossa porta, não usando a campainha para anunciar sua presença.

Intuição: acreditarmos que o dia seguinte será belo e repleto de momentos de felicidade.

Pressentimento: abortarmos uma viagem, de ultima hora, antes de colocarmos os pés fora de casa, desfazermos as malas e tomarmos uma taça de champanhe para comemorar a vitória de continuarmos com vida.

Vergonha: não termos coragem suficiente de olhar no espelho e nos flagrar com os olhos cheios de lágrimas  sendo derramadas por alguém que amávamos do fundo do coração.

Ansiedade: pensarmos no amanhã como se fosse hoje, e no hoje, como se representasse  o ultimo dia  de vida útil e tivéssemos que realizar planos de ultima hora.

Interesse: pelo boletim escolar das crianças, embora sabendo, de antemão que não virão recheados de notas boas como seria o ideal para agradar nossa insatisfação.

Sentimento: olharmos para um mendigo, no meio da rua e nos compadecermos do seu estado de miserabilidade, nos sentirmos pequeno, igual ou pior que a criatura  e não  nos auto compadecermos de nós mesmo.

Raiva: descobrirmos que uma criança morreu, abandonada, logo  ali, na esquina, com fome, com sede e pior, sem guarida, quando alguma coisa poderia ter sido feita em seu beneficio.

Tristeza: olharmos para dentro de nossa alma e não encontrarmos absolutamente nada além de um vazio negro e sinistro profanando a aura do anjo de guarda ou da  nossa estrela maior.

Felicidade: estarmos em paz com todas as criaturas e abraçarmos nossos semelhantes no momento exato em que eles precisarem de uma palavra amiga e de conforto espiritual.

Amizade: mantermos um elo profundo com as pessoas e acreditar que nada, nem ninguém poderá romper esse cordão, ainda que os reveses mais fortes da  sorte  ingrata se sobreponham às nossas vontades.

Culpa: discernirmos, com sabedoria, o momento exato em que erramos e magoamos profundamente à alguém; pedirmos perdão a essa criatura  com humildade e depois seguirmos adiante, de cabeça erguida e não nos sentirmos menosprezados nem pequenos demais pela grandeza do gesto.

Lucidez: defrontar-nos com uma estrada longa e escura, saber exatamente onde  pisarmos sem receio do que poderá vir logo adiante, ao virarmos a primeira curva do caminho.

Razão: sentimento que as vezes ocasiona um curto circuito total  deixando a gente com cara de otário e mais perdido que cego em tiroteio.

Vontade: vencer todos os medos que nos aprisionam, saltando, um após outro, os obstáculos, sem carecermos derrubar quem está vindo logo atrás.

Paixão: é o doar-nos intensamente, sem  receio de entregar o espírito, voarmos alto, perder-nos por espaços tridimensionais e saber, contudo, o momento exato de abrirmos os olhos e regressar à realidade.

Amor:  é vivermos constantemente uma vida de ilusões sem deixar que o sonho escape por entre os dedos das nossas mãos, ou simplesmente termine com final previsível. É sentirmos o coração batendo forte, acelerado, descompassado, inquieto, como se pretendesse, na verdade, explodir em mil pedaços, dentro do corpo, tal como uma bomba possante, dessas  que ao ser detonada fizesse a pessoa amada virar toneladas de fragmentos dentro do peito e, finalmente, se tivesse de ser reconstruída, ficasse presa, acorrentada dentro de um pequeno reino encantado do qual ninguém tivesse acesso  e só nós soubéssemos onde estaria escondida a chave de acesso à entrada principal.