A casa dos grandes pensadores
 
 

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

 

 

 

 

LUANA CRISTINA

 

   Hoje, dia oito de maio, a minha filha número cinco completa mais um ano de vida. Nasceu faceira, alegre, saltitante em mil novecentos e noventa e oito, as nove horas e cinco minutos, cinco anos atrás. Liguei, logo cedo para sua casa  e mandei chamá-la.

Veio atender com a curiosidade nata e a bisbilhotice próprias da idade. Ao ouvir minha voz, embora soubesse de antemão de quem se tratava, não se fez de rogada.

Quem está falando?

Seu pai...

A reação  não me agradou.

Amanda, seu pai está no telefone...

De uns meses para cá, a danadinha vem mostrando um lado obscuro, sombrio, confuso, enigmático e, de certa forma deslumbrante de sua personalidade que todos desconhecíamos completamente. Por motivos encobertos e escondidos, resolveu, sabe-se lá, porque cargas d’água, não me aceitar. Encucou que Toninho, o atual companheiro da minha ex é o seu verdadeiro genitor. Essa invenção ou juízo fora de foco, projeta concepções que não me agradam nenhum pouco. Todavia, nesse momento de  inquietação e desassossego invadindo meu mundo  interior, e também de turbulências e agitos descomedidos, percebo, não existir muita coisa que possa ser feita. Há consciência, todavia, que preciso urgentemente reagir, persistir com obstinação e contumácia. Não perder terreno e ficar para trás, como se tivesse acorrentado no tempo e no espaço. Necessito, ainda, marcar presença, fazer-me mais consistente em seu cotidiano, para  que a mocinha abra a guarda e volte às boas. No fundo, puxou a mim. A começar pela carinha: cuspida e escarrada. Os olhos, os contornos da boca, o nariz, o jeito maroto, esperto, ladino, malicioso e picante de menina sapeca, conseqüentemente arteira, manhosa, travessa, debochada, desafiadora, zombeteira, extremamente malcriada, indelicada, grosseira e acintosamente pirracenta.

Tem opinião definida. Dá-se a conhecer logo no primeiro momento. Manifesta, de igual forma, sua raiva,  fúria, e ódio sem mandar recados. Escreveu não leu, desce o braço. Adora morder e o faz sem piedade alguma ou compaixão. A irmã, Amanda, minha filha numero quatro, passa maus bocados em suas garras. Além de ser magricela e franzina, vive levando bofetadas e sopapos a torto e a direito. Luana é forte, corajosa, destemida, enérgica e carrega uma disposição poderosa e violenta. E por ser assim, se aproveita dessa superioridade elevada e abusa, chegando, muitas vezes, ao exagero de atingir os limites da insensatez.

Amanda pegou o aparelho e queria, porque queria, que fosse buscá-la. Deu um ultimato.

Vem agora...

Expliquei, pacientemente que naquele momento seria impossível, porque o trabalho não permitia.

Você me leva para o seu escritório.

Vou ver o que faço. Põe sua irmã no telefone.

A Maria Antonia quer falar.

Maria Antonia é a filha de minha ex cunhada, cujo marido morreu assassinado. Resolvi adotá-la e sempre que as possibilidades permitem não esqueço de uma lembrancinha. Geralmente ao comprar alguma coisa para as minhas, igualmente adoço a boca da jovenzinha com uma besteirinha qualquer, um passatempo de R$ 1.99  tão em moda, para não magoar.

Criança é criança e se por acaso se sente rejeitada, repelida, apartada, ou deixada de lado, magoa o coração, melindra a alma e se sente ferida no seu íntimo, contristada, desconsiderada, e pior, suscetibilizada por uma aflição muito intensa que agasta a infância e deixa marcas indeléveis para o resto da existência.

Lubélula?

Olá...

Você vai comprar um presente para a Luana?

Vou

E prá Amanda?

Também.

E para mim?

Para as três. Vou comprar para as três. Agora chama a Luana. 

Escuto sua voiszinha, aos berros, chamando a prima.

É a Lubélula.

Luana retorna.

Quem é?

Seu pai

Você vai me dar um presente?

O que quer ganhar?

Uma Lupércia igual a da Amanda.

Explicação: Lupércia é uma boneca dessas grandes, que vem acondicionada numa caixa bonita e custa uma grana de fazer medo aos bolsos. O nome estrambólico, esquisito e extravagante veio à memória no instante em que entrei numa dessas muitas lojas existentes no shopping e comprei, na época, para a Amanda, que fazia pouco tempo, completara três anos. A alcunha pegou na primeira. E agarrou de tal forma que vem passando de filha para filha.

Papai compra.

Você é meu pai?

Sou...

Não é.

Sou sim...

Ouço os gritos alvoroçados de Amanda querendo a posse do telefone. As duas iniciam uma discussão. Peço calma, mas elas, levadas pelo calor da contenda, não me ouvem. De repente, a linha cai. Seguidas vezes tento restabelecer o contato, mas o sinal de ocupado, intermitente, irrita e enche o saco.

Faculto, a mim mesmo, um espaço de vinte minutos de intervalo. Vou à cozinha, tomo um café. Belisco alguma coisa na geladeira. Findo esse prazo, retorno às ligações. Qual o que!. O quadro é idêntico o de antes. Das duas, uma: ou as danadinhas esqueceram o fone fora do gancho ou se engalfinharam em luta corporal. Prefiro acreditar no pior. Minhas duas filhas estão atracadas, aos tapas e aos beliscões.

O que faço? O que faço? Meu Deus, o que faço?

Sem resposta plausível, a agonia da impotência me ataca os nervos. Então começo a gritar, desesperado e os vizinhos mais chegados acorrem, pensando, talvez, que esteja ficando louco da cabeça. No fundo, acho que eles tem toda razão.