A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

COMO ABRIR E FECHAR OS OLHOS

 

   Luana, minha outra filha, vem com o caderno da escola e me pede que a ajude a fazer o dever de casa. Com os pensamentos num turbilhão de problemas, digo a ela  que depois do jantar veremos o que se dá para fazer. Na verdade, estou apenas ganhando tempo. Fugindo do problema. Adiando uma coisa simples que em poucos minutos, se tivesse boa vontade e um pouco de complacência conseguiria  resolver num abrir e fechar de olhos.

Verdade que o dia de hoje, no  trabalho foi um verdadeiro inferno. Um saco de gatos. Um coco. Sem contar nos leões ferozes para serem  mortos a cada milésimo de segundo dentro do minuto seguinte. E a pobrezinha da minha filha, coitadinha, humilde, cabisbaixa, com o caderninho nas mãos implorando uma pontinha de atenção, um afago, uma troca de carinho. E eu, sem olhar para ela, pensando nas encrencas do escritório, quando deveria ter deixado tudo para trás. Que o mundo, lá fora, se dane. Que pai sou, afinal, que não consegue desligar a cabeça dos afazeres do dia-a-dia e reservar alguns instantes para uma criança de rostinho carente, ávida por uma palavra de conforto, sequiosa por um tantinho assim de atenção? Que pai sou eu, que não arranja tempo para pegar a filha no colo, dar-lhe um abraço, um beijo no rosto e pior, que não tem força suficiente no peito para dizer: minha querida: papai te ama. Que bom que você está aqui, com saúde, com os braços e as pernas perfeitas. Podendo desfrutar de tudo, da natureza, da beleza do sol, do vento que sopra seus cabelos.  Que tudo o mais se exploda. Primeiro deve vir  a  minha família. Acho que é dessa forma que todos os pais deveriam pensar. Não só pensar, pensar  e fazer.

Devemos lembrar, outrossim,  que o amanhã poderá ser tarde, tarde demais. O tempo não para, não retroage, não dá folga, segue em frente, aconteça o que acontecer. É inexorável. Não podemos nos dar ao luxo de jogar no lixo, ou ao leu, a oportunidade de fazer uma pequena e desprotegida criança ser  um pouco mais feliz...

E a pequena Luana só queria, realmente, que eu pegasse o caderno de exercícios, recortasse algumas frutas  de  velhos jornais  e em seguida escrevesse o nome dessas frutas. Depois, que fizesse o mesmo com  algumas sementes completando uma espécie de cruzadinha: uva, laranja, mamão, sementes grandes, sementes pequenas, sementes claras e  sementes escuras. Tudo tão fácil. Simples, como o abrir e  fechar dos olhos.