A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

ENTRAVES E ENTREVEROS

 

   Certas coisas me irritam, sobremaneira, e sei que enumerando aqui vão me chamar de  louco ou de neurótico de carteirinha. Mas querem minha opinião sincera?  Não me incomodo nem um pouco. Quer chatice mais  estressante chegar no prédio onde se mora (me escondo no sétimo) e ter que subir pelas escadas? Entrar num barzinho para tomar um cafezinho com  amigos e encontrar uma mosca no fundo da xícara?  Já aconteceu com vocês toparem com um fio de cabelo no prato  misturado à comida ?  Um nervo na carne assada, bolotinhas no purê de batatas, pouco açúcar no suco de laranja? 

A mim irrita muitíssimo ao tomar banho deixar cair o sabonete das mãos, principalmente se a companheira estiver junto, no box. Por cortesia pura de um cavalheiro que sabe qual é o seu lugar, não se deve esperar que ela se abaixe.  Ao ficarmos, entretanto, de bunda para cima, naquela posição de Napoleão desconsolado por ter perdido a guerra, deve ser ridículo para quem permaneceu de pé, só observando, e com certeza, pensando baixinho, “que troço mais feio, nunca havia reparado”. Fico quicando de raiva levar uma panela para cozinhar  ou esquentar alguma coisa no fogo e topar com a torneirinha do gás fechada, ou apertar o botãozinho desses fogões modernos e o clic da chama não obedecer. Mais irado não encontrar a caixa de fósforos, ou atinar com ela, o riscador molhado ou um amontoado de  palitos usados, guardados sabe-se lá para quê.  É claro que me enfurece o sangue o sujeito fumar por perto (odeio o cheiro da fumaçinha do cigarro)  e deixar o jornal que ainda não passei os olhos com os cadernos internos misturados ou um filho de Deus tirar do lugar o marcador da página do livro que estou tentando chegar ao final do enredo..

Não consigo controlar a raiva, ao ligar para a casa de alguém, e do outro lado, uma criança pegar o fone, ou um imbecil ficar repetindo: alo, alo, quem é, quer falar com quem, não tem o que fazer?  A criança até dá para perdoar, mas o imbecil é de encher os piquás. Calcinha na torneira do chuveiro é outra droga insuportável. Bacia de privada sem tampa, e a gente tendo que acomodar o traseiro na porcelana fria, e pior, molhada, porque um espírito de porco que a usou anteriormente mijou fora. Fico  trepado nos cascos, o telefone se esgoelar na sala  e ao atender o desgraçado desligar na cara; não achar os chinelos onde os deixei guardado; o mesmo ocorrendo com um simples lenço quando espirros inoportunos atacam o nariz e o catarro garra a descer pelo bigode deixando a gente sem saída e com cara de trouxa.

Controle remoto de televisão ou do vídeo ou do aparelho de som. Nem pensar em lidar com eles. Odeio. Sempre aperto a  “porrinha“ errada. Procurar as chaves certas para abrir as portas, principalmente quando (no meu caso, duas, além da grade de ferro) se está com a bexiga cheia querendo correr para o toalete . Mais mau, ainda, voar para o banheiro, a bosta fustigando o rabo, quase a sujar as cuecas e a infeliz da sogra ter acabado de se trancar para um prolongado asseio das partes secretas. Pudesse escapar das pessoas que de repente, na calçada, param a nossa frente, sem aviso, ou do sujeito que no ônibus, tosse na cara, ou de certos passageiros (me refiro aos homens), que deseducadamente vendo a gente acomodado  se achegam e encostam o corpo com aquele volume bem na altura da boca. Também é desconcertante um grupinho de estudantes (as adolescentes geralmente fazem isso) passarem por nós, mochilas as costas ou bolsas penduradas dando porradas para tudo quanto é lado. Sem mencionar os mais afoitos, no banco de trás, que ao se levantarem,  grudam nos nossos poucos cabelos ou nos endereçam um tapa certeiro na orelha, ou nos óculos e no final saem rindo, como se nada tivesse acontecido. Claro que daria para estender a lista das aberrações por muitas linhas e folhas, contudo, cairia no escárnio e igualmente deixaria enervado meus leitores. Para terminar essa confusão toda, o que me deixa com vontade de arrancar o fígado com um tridente em brasa: na hora de namorar, a ferramenta resolver brochar  de vez e não dar sinais de vida!.  Não é um tremendo chute no saco e ainda por cima com o pé esquerdo?