Sempre
que vou a casa de mamãe passar um final desemana acabo voltando chateado e triste. Dona Eucalipitina está
com setenta e tantos anos, tem problemas de osteoporose, perdeu
recentemente o companheiro de trinta e nove anos (meu padrasto Pilombeta,
que morreu de repente, como um passarinho: não deu um pio, não perturbou
ninguém, simplesmente sentou-se no sofá da sala e bateu com as doze).
Pois bem, olhando para o rosto dela, percebe-se claramente o peso da
idade, os passos cansados, a voz sem o viço de antigamente, o sorriso
apagado, pensamentos distantes, essas coisas que costumam chegar com a
idade.
Minha
senhora vive num apartamento de dois quartos com a ex-namorada (primeira
mulher do meu irmão, o Eparminondas e o neto, Eparminondazinho). Quanto a
este, acomodou-se com as poucas tralhas que possui na despensa destinada a
empregada, - onde também são guardados os mantimentos e provisões
alimentares de uso doméstico - com uma namorada nova (feia que chega a
dar tremedeira nas pernas).
Que Deus perdoe minha língua ferina, mas a
desditosaassemelha-sea umtribufu
mal-ajambrado. Coitada da moça, não lava um copo, não guarda um talher,
não sabe fritar um ovo, ou cozinhar uma panela de arroz. Acho que nem as
partes tidas como básicas a infeliz traz no devido asseio, (ao menos para
não despertar os buracos irrequietos do nariz paraum mau cheiro repentino). Serve, a dita, tão somente para os
“apertos” da carne e, assim mesmo, o cara para arrostar, precisa, por
primeiro, arrotar com vontade, por segundo, estar “afinzão”, e por
terceiro,considerar-se
atrasado em demasia com as coisas do sexo. A rapariga é tão desengonçada
quanto desagradável, anti-social e insuportável. Lembra um imenso pedaço
de rocha bruta descida do alto de um morro em dia de forte temporal, tipo
dessas pedras assassinas que rolam barranco abaixo destruindo tudo o que
encontram à frente. Parece, um botijão de gás amassado numa das
extremidades, pronto para explodir a qualquer momento, demolindo,
arrombando, estraçalhando e o pior, mandando pelos ares, como um vulcão,
os fluidos cômicos que cada um carrega dentro de si, uns com menos,
outros com mais intensidade.
Como
não bastasse, o nome da desgraçada provoca arrepios que fazem eriçar até
os cabelos dos dentes mais canibais. Nem sei se osdentes temalgum
tipo de cabelo, ou se são canibais, ou caninos, afinal de contas, não
sou dentista. Caso alguémvenha
ademonstrar interesse pelo
assunto em questão, que procure urgentemente um ginecologista. Falava do
nome da incauta: Hemengarda Roberosa de Costas, perdão, da Costa.
Abordo
esses particulares, unicamente para explicar, às pessoas, os momentos difíceis
que a autora dos meus dias vem atravessando. Nada contra a companheira do
meu irmão. Menos, ainda, com a anterior, a Estepitomicina, mãe do
Eparminondazinho. Essa também não fica atrás, é uma mosca morta.
Carrega no esqueleto todos os defeitos da segunda e mais alguns
particulares que nem vale a pena enumerar. O Eparminondas, portanto, que
se afumente comseus rabos de
saia e faça deles bom proveito.
O
que corta meu coração a níveis de deixá-lo em fiaposé o sujeito não ajudar em nada e ainda por cima deixar um
amontoado de cargas pesadas nos braços frágeis de uma criatura quedeveria estar curtindo a velhice numa boa, com tranqüilidade, paz
de espírito, muita calma, animoe
disposiçãopara continuar a lutar com garrae a pelejar com perseverançaaté ver chegar a hora derradeira. Mas não é isso que o pulha
faz. Arranja, no contrafluxo, um trambolho e o traz para perturbar a vida,
e o sossego de dona Eucalipitina.
Mamãe,
ao invés decuidar de neto,
(cá entre nós, o garotinho é pegajoso e extremamente chato, - consegue
entrar e sair de casa passando por debaixo da porta - sem ficar entalado)
ou servir de empregadinha para as duas desmioladas, que parecem tertitica de galinha (nada contra as pobrezinhas), deveria, sim, meter
os pés na estrada e viajar, rever parentes, amanhecer, hoje aqui, amanhã
ali e depois acolá. Leve-se em conta, o que recebe, a título deaposentadoria, pelo tempo que trabalhou,garante lhe pleno e sobejodireito de viver sem nenhumadificuldade.
Entretanto,
os incomodados não se mancam, nem mudam os ares. Ao contrário, a cada
dia criam situações desconfortáveis e embaraçosas. O Eparminondas, não
bastasse o rosário de tendências sinistras que trazno sangue, cultiva, ainda, o de fumar um baseado e de viajar no
tempo e no espaçoque esse
tipo de divertimento traz a quem dele se utiliza. E o tresloucado o faz em
casa, na maior cara de pau, com todas as janelas fechadas. Depois de
saciar o âmago conturbado a Hemengarda acende um desses palitos de
incenso com flagrância de lavanda misturada com alfazema,
(particularmente o troço tem tudo a ver com a erva maldita), e impregna
todos os cômodos do apartamento.Dona Eucalipitina, coitada, sem saída, acuada, amordaçada e
até temerosa de chamar a atenção do imberbe,vê-seobrigada a
inalar esses odores putrefatose
suportar a cruz quefoi-lheimposta pelos reveses da sorte. Godofredo e Atlântico, os
outros rebentos nascidos da mesma barriga de dona Eucalipitina, estão a
par dos acontecimentos, mas acomodaram a bunda em suas respectivas
cadeirase nada fazem para
mudar o quadro caótico em que a mesma se acha atolada.
Eu,
Tucunduva, o mais velho dos quatro, entendo que mamãe tem verdadeira
adoração pelo neto, o Eparminondazinho. Não estou insinuando quetirem, dela, a criança, ao contrario,(peçoque arranquem
do seu caminho, enquanto ainda existe um certo tempo útil de existência),
as pedrase osempecilhosqueestão provocando topadase
tropeções desnecessários. Afinal de contas, essa Senhora, a(Nossa Senhora) tem o direito líquido e certode ser um bocadinhofeliz.Esse direito, meus caríssimos e amados irmãos, não lhe pode ser
negado, justamenteagora.
Entenderam a mensagem ou precisarei começar tudo de novo?