Hoje,
dia oito de maio, a minha filha número cinco completa mais um ano de
vida. Nasceu faceira, alegre, saltitante em mil novecentos e noventa e
oito, as nove horas e cinco minutos, cinco anos atrás. Liguei, logo cedo
para sua casae mandei chamá-la.
Veio
atender com a curiosidade nata e a bisbilhotice próprias da idade. Ao
ouvir minha voz, embora soubesse de antemão de quem se tratava, não se
fez de rogada.
Quem
está falando?
Seu
pai...
A
reação não me agradou.
Amanda,
seu pai está no telefone...
De
uns meses para cá, a danadinha vem mostrando um lado obscuro, sombrio,
confuso, enigmático e, de certa forma deslumbrante de sua personalidade
que todos desconhecíamos completamente. Por motivos encobertos e
escondidos, resolveu, sabe-se lá, porque cargas d’água, não me
aceitar. Encucou que Toninho, o atual companheiro da minha ex é o seu
verdadeiro genitor. Essa invenção ou juízo fora de foco, projeta concepções
que não me agradam nenhum pouco. Todavia, nesse momento deinquietação e desassossego invadindo meu mundointerior, e também de turbulências e agitos descomedidos,
percebo, não existir muita coisa que possa ser feita. Há consciência,
todavia, que preciso urgentemente reagir, persistir com obstinação e
contumácia. Não perder terreno e ficar para trás, como se tivesse
acorrentado no tempo e no espaço. Necessito, ainda, marcar presença,
fazer-me mais consistente em seu cotidiano, paraque a mocinha abra a guarda e volte às boas. No fundo, puxou a
mim. A começar pela carinha: cuspida e escarrada. Os olhos, os contornos
da boca, o nariz, o jeito maroto, esperto, ladino, malicioso e picante de
menina sapeca, conseqüentemente arteira, manhosa, travessa, debochada,
desafiadora, zombeteira, extremamente malcriada, indelicada, grosseira e
acintosamente pirracenta.
Tem
opinião definida. Dá-se a conhecer logo no primeiro momento. Manifesta,
de igual forma, sua raiva,fúria,
e ódio sem mandar recados. Escreveu não leu, desce o braço. Adora
morder e o faz sem piedade alguma ou compaixão. A irmã, Amanda, minha
filha numero quatro, passa maus bocados em suas garras. Além de ser
magricela e franzina, vive levando bofetadas e sopapos a torto e a
direito. Luana é forte, corajosa, destemida, enérgica e carrega uma
disposição poderosa e violenta. E por ser assim, se aproveita dessa
superioridade elevada e abusa, chegando, muitas vezes, ao exagero de
atingir os limites da insensatez.
Amanda
pegou o aparelho e queria, porque queria, que fosse buscá-la. Deu um
ultimato.
Vem
agora...
Expliquei,
pacientemente que naquele momento seria impossível, porque o trabalho não
permitia.
Você
me leva para o seu escritório.
Vou
ver o que faço. Põe sua irmã no telefone.
A
Maria Antonia quer falar.
Maria
Antonia é a filha de minha ex cunhada, cujo marido morreu assassinado.
Resolvi adotá-la e sempre que as possibilidades permitem não esqueço de
uma lembrancinha. Geralmente ao comprar alguma coisa para as minhas,
igualmente adoço a boca da jovenzinha com uma besteirinha qualquer, um
passatempo de R$ 1.99tão em
moda, para não magoar.
Criança
é criança e se por acaso se sente rejeitada, repelida, apartada, ou
deixada de lado, magoa o coração, melindra a alma e se sente ferida no
seu íntimo, contristada, desconsiderada, e pior, suscetibilizada por uma
aflição muito intensa que agasta a infância e deixa marcas indeléveis
para o resto da existência.
Lubélula?
Olá...
Você
vai comprar um presente para a Luana?
Vou
E
prá Amanda?
Também.
E
para mim?
Para
as três. Vou comprar para as três. Agora chama a Luana.
Escuto
sua voiszinha, aos berros, chamando a prima.
É
a Lubélula.
Luana
retorna.
Quem
é?
Seu
pai
Você
vai me dar um presente?
O
que quer ganhar?
Uma
Lupércia igual a da Amanda.
Explicação:
Lupércia é uma boneca dessas grandes, que vem acondicionada numa caixa
bonita e custa uma grana de fazer medo aos bolsos. O nome estrambólico,
esquisito e extravagante veio à memória no instante em que entrei numa
dessas muitas lojas existentes no shopping e comprei, na época, para a
Amanda, que fazia pouco tempo, completara três anos. A alcunha pegou na
primeira. E agarrou de tal forma que vem passando de filha para filha.
Papai
compra.
Você
é meu pai?
Sou...
Não
é.
Sou
sim...
Ouço
os gritos alvoroçados de Amanda querendo a posse do telefone. As duas
iniciam uma discussão. Peço calma, mas elas, levadas pelo calor da
contenda, não me ouvem. De repente, a linha cai. Seguidas vezes tento
restabelecer o contato, mas o sinal de ocupado, intermitente, irrita e
enche o saco.
Faculto,
a mim mesmo, um espaço de vinte minutos de intervalo. Vou à cozinha,
tomo um café. Belisco alguma coisa na geladeira. Findo esse prazo,
retorno às ligações. Qual o que!. O quadro é idêntico o de antes. Das
duas, uma: ou as danadinhas esqueceram o fone fora do gancho ou se
engalfinharam em luta corporal. Prefiro acreditar no pior. Minhas duas
filhas estão atracadas, aos tapas e aos beliscões.
O
que faço? O que faço? Meu Deus, o que faço?
Sem
resposta plausível, a agonia da impotência me ataca os nervos. Então
começo a gritar, desesperado e os vizinhos mais chegados acorrem,
pensando, talvez, que esteja ficando louco da cabeça. No fundo, acho que
eles tem toda razão.