A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

BRINCANDO DE EMPURRA-EMPURRA

 

   Minha atual mulher insiste veementemente que jogue fora a enorme pilha de jornais que trago da rua, todos os dias, para ler, mas nunca o faço. Digo atual, porque as quatro anteriores tinham  o mesmo problema: implicavam com meu amontoado de “lixo”, num canto do quarto da empregada mas, como sempre, e com jeitinho, ia empurrando para a barriga. Empurrei tanto, que acabei mudando, mais uma vez, de companheira. Nesse jogo de empurra para lá e para cá, consegui apagar várias velinhas de aniversário de empurramento de barriga, ou seja, empurrei tanto que duas delas acabaram seriamente grávidas. Inclusive uma empregada que veio do Paraná e passou a morar em casa. Sorte que meus filhos não nasceram cheirando a papel velho,  ou pior, com cara de traça.

A realidade, contudo, é que sofro muito para desfazer-me dessas publicações. Em cada uma delas, com certeza, terá alguma coisa útil, uma notícia, um  lembrete, que mais tarde servirá como subsídio para encaixar numa crônica, ou num texto a ser produzido. Dias atrás, por exemplo, num desses jornais encontrei um recorte com a relação completa de todos os ministros que compõem  a atual equipe administrativa de Lula. Foi neles que achei dados e informações para comentar sobre os atropelos e contratempos das figuras patéticas em volta do toreiro mecânico – perdão torneiro mecânico mais famoso  de São Bernardo do Campo, -  único  na história do Brasil que virou presidente. Também serviram para esclarecer uma dúvida cruel: um dos aviõezinhos de Bin Laden, no fatídico 11 de setembro bateu primeiramente na Torre Norte, ou na Torre Sul, do World Trade Center? E a que horas? Igualmente puseram fim num outro dilema paralelo que atormentava meu subconsciente: o ex. deputado federal Sérgio Naya e o engenheiro, amiguinho dele, Sérgio Murilo Domingues foram condenados (entre aspas) ha dois anos e oito meses de  prisão em regime semi-aberto (revertidos depois em prestação de serviços comunitários e pagamento de multa) pelo desabamento do edifício Palace 2, no Rio de Janeiro,  em 22 de fevereiro de l997 ou l996? 

Pois é: foi em l998! Enfim, há sempre um cenário novo descortinando horizontes insondáveis nas acontecencias, (tanto passadas, quanto presentes), o que leva-me a manter esse conjunto de informações ao alcance dos olhos. Por eles, e por tantos mais, a empilhagem desordenada e em decomposição vai  continuar crescendo, crescendo, enquanto a paciência impassível da esposa seguirá diminuindo, diminuindo e creio, chegará o dia fatal  em que a musa explodirá  de vez: ou boto tudo no lixo ou viro entulho e vou junto, de roldão, num saco plástico de supermercado, com meus amarelentos e desbotados jornais, para o enorme e sombrio corredor, ao lado dos elevadores e da escada de emergência.

Decididamente considero-me um dos maiores catadores  de jornais usados que conheço. O último que tive notícias morreu, coitado, de fome, perto da Estação Anhangabaú do metrô. A polícia, quando  encontrou seu corpo, cobriu seu rosto com um dos muitos jornais que carregava numa tosca carroça. É importante frisar que tomei conhecimento dessa notícia porque li a nota numa folha da Folha da Tarde, quase seis meses depois do acontecido.

Concluo, apesar dos pesares e das broncas constantes da patroa, principalmente por causa da empregada que  anda espirrando muito, (toda vez que necessito ir no quarto dela destripar os jornais), que efetivamente não posso, de forma alguma, desfazer-me desse material, aliás, material constante de pesquisas e estudos para cidadão nenhum botar defeito. E atentem, só para um detalhezinho: continuo empurrando!...