A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

DOIS OBJETOS COM O MESMO PROPÓSITO

 

   Tinha, em casa, guardada a sete chaves, a primeira camisinha que comprei para transar com uma vadia na antiga zona de meretrício da Av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, quando morava no Edifício Balança Mas Não Cai, em frente a Central do Brasil. Estava perfeita, cheirando a pêssego, novinha em folha. Tentei vendê-la a alguns amigos chegados, mas não obtive êxito, ao contrário, chamaram-me de sádico e de maluco.

Ofereci em farmácias da vizinhança, pela metade do preço de uma zerada, todavia, os atendentes aconselharam-me que pusesse fora, porque depois de usada, a melhor coisa a fazer seria jogar no vaso sanitário e dar uma boa descarga em cima, ou no lixo, e se fosse no lixo, embrulhada num recipiente bem lacrado para evitar que alguém contaminasse as mãos num possível manuseio com algum resíduo de esperma que por ventura tivesse ficado agarrado no latéx.

Não dei o assunto por encerrado. Nem poderia. Foi a primeira camisinha, e a primeira camisinha, porra, é igual ao sutiã, a gente não esquece facilmente, principalmente porque deixa boas recordações, não só do ato sexual em si, como da jovem escolhida (ainda que puta), para dar a trepadinha memorável de adolescente mal desabrochado para as coisas boas da vida. O sexo! Se não falha a memória, gozei às portas do paraíso por umas quatro vezes seguidas. Um barato! Lembro ter deixado a moça com as pernas trêmulas e os olhos arregalados de espanto, talvez de raiva incontida, ou  desgosto, isso nunca saberei ao certo.

Por esse motivo parti para a luta. Anunciei num classificado de jornal. No sábado, recebi mais de uma dezena de telefonemas engraçados e cômicos – a maioria, de rapazes alegres, perguntando se o trocinho em questão iria acompanhado de alguma coisa a mais. Quis saber o que seria esse “a mais”  e os simpatizantes e afins praticamente deram a mesma e invariável resposta: você não sabe? É o recheio! Aquele nervo durinho, mas gostoso, que faz a gente bater com a parte traseira lá na lua...

No domingo o número de interessados praticamente duplicou e teve poucas variantes. Quase dez da noite liga um sujeito de voz melosa dizendo que trabalhava numa casa noturna como transformista. Bastante educado pelo jeito concluí logo tratar-se de um intelectual de carteirinha e sindicato da categoria. Inquiriu-me se já havia lido “O Drama do efêmero” de Silviano Santiago, “Nós os mortos, de Denilson Lopes e citou outros autores como Louis-Jean Calvet e Fernando Gabeira. Enfim, concluí, um veado bicha cem por cento entendido nos assuntos relacionados aqueles que compartilham da famosa queima do anel, muito difundida pelo cantor Falcão em uma de suas musicas de maior sucesso.

Na segunda-feira, devido a repercussão alcançada, resolvi repetir o anuncio, acrescentando, entretanto, que não só venderia, como também leiloaria a quem chegasse com a melhor oferta. Na terça-feira o telefone não deu sinais de vida. Na quinta, à tarde, ligou um cidadão que logo de cara, pediu endereço completo e ponto de referência. Pensei com meus botões: vendi.  Por volta de cinco e quinze recebi em meu apartamento um sujeito alto e forte, de óculos escuro e bolsa polchete a tiracolo. Era um policial civil em carne e osso disfarçado de comprador. Trouxe-me uma intimação para prestar esclarecimentos, dia seguinte, às quinze horas, na delegacia que ficava atrás do Ministério da Guerra, sob pena,  caso não comparecesse, ser conduzido coersitivamente.

O que causou espanto e deixou-me boquiaberto é que o delegado queria autuar-me em flagrante de qualquer jeito. Ora, bolas, disse a ele em minha defesa feita às pressas, que a casa inglesa Cooper Owen vinha tentando leiloar, desde fevereiro de 2002, uma caixinha ornamentada em que John Lennon guardava maconha. Ninguém, até onde tinha conhecimento, atreveu-se a dar o lance mínimo pedido: 25 mil libras, ou (40 mil dólares). A droga da caixinha era utilizada pelo ex-beatle para esconder a erva das empregadas que trabalhavam em sua mansão. O meu problema, um simples preservativo de latéx, não faria, em hipóteses nenhuma, mal a quem quer que fosse dele fazer uso. Não compartilhavam seringas e agulhas? Por quê não camisinhas de Vênus?

- Se ele pode,  Sr. Delegado – ou se a família dele abriu esse precedente para essa tal casa, porque não usar meu direito de leiloar um objeto insignificante, mas que no passado trouxe-me momentos de muita alegria, prazer  encantamento e satisfação pessoal?

Não teve conversa. O doutor confiscou a camisinha e ainda patrocinei uma “rodada” na pizzaria, no final do expediente, para toda a equipe, senão, dormia no xilindró.

Moral da história: para a caixinha de John não existiam restrições, porquê Lennon tinha nome, fama e dinheiro. E mesmo depois de enterrado, continuou deitando na ardente cama do sucesso. No meu caso, não, a  camisinha pertencia a um pé rapado que não tinha onde cair vivo, porque morto se cai em qualquer lugar. Neste mundo, valemos pelo peso que nosso bolso representa para a balança comercial que move a sociedade dos hipócritas e a hipocrisia da sociedade.