A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

ELE

            

   Tinha (apesar dos olhos meigos e serenos) um brilho diferente, um brilho que parecia cegar a quem o fitasse por muito tempo. Naquele rosto bondoso, a vida se apresentava de forma bastante acentuada. Talvez fosse a sua personalidade marcante, seu modo de ser e de agir que faziam da sua presença um encanto envolvente e jamais sentido. A todos, como a mim, em particular, essa criatura cativou de imediato. Era como se a ternura tivesse saído de seu habitat natural e, naquele corpo repleto de mansidão houvesse feito  morada eterna.

Quando falava, usava no timbre da voz uma tranqüilidade inebriante, uma calma que envolvia e transmitia uma segurança ímpar vinda do céu. Só podia ser do céu. Seus gestos, educados e finos, encantavam o mais profundo de nossos corações.

Meu primeiro contato com ele num final de semana, bastou para lhe dedicar uma atenção maior.

Até então me considerava um sujeito vil e infame. Um cara mesquinho e perverso. Minha vida, até aquele instante, tinha sido escura, triste  e melancólica. Na verdade, eu passava por sérios embaraços e dificuldades. Meu caminho, a contar dos primeiros passos, vinha sofrendo funestos momentos de intranqüilidades e incertezas. O negror das nuvens da infelicidade parecia não querer se afastar de sobre a minha cabeça. Entretanto, algo mudou em mim, algo me transformou a partir daquele contato. Do meu primeiro contato com Ele. Senti um novo alento tomando conta da minha alma. Na verdade ela se desprendeu de uma carga muito pesada e enfadonha. Meu corpo, ficou leve. A cabeça parou de girar em torno de pensamentos difusos e os pés acertaram terra firme. Deixei de ser barco lutando contra a corrente forte. De repente, achei porto seguro onde atracar.

Quando aconteceu nosso primeiro encontro, eu estava deitado em minha cama, triste e solitário, os olhos fechados, pensando no amanhã que logo viria incerto e obscuro. Meus pais haviam saído e os meus outros irmãos brincavam no terreiro. Ele chegou, de mansinho, sem que eu percebesse de onde tinha saído, sem ao menos bater na porta  e disse que estava querendo falar comigo ha muito tempo. A princípio, fiquei cheio de medo, mas ao olhar para o seu rosto e o reconhecer, fui acalmando a tensão e o medo que estavam escondidos dentro de mim. Como nossa vida é engraçada: eu tinha um amigo fiel ao meu lado, cuidando de mim a todo momento, mas nunca havia me dado conta disso ou da sua presença. E Ele estava agora, ali, mais perto ainda e querendo trocar algumas palavras comigo...

Como, como Você, quero dizer, como o Senhor fez isso?

Não importa, meu filho. O que nos interessa é a sua situação. Fale-me da sua vida. Conte-me seus problemas. 

Procurei, então, falar das minhas questões mais prementes, das  necessidades que se avolumavam com o passar inexorável dos dias. Contei a Ele dos meus temores, dos meus sonhos não realizados, dos meus empreendimentos futuros.

Ele me ouviu atento, silencioso, me encarando bem dentro dos olhos vermelhos de tanto chorar angústias. Em nenhum momento sequer ousou me interromper. Quando finalmente terminei o rosário de malezas que me atormentavam, Ele me pediu que ficasse de joelhos e orasse. Obedeci. Fiquei de joelhos e orei. Ele também orou comigo. Depois me pediu calma, muita calma e desejou toda a paz do mundo para minha casa, para meus familiares e principalmente para meu coração.

Colocando as mãos em minha cabeça, fechou, por breves momentos os olhos e ficou algum tempo em profundo silêncio. Findo esse prazo tomou minhas mãos e rezou um Pai Nosso e ofereceu ao Altíssimo. Em seguida pediu a Deus, ou melhor, ao Pai Celestial que me abençoasse, bem como a todos que faziam parte do meu círculo familiar. Após isso, disse que precisava voltar para junto do Pai. Antes de fazê-lo, contudo, me alertou de que bastaria um simples relance de olhos para aquele canto do quarto, ou mais precisamente para aquela parede sobre a cabeceira de minha cama e, Ele estaria comigo, a meu lado, sempre, desde que tivesse, no peito, muita fé e no coração muito amor pelo Criador de todas as coisas.

Ele quis dizer, em outras palavras, muito amor mesmo, ou seja, um amor incondicional e irrestrito à Deus, o Altíssimo e Eterno Supremo. Assegurei-lhe que assim faria, caso sentisse a aflição rondando minha porta ou os meus caminhos a serem seguidos.

- Agora olhe. Mate a sua curiosidade. Veja como fiz para chegar até aqui. 

Então Ele foi subindo, foi subindo, até que se postou, inerte, de braços abertos na cruz de madeira tosca que adorna a parede fria e suja de meu pequeno quarto nos fundos da casa enorme onde moro com minha mãe, meu pai e mais quatro irmãos menores.