A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

A HUMILDADE DAS LÁGRIMAS

 

   Hoje deparei com uma cena constrangedora. Flagrei, sem querer, meu irmão André chorando. Mas chorando mesmo, das lágrimas escorrerem pelo rosto e ensopar a camisa. Ele estava em sua sala, sentado na mesa de trabalho, com uma fotografia nas mãos, sobreposta numa espécie de troféu, talhado em pedra bruta esverdeada. No instante em que cheguei, olhava fixamente para um rosto. Era o de Jorge, seu pai, já falecido. Nessa peça de enfeite, ele segurava uma criança recém-nascida ao lado de minha mãe.

André é meu irmão por consangüinidade materna. Depois que a mãe separou de meu pai (seu primeiro marido), passou a viver em concubinato com meu padrasto, cuja união perdurou por mais de trinta e cinco anos, quando veio a falecer, vítima de infarto agudo do miocárdio, numa manhã cinzenta de um abril que todos gostaríamos nunca tivesse batido às portas. Com o Jorge, mamãe teve mais dois filhos, além do André: o Rogério e o Cláudio.

Mas o fato de vê-lo envolto em si mesmo, num momento tão seu, tão penoso, as lágrimas brotando em abundância, fez-me, por breves minutos, voltar correndo ao passado. Ao tempo em que ainda entre nós, o velho Jorge se abria em sorrisos contagiantes e fazia tiradas engraçadas das coisas mais corriqueiras que aconteciam no dia-a-dia. Ele realmente era um amor de pessoa, muito sensível, carregava, na alma, forte carga de emoção e afetividade. Alegre, brincalhão, cultivava uma personalidade  que cativava e envolvia. Claro, tinha lá seus defeitos e rompantes transitórios, reações por vezes impetuosas, regadas a esgares da mais pura insensatez, como todos os seres mortais.

Afora isso, passava para a família um quadro de beleza singular, pintava com tintas coloridas um universo de perseverança e fé no futuro. Detinha, no espírito jovial, a proeza dos corajosos, a robustez dos valentes e a certeza dominante de que embora tivesse diante do nariz um mar imenso e desconhecido, haveria de surgir um barco encantado, que realizaria, a contento, a travessia, por mais difícil que fosse, e uma vez  transposto o oceano, a magia do sucesso alcançado o estaria esperando, do outro lado de braços abertos.

Lembro, uma vez, ha muito tempo, começava a ler a “Suma Teológica”, de Tomás de Aquino, e logo na introdução, uma espécie de prefácio,  escrito por João Ameal se não me falha a memória, dizia mais ou menos  o seguinte:

“O homem é um viajante que esqueceu o seu destino, e precisa regressar ao lugar de onde veio para saber  para onde vai”.

O Jorge foi um desses viajantes. Ficou aqui na terra um bom tempo, virou, mexeu, casou, descasou, arranjou filhos com outras mulheres, trabalhou, lutou, passou por inúmeras dificuldades e atravessou momentos de calma magnitude. Não chegou a nada, não foi ninguém de destaque que vivesse metido em  rodas de badalações, ou sob as luzes e os holofotes da fama. Não ganhou busto de bronze, edificado em praça pública, tampouco se viu reconhecido em nome de rua ou avenida. Em contrapartida, deixou a sua marca registrada em cada coração que se abriu ao bucolismo do seu sorriso. Costumava dar tudo de si para alcançar os objetivos. Cuidava para que as preocupações não o afastassem dos prazeres da vida, nem do convívio com os amigos e familiares. Mas seu dia chegou. E teve, pois, que regressar ao lugar de onde viera. Deus o chamou para morar consigo num lugar distante, além fronteira infinita que nossos olhos não conseguem enxergar. Nessa altura do campeonato, Jorge deve saber para onde seguir...

Quem sabe esteja aqui, agora, entre os seus pares, disfarçado de nuvem, assumindo formas determinadas: as vezes um gatinho, outras, um girassol, quem sabe um palácio com colunas majestosas matizadas por raios de sol ou brisa suave soprando as folhas das arvores, ou no sorriso de um de seus  netos sapecas ou indo um pouco mais longe, num raro passarinho de  penas multicores desses que às vezes se achega até a janela em busca de quimeras.

O André foi o ultimo a chegar. Meio rebelde, dono da situação, extremamente invocado, cabeça dura, brabo, metido a valente, pedra bruta que não quer nem se deixa ser lapidado, mas no meio disso tudo, “sangue bom”. A cena do choro compulsivo, com o retrato do pai falecido entre as mãos quebrou-me por dentro, como o cristal. Vi o tão indefeso, desamparado, criança em busca de um aconchego, sentindo a falta do pai, do amigo, do companheiro de todas as horas; a presença que confortava, o calor que aquecia, as palavras que chegam na hora certa.

Vendo o André, ali, de coração partido, esmagado pelos contratempos da vida, triturado pela ausência de atenção e afago, esmigalhado pelo sentimento brutal da solidão; o peito ferido, contundido, melindrado, quem sabe aberto para uma palavrinha de consolo, senti-me impotente, incapacitado, fraco, oprimido, débil e culpado, sobretudo culpado porque não o abracei (sendo o mais velho dos quatro) e nada tentei fazer para espantar a dor pujante, o sofrimento moral, a aflição, a mágoa, o pesar claramente manifestado em seu semblante pela perda e pelo apartamento daquela criatura que um dia reuniu todos nós embaixo de um teto simples e humilde e conseguiu a proeza de sentar com todos em derredor de uma mesa onde nunca faltou o pão de cada dia.

O André vai conseguir entender, claro que vai, que, embora seu velho pai Jorge não esteja mais por perto, sua influência espiritual se fará notar em cada novo minuto, bem como todos os momentos bons e maus.

Que da pequenez daquela foto, segurando um recém-nascido, ao lado da mamãe, no porta retrato sobre a mesa, o velho Jorge vai torcer para que a estrada do André se erga todos os dias ao encontro de um novo amanhã, de igual forma, que o vento esteja sempre às suas costas, que o sol brilhe quente em sua face, e que a chuva caia suave sobre sua cabeça.

Oxalá, André, meu irmão, até que um dia nós todos, eu, você, mamãe, Cláudio e Rogério nos encontremos de novo frente a frente e ao redor da mesa junto com os demais que fazem hoje a grande ciranda do esteio familiar, sob aquele teto singelo, ladeado do velho Jorge, que Deus lhe proteja e lhe guarde na palma de Sua Mão.