Tenho
um amigo comum, O J. Cardoso, que impreterivelmente nos finais de semana não
deixa de beber a sua cachaça. Chova ou faça sol, haja algo ou não para
comemorar, lá está ele, fiel a sua companheira.
Outro
dia, ao socorrer um cidadão que fora atropelado no trânsito, fui parar,
quase as duas da madrugada, num pronto socorro desta cidade. Para surpresa
minha, quem não encontro na recepção, com a cara toda arrebentada
preenchendo uma ficha para ser atendido? Ele mesmo, o J. Cardoso. Entre
espantado e boquiaberto (ou mais boquiaberto e desesperado pelo fato de
ter me visto), perguntei-lhe, de chofre, o que havia acontecido. Meio
estonteado e titubeante, mais para lá do que para cá, o coitado explicou
com a voz meia rouca:
Foi
a pia. Se estou aqui, agora, neste estado lastimável que você está
presenciando, agradeço a ela. Unicamente a ela.
A
pia? Mas que pia?
Pelo
amor de Deus, Barbosinha. Você não sabe o que é uma pia?
Claro
que sei o que é uma pia. Mas que relação pode haver entre uma pia e
esseseu estado deplorável?
Vou
tentar explicar. Como sempre faço, depois do serviço, passo na birosca
do Aleijadinho. Tomo umas geladinhas com alguns amigos de copo para
calibrar o organismo debilitado. Depois de algumas boas rodadas, acabo de
chegar no lar doce lar. Entro direto para o banho, janto, vejo um pouco de
novela na televisão e então vou para um quartinho que tenho nos fundos.
Não sei se você sabe, mas eu construí um quartinho nos fundos lá de
casa. Na verdade, fiz uma puxadinha para a Narcisa, minha filha que vai
casar até o final deste ano. Lembra da Narcisa?
Cardoso,
quero saber da história da pia. Não enrola e conta logo.
Calma,
homem, eu chego lá. Como estava dizendo, me dirigi para o quartinho.
Sempre que resolvo “embriagar” os ossos, me tranco nesse aposento e
“meto bronca”. Bebo até o copo fazer bico e a garrafa pedir arrego.
Minha mulher, a Rita, que você já conhece, não aprova aidéia. Aliás, ela odeia quando bebo alguma coisa. Acredito que até
pretendia “tirar uma” e eu não estava muito afim. Não é todo dia
que você está com vontade de “dar no coro”, e esquentar aquelas
partes secretas, não é mesmo? Conclusão: a filha da mãe da mulher me
pegou de porrada e a coisa acabou nesse quadro que o companheiro está
vendo com os próprios olhos.
Mas
espera lá. Você não falou que não foi a Ritinha?
De
fato.
Então?
As
“cacetadas” que a Ritinha me deu, você sabe, não fizeram nem
cosquinha. De mais a mais, tapinhas de amor não doem. A culpa realmente
foi da pia.
Está
bem, quero explicação. Sou todo ouvidos.
Vou
procurar ser o mais claro possível. Na verdade, tenho sempre em casa, dez
ou doze garrafas de aguardente da “boa”. Coisa de primeira. Acontece
que a Ritinha bateu na porta do quartinho e me chamou para ir deitar.
Iniciamos uma pequena discussão. Entre tapas e beijos ela resolveu medir
as forças eavançou,
resolutapara cima de mim, de cabo de vassoura e me obrigou a jogar as
garrafas fora. Imagine...
Você
não obedeceu, não é mesmo?
Nem
poderia. Como já estavagrogue,
ou para lá de Baguidá, peguei a primeira garrafa, bebi mais um copo e
joguei o resto na pia...
Pegueia segunda garrafa, bebi outro copo e joguei, também, o que havia
sobrado dela, na pia. Parti para a terceira garrafa e aí fiz o seguinte:
mandei para dentro o resto da água que os passarinhos não bebem e joguei
o copo na pia. Voou vidro para tudo quanto é lado. Com a quarta garrafa não
foi diferente. Bebi na pia e joguei o resto no copo...
-Como é que é?
Você
já vai entender: na quinta garrafa, eu peguei uma tigela cheia de
tira-gosto, joguei a rolha nos cornos da Ritinha e ingeri, de um só gole,
toda a bagaceira. Depois passei a mão na sexta garrafa, corri para a pia,
bebi seu conteúdo sem ao menos respirar.Ato contínuo, joguei o copo no resto. A sétima, meu camarada,
peguei no resto, enfiei o dedo nos olhos da nossa empregada que veio
correndo quando se apercebeu do bafafá comendo solto e, antes dela me
xingar todinho, bebi a pia.
Bebeu
a pia?
Na
seguinte, nem lhe conto! Que loucura! Passei a mão no copo, arranquei a
pia do lugar e a arremessei com tudo contra a nona garrafa. O troço caiu
no chão e explodiu como uma bomba dessas caseiras. Por derradeiro, joguei
a décima garrafa no copo, tropecei na décima primeira e me atirei,
incontinente (enquanto segurava a décima segunda garrafa debaixo dos braços),
de cabeça, na pia...