A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

IAIÁ DUDU

   Rostinho de feições criança, olhinhos exprimindo empolgues, desejos desfolhando sorrisos, inundando ternura. Mãozinhas em busca de artes, o mundo inteiro, a sua volta a se contemplar pequeno diante desse vivente esperto e traquinas, colorindo de vida plena um certo pedaço de chão.

E é o chão de terra firme que sustenta seu corre-corre incessante atrás da bola de futebol, da pipa com linha curta que mal sabe manter firme, suspensa  no ar. Das bolinhas de gude, do balanço nos fundos da casa, do carrinho de bombeiro que comprei quando completou um aninho de vida. Aí está você, pulando com  energia, a todo vapor, o coraçãozinho dentro de peito,  quase a saltar pela boca.

Assim os dias passaram e continuam mais intensos, ligeiros, como as águas de um rio caudaloso e fundo. Iaiá Dudu, com o passar desses dias,  tornou-se um homenzinho dentro do espaço infantil que parece debruçar-se sobre sua cabeça, dando-lhe ares e modos de gente grande.

Ontem mesmo, quem diria!...ontem, esse menino de olhinhos vivos e penetrantes não ia além de um pequeno ser  miuçalho  e confuso, embrulhado em fraldas com desenhos de bichinhos coloridos; a carinha cheia de brotoejas se espalhando pela finura da pele. Não faz muito, eu o carreguei nos braços...e o tive ao alcance das mãos...

Embaraçado, com tanta manta tapando seu frio, desconcertei-me  com seu chorinho agudo  penetrando meus tímpanos. No entanto, agora, muitos anos depois, o vejo assim,  crescido, forte, amadurecido, dono de si.  Na verdade, um  homem adulto. Puxa, que belo pedaço de rapaz me saiu!...

Daquele ovinho de casca fina, daquele frágil bebê a se quebrar ao menor toque, tenho, diante de mim, o sonho nascido de um amor que parecia firme e imbatível. De um sonho que tinha tudo para seguir em frente e prosperar “ad eternun”. Mas não importa. O que passou, passou. Não adianta ficar, aqui, agora, chorando sobre o leite derramado, ou voltar em busca dos passos que ficaram para trás.  Iaiá Dudu cresceu. Cresceu e vingou como boa semente plantada em terra cultivada. Do meu pequeno Iaiá, tenho, agora, diante dos olhos, um outro Eduardo, mas, no fundo, o mesmo gurizinho que segurei nos braços, que dei banho, que alimentei, que ajudei a trocar fraldas, que acordava, de noite, com febre e deixava de cabelo em pé, apavorada, e sem saber o que fazer, a Dalva, (minha primeira esposa). Eduardo seguiu em frente, e olhem só, está aqui. Tenho orgulho dele. Um orgulho que muito me envaidece. Vocês não imaginam como é confortante ter diante do nariz e poder contemplar, como  uma obra prima, de arte, aliás, da arte do amor que chegou numa boa hora; que prosperou e que agora, como tudo o que é bom, tem vida própria e caminha, sozinho, em direção ao futuro que tenho certeza, o espera, de braços abertos.

Eduardo, meu filho, pedaço inseparável de mim, sangue do meu sangue. Que seu trilhar, nesta vida, seja iluminado por  momentos de muita felicidade. Que você consiga, sobretudo, chegar ao topo da glória e que seus passos sejam abençoados pelo Senhor de todas as coisas. Que Deus o proteja, sempre!...