A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA


Conversa de cavalos
 
(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.
 
No enorme e luxuoso salão da estrebaria daquele hotel exclusivo para cavalos de fino trato, onde foram deixados por seus donos para banho, troca de ferraduras e embelezamento dos pêlos, enquanto esperavam a vez para regressarem a suas fazendas, dois vistosos quadrúpedes entabulam conversa:
- Desculpe. Ia passando. Conheço o prezado de algum lugar?
- Talvez...
- Como é seu nome?
- Ali.
- Ali onde?
- Você entendeu errado. Eu sou Ali de Aculá. E o amigo?
Antes de responder o outro fez uma pose deveras engraçada:
- Bucéfalo VIII. Em romano, esse oitavo. Às suas ordens.
Risos.
- Qual a graça?
- Acaso trabalhou para Alexandre Magno?
- Não tive o prazer. Meu avô, Bucéfalo V deu mais sorte. Chegou a ser o animal predileto dele.
Os dois se voltaram para um terceiro cavalo que, afastado alguns metros, falava ao celular. De vez em quando batia no chão com a pata esquerda, cheio de satisfação.
- E aquele quem é?
- Fale baixo – sussurrou - Ali. Estamos diante de Rocinonte.
- Quem é Rocinonte? Nunca ouvi falar dele, pelo menos até agora. Para mim é um quadrúpede igual ou pior que nós. Olhe para o jeitão dele. Não vejo nada demais nesse sujeitinho. Ao contrário, parece posudo... Meio cheguei, sou o tal...
- Trabalha para Dom Quixote.
- O presidente?
- Seu besta, o presidente é o Mula. Rocinonte é funcionário de Dom Quixote. Nada a ver com o cachaceiro.
- Confesso que a ferradura não caiu.
- Bucéfalo, você precisa assistir mais televisão. Ler jornais. Pra ficar inteirado. Cavalo burro, hoje em dia, com toda essa tecnologia que anda por ai, só serve para puxar carroças. Lembra de Janto?
- Não.
- Era o cavalo de Aquiles. Inteligente, nunca vi igual. Acredita que o simpático chegou a prever a morte do dono?
- Tá. Chega de sermão. Não quero saber de Janto, nem se ele foi almoçado ou jantado. Quem é o figuraço ali?
- O braço direito de Dom Quixote de La mancha.
- Ah, tô ligado!
- Sabe quem é Dom Quixote, agora?
- Sinceramente? Não!
Ali se preparava para retrucar alguma coisa quando um elegantíssimo manga larga marchador pede licença, interrompendo o bate-papo:
- Perdão, ilustres companheiros: meu nome é Pégaso.
Ali de Aculá se virou para o que acabara de chegar e fez um aceno respeitoso com a cabeça.
- Bem vindo. Em que podemos ajudá-lo?
- Desculpe. Estava ouvindo a conversa de vocês e não pude deixar de perceber que o amigo é bastante esclarecido.
- Faço o possível. Mas espere um minuto: já o vi por aqui, ou em algum outro lugar?
- É possível, Sou muito popular por estas redondezas.
Ali relinchou e sacudiu o rabo para espantar uma mosca chata.
- Lembrei. Claro, como poderia me esquecer?
Bucéfalo, alheio a tudo, o queixo caído, só observava. Não entendia nada de nada do diálogo que seu amigo Ali travava.
- Bucéfalo, meu prezado, este é Pégaso. O Alado da Mitologia Grega.
Pégaso se abriu num sorriso, ao tempo que estendia a pata para Bucéfalo.
- Em pessoa. Mil escusas. Em pêlo e presença. Pertenço, com muita honra a terceira linhagem de excelentes animais de sangue nobre.
Ali também estendeu a pata:
- Bem, amigo Pégaso, eu sou Ali de Aculá. – Bem vindo à roda.
- Então você é o famoso Bucéfalo?
- Na verdade, Bucéfalo VIII. Em romano.
Pégaso relinchou um sorriso maroto:
- Claro, senão ficaria V3.
- Como? V o que?
- Deixa pra lá. A propósito: Bucéfalo, Bucéfalo... Espere um instante. Meu avô conheceu o seu.
- É?
- Aliás, foram grandes amigos. Para ter uma idéia, pastaram juntos, chegaram a puxar carroças juntos e dividirem a mesma baia. Uma vez, fiquei sabendo, chegaram a ser flagrados dentro de um paiol de milho.
Ali se interessou pela historia e propôs:
- Por que não nos conta esse fato em detalhes, amigo Pégaso?
- Será um enorme prazer, Ali. Ainda mais agora, que acabo de conhecer dois alazões tão agradáveis.
- E ele ainda está vivo Pégaso?
- Infelizmente partiu há anos. Contudo, deixou boas recordações à nossa família. E eu, ou melhor, a terceira geração, me orgulho de fazer parte dessa linhagem de cavalos de puro sangue.
- Ta legal. Mas e ai?
- Quem me contou foi o tio Pangaré Doidão. Bucéfalo - no caso o seu avô, Bucéfalo VI, e o meu, Pégaso I, de certa feita, foram acordados, de supetão, a poder de muitas porradas, por nossas avós.
- E o que eles faziam de errado?
- Seu pai e o meu estavam, como disse, amoitados num velho paiol de milho.
- Aprontando o quê?
- Dando um trato numa potranca que chegara de fora. Seu avô, Bucéfalo VI e, o meu, cansados de transarem com as éguas da fazenda, resolveram partir para cima da bela novata. Deu uma puta de uma merda, amigos. Encrenca das feias pra ninguém botar defeito. Seu avô, mais o meu, levaram tantos coices, que acabaram no hospital veterinário de um pacato vilarejo de nome Cavalaria.
- Credo-em-cruz! Quem diria...
- Então, pelo que entendi – observou Ali de Aculá - você vêm a ser a terceira linhagem da sua estirpe?
- Perfeito, amigo.  É o caso de nosso colega aqui, o Bucéfalo VIII.  
- Que tal comemorarmos esse encontro? Tem uma lanchonete aqui dentro que serve boa refeição de grama com folhas verdinhas, sem agrotóxico e água potável.
- Será que eles têm alfafa?
- Tudo o que imaginarem meus amigos. Tudo. Vale a pena conferir. Vamos nessa?
Ali de Aculá, Bucéfalo VIII e Pégaso III se puseram a caminho da lanchonete, onde fariam rápida refeição. Ao se colocarem em marcha, precisaram pedir licença a Rocinonte, que incansavelmente continuava a tagarelar no seu telefone celular.

*Aparecido Raimundo de Souza é escritor

Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 26/03/2008