A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

FOI TUDO CULPA DA PIA

 

   Tenho um amigo comum, O J. Cardoso, que impreterivelmente nos finais de semana não deixa de beber a sua cachaça. Chova ou faça sol, haja algo ou não para comemorar, lá está ele, fiel a sua companheira.

Outro dia, ao socorrer um cidadão que fora atropelado no trânsito, fui parar, quase as duas da madrugada, num pronto socorro desta cidade. Para surpresa minha, quem não encontro na recepção, com a cara toda arrebentada preenchendo uma ficha para ser atendido? Ele mesmo, o J. Cardoso. Entre espantado e boquiaberto (ou mais boquiaberto e desesperado pelo fato de ter me visto), perguntei-lhe, de chofre, o que havia acontecido. Meio estonteado e titubeante, mais para lá do que para cá, o coitado explicou com a voz meia rouca:

Foi a pia. Se estou aqui, agora, neste estado lastimável que você está presenciando, agradeço a ela. Unicamente a ela.

A pia? Mas que pia?

Pelo amor de Deus, Barbosinha. Você não sabe o que é uma pia?

Claro que sei o que é uma pia. Mas que relação pode haver entre uma pia e esse  seu estado deplorável?

Vou tentar explicar. Como sempre faço, depois do serviço, passo na birosca do Aleijadinho. Tomo umas geladinhas com alguns amigos de copo para calibrar o organismo debilitado. Depois de algumas boas rodadas, acabo de chegar no lar doce lar. Entro direto para o banho, janto, vejo um pouco de novela na televisão e então vou para um quartinho que tenho nos fundos. Não sei se você sabe, mas eu construí um quartinho nos fundos lá de casa. Na verdade, fiz uma puxadinha para a Narcisa, minha filha que vai casar até o final deste ano. Lembra da Narcisa?

Cardoso, quero saber da história da pia. Não enrola e conta logo.

Calma, homem, eu chego lá. Como estava dizendo, me dirigi para o quartinho. Sempre que resolvo “embriagar” os ossos, me tranco nesse aposento e “meto bronca”. Bebo até o copo fazer bico e a garrafa pedir arrego. Minha mulher, a Rita, que você já conhece, não aprova a  idéia. Aliás, ela odeia quando bebo alguma coisa. Acredito que até pretendia “tirar uma” e eu não estava muito afim. Não é todo dia que você está com vontade de “dar no coro”, e esquentar aquelas partes secretas, não é mesmo? Conclusão: a filha da mãe da mulher me pegou de porrada e a coisa acabou nesse quadro que o companheiro está vendo com os próprios olhos.

Mas espera lá. Você não falou que não foi a Ritinha?

De fato.

Então?

As “cacetadas” que a Ritinha me deu, você sabe, não fizeram nem cosquinha. De mais a mais, tapinhas de amor não doem. A culpa realmente foi da pia.

Está bem, quero explicação. Sou todo ouvidos.

Vou procurar ser o mais claro possível. Na verdade, tenho sempre em casa, dez ou doze garrafas de aguardente da “boa”. Coisa de primeira. Acontece que a Ritinha bateu na porta do quartinho e me chamou para ir deitar. Iniciamos uma pequena discussão. Entre tapas e beijos ela resolveu medir as forças e  avançou, resoluta  para cima de mim, de cabo de vassoura e me obrigou a jogar as garrafas fora. Imagine...

Você não obedeceu, não é mesmo?

Nem poderia. Como já estava  grogue, ou para lá de Baguidá, peguei a primeira garrafa, bebi mais um copo e joguei o resto na pia...

Peguei  a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei, também, o que havia sobrado dela, na pia. Parti para a terceira garrafa e aí fiz o seguinte: mandei para dentro o resto da água que os passarinhos não bebem e joguei o copo na pia. Voou vidro para tudo quanto é lado. Com a quarta garrafa não foi diferente. Bebi na pia e joguei o resto no copo...

-    Como é que é?

Você já vai entender: na quinta garrafa, eu peguei uma tigela cheia de tira-gosto, joguei a rolha nos cornos da Ritinha e ingeri, de um só gole, toda a bagaceira. Depois passei a mão na sexta garrafa, corri para a pia, bebi seu conteúdo sem ao menos respirar.  Ato contínuo, joguei o copo no resto. A sétima, meu camarada, peguei no resto, enfiei o dedo nos olhos da nossa empregada que veio correndo quando se apercebeu do bafafá comendo solto e, antes dela me xingar todinho, bebi a pia.

Bebeu a pia?

Na seguinte, nem lhe conto! Que loucura! Passei a mão no copo, arranquei a pia do lugar e a arremessei com tudo contra a nona garrafa. O troço caiu no chão e explodiu como uma bomba dessas caseiras. Por derradeiro, joguei a décima garrafa no copo, tropecei na décima primeira e me atirei, incontinente (enquanto segurava a décima segunda garrafa debaixo dos braços), de cabeça, na pia...