Tinha
(apesar dos olhos meigos e serenos) um brilho diferente, um brilho que
parecia cegar a quem o fitasse por muito tempo. Naquele rosto bondoso, a
vida se apresentava de forma bastante acentuada. Talvez fosse a sua
personalidade marcante, seu modo de ser e de agir que faziam da sua presença
um encanto envolvente e jamais sentido. A todos, como a mim, em
particular, essa criatura cativou de imediato. Era como se a ternura
tivesse saído de seu habitat natural e, naquele corpo repleto de mansidão
houvesse feitomorada eterna.
Quando
falava, usava no timbre da voz uma tranqüilidade inebriante, uma calma
que envolvia e transmitia uma segurança ímpar vinda do céu. Só podia
ser do céu. Seus gestos, educados e finos, encantavam o mais profundo de
nossos corações.
Meu
primeiro contato com ele num final de semana, bastou para lhe dedicar uma
atenção maior.
Até
então me considerava um sujeito vil e infame. Um cara mesquinho e
perverso. Minha vida, até aquele instante, tinha sido escura, tristee melancólica. Na verdade, eu passava por sérios embaraços e
dificuldades. Meu caminho, a contar dos primeiros passos, vinha sofrendo
funestos momentos de intranqüilidades e incertezas. O negror das nuvens
da infelicidade parecia não querer se afastar de sobre a minha cabeça.
Entretanto, algo mudou em mim, algo me transformou a partir daquele
contato. Do meu primeiro contato com Ele. Senti um novo alento tomando
conta da minha alma. Na verdade ela se desprendeu de uma carga muito
pesada e enfadonha. Meu corpo, ficou leve. A cabeça parou de girar em
torno de pensamentos difusos e os pés acertaram terra firme. Deixei de
ser barco lutando contra a corrente forte. De repente, achei porto seguro
onde atracar.
Quando
aconteceu nosso primeiro encontro, eu estava deitado em minha cama, triste
e solitário, os olhos fechados, pensando no amanhã que logo viria
incerto e obscuro. Meus pais haviam saído e os meus outros irmãos
brincavam no terreiro. Ele chegou, de mansinho, sem que eu percebesse de
onde tinha saído, sem ao menos bater na portae disse que estava querendo falar comigo ha muito tempo. A princípio,
fiquei cheio de medo, mas ao olhar para o seu rosto e o reconhecer, fui
acalmando a tensão e o medo que estavam escondidos dentro de mim. Como
nossa vida é engraçada: eu tinha um amigo fiel ao meu lado, cuidando de
mim a todo momento, mas nunca havia me dado conta disso ou da sua presença.
E Ele estava agora, ali, mais perto ainda e querendo trocar algumas
palavras comigo...
Como,
como Você, quero dizer, como o Senhor fez isso?
Não
importa, meu filho. O que nos interessa é a sua situação. Fale-me da
sua vida. Conte-me seus problemas.
Procurei,
então, falar das minhas questões mais prementes, dasnecessidades que se avolumavam com o passar inexorável dos
dias. Contei a Ele dos meus temores, dos meus sonhos não realizados, dos
meus empreendimentos futuros.
Ele
me ouviu atento, silencioso, me encarando bem dentro dos olhos vermelhos
de tanto chorar angústias. Em nenhum momento sequer ousou me interromper.
Quando finalmente terminei o rosário de malezas que me atormentavam, Ele
me pediu que ficasse de joelhos e orasse. Obedeci. Fiquei de joelhos e
orei. Ele também orou comigo. Depois me pediu calma, muita calma e
desejou toda a paz do mundo para minha casa, para meus familiares e
principalmente para meu coração.
Colocando
as mãos em minha cabeça, fechou, por breves momentos os olhos e ficou
algum tempo em profundo silêncio. Findo esse prazo tomou minhas mãos e
rezou um Pai Nosso e ofereceu ao Altíssimo. Em seguida pediu a Deus, ou
melhor, ao Pai Celestial que me abençoasse, bem como a todos que faziam
parte do meu círculo familiar. Após isso, disse que precisava voltar
para junto do Pai. Antes de fazê-lo, contudo, me alertou de que bastaria
um simples relance de olhos para aquele canto do quarto, ou mais
precisamente para aquela parede sobre a cabeceira de minha cama e, Ele
estaria comigo, a meu lado, sempre, desde que tivesse, no peito, muita fé
e no coração muito amor pelo Criador de todas as coisas.
Ele
quis dizer, em outras palavras, muito amor mesmo, ou seja, um amor
incondicional e irrestrito à Deus, o Altíssimo e Eterno Supremo.
Assegurei-lhe que assim faria, caso sentisse a aflição rondando minha
porta ou os meus caminhos a serem seguidos.
-
Agora olhe. Mate a sua curiosidade. Veja como fiz para chegar até aqui.
Então
Ele foi subindo, foi subindo, até que se postou, inerte, de braços
abertos na cruz de madeira tosca que adorna a parede fria e suja de meu
pequeno quarto nos fundos da casa enorme onde moro com minha mãe, meu pai
e mais quatro irmãos menores.